[Narrado por Charada]
O cheiro de pólvora sumiu, mas o cheiro de problema continuava no ar. Não era aquele problema de tiroteio ou de corpo estirado no chão. Era o cheiro da loucura.
Eu estava sentado na cozinha, seis da manhã, tomando meu café forte e amargo. O barulho do tiro da noite passada ainda não tinha saído da minha cabeça. Não pelo barulho em si, mas pelo motivo. Destruir a fechadura da própria cozinha por causa da Liz... isso é coisa de quem perdeu o juízo.
Olhei para a sala. Hugo estava jogado no sofá como se nada tivesse acontecido, com o fuzil no chão. Ele não estava dormindo; ele estava de vigia. Os olhos dele seguiam qualquer barulho que a garota fazia dentro do quarto, mesmo com a porta fechada.
Conheço o Hugo desde que ele era um pivete chato querendo aparecer para o pai. Conheço o código, conheço as regras. E eu sabia que a regra número um para manter o morro na mão é nunca mostrar fraqueza. E agora, a fraqueza dele estava estampada na cara para todo mundo ver.
— A gente está moscando, Talibã — falei logo, sem enrolação, com o copo de café na mão. — A moto do safado lá de baixo já foi devolvida. O motorista levou uns tapas para aprender, e o Carlinhos já está lá fora no portão fazendo a vigia, com uma cara de quem preferia estar morto.
Hugo nem se mexeu, só virou o rosto para mim.
— É o recado, Charada. Ninguém mexe no que é meu.
— O recado não é só para quem tentou levar ela daqui. É para nós também — bati o pé. — A Vila Sapê está só esperando um vacilo nosso. O Gordão já sabe que o nosso movimento caiu desde que você ficou bitolado nessa parada com a Liz.
Falei o nome dos rivais e dos problemas reais, tentando trazer ele de volta para o chão, para a correria que mantinha a gente vivo.
— O Vidigal é meu. O Gordão não apita nada aqui — Hugo respondeu com a voz vazia, como se o perigo de fora não fosse nada perto do drama dentro de casa.
— Ele não precisa apitar nada. Ele só precisa que a gente erre sozinho. E você está gastando nosso tempo e nossa segurança com ciúme. A Liz não é mercadoria, Talibã. Ela é um problema. E o que a gente faz com problema?
Fiz a pergunta que o Morte sempre ensinava. A resposta era curta: elimina.
Hugo levantou, mas não veio falar comigo. Subiu as escadas e entrou no quarto da Liz sem nem bater, sem esperar resposta.
Respirei fundo. Já saquei tudo: para o Hugo, a Maria Liz não era um problema para ser resolvido; ela era o troféu que ele ia usar para se destruir. Fiquei ali na sala, me sentindo um soldado vendo o general cavar a própria cova enquanto o inimigo atira.
Quando o Hugo desceu, ele parecia calmo até demais. Mas os olhos brilhavam com uma posse doentia. Ele segurava um caderno velho.
— Mandei a Liz escrever uma carta para a faculdade. Ela vai largar o curso.
Fechei os olhos por um segundo. Ele estava cortando o último laço que ela tinha com o mundo lá fora.
— E por que isso?
— Porque ela não vai mais sair, Charada. A faculdade é lá embaixo. Aqui ela tem tudo: segurança, comida e a mim. Se ela pisar na rua, ela foge, e eu não quero ter que fazer algo pior com ela.
Ele falou isso com uma certeza que dava medo. Não era amor. Era uma doença, um câncer de posse que estava começando a corroer tudo o que o Morte construiu.
— O Morte te deu a Liz como um lembrete de que tinha que existir um limite, Talibã. Um ponto de honra — falei, sabendo que estava pisando em ovos. — Você transformou o limite em obsessão. Isso vai dar r**m, Talibã. Vai dar muito r**m.
Hugo largou o caderno e veio para cima de mim, com o rosto colado no meu. Pela primeira vez em anos, senti um arrepio. Não o medo de um chefe, mas o medo de um homem que perdeu a razão.
— Eu sou o Talibã — ele sussurrou, com a voz tensa. — Eu mando nessa p***a, Charada. E a ordem é essa: a Liz não se mexe, não fala e não sai daqui. Quem questionar minha ordem, quem vier falar de limite ou do meu pai, vai conhecer a força de quem não tem nada a perder além dela.
Ele apertou meu ombro, me dando um aviso.
— Você é meu braço direito. Está comigo ou não está?
Olhei para o fuzil no sofá e depois para a cara dele, transformada pela loucura. O Hugo não era mais o líder que respeitava o código; ele era uma bomba prestes a explodir.
— Estou contigo, Talibã. Sempre — menti.
Mas enquanto eu olhava para ele, pensando nos rivais e no resto do Rio esperando a gente vacilar, eu soube: se ele não se livrasse do problema, eu teria que fazer isso por ele.
E o problema não era a Vila Sapê. O problema era a Liz ou, pior ainda, no que ela transformou o Hugo.