Capítulo:6_O chefe e o caos

917 Words
​[Narrado por Charada] ​O cheiro de pólvora sumiu, mas o cheiro de problema continuava no ar. Não era aquele problema de tiroteio ou de corpo estirado no chão. Era o cheiro da loucura. ​Eu estava sentado na cozinha, seis da manhã, tomando meu café forte e amargo. O barulho do tiro da noite passada ainda não tinha saído da minha cabeça. Não pelo barulho em si, mas pelo motivo. Destruir a fechadura da própria cozinha por causa da Liz... isso é coisa de quem perdeu o juízo. ​Olhei para a sala. Hugo estava jogado no sofá como se nada tivesse acontecido, com o fuzil no chão. Ele não estava dormindo; ele estava de vigia. Os olhos dele seguiam qualquer barulho que a garota fazia dentro do quarto, mesmo com a porta fechada. ​Conheço o Hugo desde que ele era um pivete chato querendo aparecer para o pai. Conheço o código, conheço as regras. E eu sabia que a regra número um para manter o morro na mão é nunca mostrar fraqueza. E agora, a fraqueza dele estava estampada na cara para todo mundo ver. ​— A gente está moscando, Talibã — falei logo, sem enrolação, com o copo de café na mão. — A moto do safado lá de baixo já foi devolvida. O motorista levou uns tapas para aprender, e o Carlinhos já está lá fora no portão fazendo a vigia, com uma cara de quem preferia estar morto. ​Hugo nem se mexeu, só virou o rosto para mim. ​— É o recado, Charada. Ninguém mexe no que é meu. ​— O recado não é só para quem tentou levar ela daqui. É para nós também — bati o pé. — A Vila Sapê está só esperando um vacilo nosso. O Gordão já sabe que o nosso movimento caiu desde que você ficou bitolado nessa parada com a Liz. ​Falei o nome dos rivais e dos problemas reais, tentando trazer ele de volta para o chão, para a correria que mantinha a gente vivo. ​— O Vidigal é meu. O Gordão não apita nada aqui — Hugo respondeu com a voz vazia, como se o perigo de fora não fosse nada perto do drama dentro de casa. ​— Ele não precisa apitar nada. Ele só precisa que a gente erre sozinho. E você está gastando nosso tempo e nossa segurança com ciúme. A Liz não é mercadoria, Talibã. Ela é um problema. E o que a gente faz com problema? ​Fiz a pergunta que o Morte sempre ensinava. A resposta era curta: elimina. ​Hugo levantou, mas não veio falar comigo. Subiu as escadas e entrou no quarto da Liz sem nem bater, sem esperar resposta. ​Respirei fundo. Já saquei tudo: para o Hugo, a Maria Liz não era um problema para ser resolvido; ela era o troféu que ele ia usar para se destruir. Fiquei ali na sala, me sentindo um soldado vendo o general cavar a própria cova enquanto o inimigo atira. ​Quando o Hugo desceu, ele parecia calmo até demais. Mas os olhos brilhavam com uma posse doentia. Ele segurava um caderno velho. ​— Mandei a Liz escrever uma carta para a faculdade. Ela vai largar o curso. ​Fechei os olhos por um segundo. Ele estava cortando o último laço que ela tinha com o mundo lá fora. ​— E por que isso? ​— Porque ela não vai mais sair, Charada. A faculdade é lá embaixo. Aqui ela tem tudo: segurança, comida e a mim. Se ela pisar na rua, ela foge, e eu não quero ter que fazer algo pior com ela. ​Ele falou isso com uma certeza que dava medo. Não era amor. Era uma doença, um câncer de posse que estava começando a corroer tudo o que o Morte construiu. ​— O Morte te deu a Liz como um lembrete de que tinha que existir um limite, Talibã. Um ponto de honra — falei, sabendo que estava pisando em ovos. — Você transformou o limite em obsessão. Isso vai dar r**m, Talibã. Vai dar muito r**m. ​Hugo largou o caderno e veio para cima de mim, com o rosto colado no meu. Pela primeira vez em anos, senti um arrepio. Não o medo de um chefe, mas o medo de um homem que perdeu a razão. ​— Eu sou o Talibã — ele sussurrou, com a voz tensa. — Eu mando nessa p***a, Charada. E a ordem é essa: a Liz não se mexe, não fala e não sai daqui. Quem questionar minha ordem, quem vier falar de limite ou do meu pai, vai conhecer a força de quem não tem nada a perder além dela. ​Ele apertou meu ombro, me dando um aviso. ​— Você é meu braço direito. Está comigo ou não está? ​Olhei para o fuzil no sofá e depois para a cara dele, transformada pela loucura. O Hugo não era mais o líder que respeitava o código; ele era uma bomba prestes a explodir. ​— Estou contigo, Talibã. Sempre — menti. ​Mas enquanto eu olhava para ele, pensando nos rivais e no resto do Rio esperando a gente vacilar, eu soube: se ele não se livrasse do problema, eu teria que fazer isso por ele. ​E o problema não era a Vila Sapê. O problema era a Liz ou, pior ainda, no que ela transformou o Hugo.
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