Capítulo 13 – O Beijo e a Ferida
O sol finalmente rompeu a tempestade que assolara Vila Serena. As ruas ainda carregavam poças de água e galhos caídos, mas a brisa da manhã trazia uma sensação de renovação. Para Helena, no entanto, nada parecia renascer. A cada passo que dava dentro da confeitaria, sentia que o coração estava preso no chão, pesado demais para ser erguido.
Naquele dia, Carolina foi quem assumiu o balcão. Helena refugiou-se no andar de cima, junto à janela do quarto, observando os moradores reconstruírem o que a tempestade havia destruído. Enquanto isso, dentro dela, a verdadeira destruição seguia oculta.
Do outro lado da cidade, Gabriel caminhava sem rumo pelas ruas estreitas. Não tinha dormido. O peso do passado e o amor que insistia em pulsar dentro dele travavam uma batalha silenciosa. Por mais que quisesse fugir de Helena, cada lembrança a trazia de volta. E era justamente essa dualidade que o levava, sem perceber, em direção à confeitaria.
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Helena desceu as escadas ao ouvir a sineta da porta tocar. O coração disparou quando o viu ali, parado, encharcado de suor e hesitação.
— Gabriel… — murmurou, a voz trêmula.
Ele a encarou como se tentasse decifrá-la. Não havia raiva em seus olhos, mas também não havia paz.
— Precisamos conversar.
Carolina percebeu a tensão e discretamente saiu pelos fundos, deixando-os sozinhos.
Helena respirou fundo.
— Eu sei que errei em esconder. Mas me entenda, Gabriel. Eu só queria proteger o que temos.
— Proteger? — repetiu ele, com amargura. — Mentindo para mim?
Ela se aproximou, lágrimas já marejando os olhos.
— Eu estava com medo… medo de te perder, medo de que esse amor fosse sufocado por algo que não escolhemos.
O silêncio se alongou entre eles. Gabriel lutava contra o impulso de tocá-la. Helena, por sua vez, lutava contra o medo de que ele se afastasse de vez.
— O que sente por mim é real, Gabriel? — perguntou, com a voz embargada. — Ou vai deixar o passado decidir por nós?
Ele fechou os olhos, respirando fundo. Quando os abriu, deu um passo à frente, segurando o rosto dela com firmeza.
— Maldita seja essa verdade… porque, mesmo sabendo de tudo, não consigo deixar de te amar.
Helena soluçou, e antes que pudesse responder, os lábios dele encontraram os seus. Foi um beijo intenso, desesperado, como se ambos buscassem nele a salvação e o perdão. As mãos se entrelaçaram, os corpos se aproximaram, e por alguns segundos, o mundo deixou de existir.
Quando se afastaram, Helena sussurrou:
— Então fica comigo… vamos enfrentar isso juntos.
Mas Gabriel recuou, o olhar ferido.
— O beijo não apaga a ferida, Helena. Só prova o quanto dói amar você.
E saiu, deixando-a em prantos.
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Do lado de fora, escondido atrás de uma esquina, Rafael observava a cena com um sorriso satisfeito. Não ouvira as palavras, mas o beijo fora suficiente.
— Ah, que ironia deliciosa. — murmurou. — O amor deles é a arma perfeita… porque quanto mais se amam, mais sofrem.
Pegou um caderno do bolso e anotou alguns detalhes. Sua mente já tecia a próxima jogada: espalhar a história, manipular as versões, transformar o beijo em mais uma faca contra Gabriel.
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Na mansão Monteiro, Beatriz pressionava os templos, tentando manter o controle. Os comentários sobre Gabriel e Helena corriam pela cidade, e cada boato era um golpe contra o prestígio da família.
Marina entrou no quarto com cautela.
— Senhora, devo informar que ouvi empregados comentando… dizem que Gabriel foi visto na confeitaria, aos beijos com Helena Duarte.
Beatriz fechou os olhos, sentindo o sangue ferver.
— Isso precisa parar.
— A senhora deseja que eu…? — Marina começou, hesitante.
— Não. — cortou Beatriz. — Ainda não. Mas está claro que preciso tomar as rédeas dessa situação antes que Rafael faça o estrago completo.
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No entanto, a cidade já fervilhava. No mercado, na praça e até mesmo na igreja, o beijo entre Gabriel e Helena era o assunto principal. Uns viam nele a força de um amor proibido, outros o consideravam um escândalo.
Padre Augusto, ao ouvir os comentários, apertou o rosário entre os dedos. Sabia que os dois jovens precisavam mais do que nunca de orientação, mas também sabia que as línguas afiadas de Vila Serena poderiam destruir até o mais puro dos sentimentos.
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À noite, Helena não conseguiu dormir. Voltava constantemente àquele beijo: a intensidade, o calor, mas também a dor que ficara em seguida. Decidiu que não podia mais ser refém do silêncio.
Pegou o caderno da mãe e escreveu uma carta a Gabriel, relatando tudo que sabia, sem esconder nada. Quando terminou, sentiu-se mais leve, ainda que temesse a reação dele.
Na manhã seguinte, colocou a carta na caixa de correio da mansão Monteiro, com o coração disparado.
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Rafael, que parecia ter olhos em toda parte, logo soube do gesto. Antes que Gabriel tivesse acesso à carta, interceptou-a com a ajuda de um funcionário subornado. Leu cada palavra com deleite, saboreando o desespero de Helena.
— Ah, minha doce prima… — sussurrou. — Você mesma escreveu a arma que usarei para destruir vocês.
Guardou a carta em seu cofre particular, planejando o momento certo de usá-la.
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Gabriel, alheio à traição, passou o dia atormentado. Tentava convencer-se de que se afastar era a decisão certa, mas o gosto do beijo ainda estava nos lábios.
À noite, caminhou até o cais, onde o mar refletia a lua cheia. Pensou em Helena, na força do que sentiam, e perguntou-se se teria coragem de romper de vez.
O vento trouxe uma lembrança da voz dela, pedindo que enfrentassem juntos. O coração bateu mais forte, dividido entre o amor e a honra.
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No mesmo instante, Helena rezava no quarto, pedindo a Deus que Gabriel lesse sua carta e entendesse sua verdade. Mas não sabia que suas palavras já estavam nas mãos erradas.
Do lado de fora, Rafael observava as luzes da confeitaria se apagarem. Segurava a carta contra o peito, rindo sozinho.
— O beijo os uniu, mas esta carta será a ferida que nunca fechará.
E assim, sob o brilho da lua, o destino de Helena e Gabriel ficava mais uma vez à mercê das tramas de Rafael.