[Narrado por Talibã]
O único som que importava era o silêncio depois do meu tiro. Um silêncio que, no morro, fala mais alto que qualquer rajada. Eu sabia: o tenente tinha caído e, com ele, a moral de toda a linha de ataque dos botas. O corpo dele no chão era o sinal de recuo que eu precisava.
Eu não vi a queda detalhada, mas senti o impacto. Vi a hesitação dos outros policiais, que se espremeram para trás, procurando uma cobertura que não existia mais. Peguei o rádio.
— Atenção, crias! Fogo de cobertura! Não avancem! Mantenham a pressão. Eles estão sem comando e sem coragem. Agora é hora de mostrar que a linha de frente deles não aguentou o tranco. Não gastem bala à toa. Só para manter a cabeça deles baixa!
Meus rapazes obedeceram na hora. O som dos fuzis dos crias agora era uma chuva constante, mas controlada. O objetivo não era mais matar, mas mostrar que a gente estava inteiro. Em menos de dez minutos, veio a confirmação do Cenoura pelo rádio:
— Patrão, patrão! Câmbio! Estão descendo! Vi as viaturas dando ré na Grota! Estão saindo pela estrada principal! Recuaram, Patrão!
O que eu senti não foi alegria, foi o alívio do dever cumprido. Meu corpo relaxou, mas a adrenalina continuava ali, correndo nas veias. Eu tinha garantido o território por mais um dia. O dinheiro e o poder estavam seguros.
— Charada, escuta. Reúne os crias para a limpeza. Não quero rastro, não quero nada que chame a atenção da mídia. Confirma a queda do bota e pega o que for útil. Reforça os pontos e dobra a vigilância. Fim de papo.
Levantei de trás do muro, sentindo o peso do fuzil e o calor abafado do colete. O confronto aqui embaixo era simples, direto. A ameaça era visível e a solução era a violência rápida. Mas outra guerra me esperava lá em cima...
Enquanto eu voltava para a moto, com o suor escorrendo na têmpora, percebi que o tiro no beco foi a parte fácil do meu dia. O problema era o olhar dela, a entrega no beijo e o ódio no tapa. Isso era uma ameaça que eu não podia resolver com um fuzil. O perigo real estava lá: uma mulher que me odiava, mas que o corpo me desejava.
Subi na moto e o motor rugiu. Eu tinha acabado de proteger o morro, mas sabia que estava voltando para a prisão que ela criou dentro da minha própria casa. Onde eu mando em tudo, mas ela é quem governa o meu desejo.
Sorri. Um sorriso seco, de quem aceita um desafio pesado. O jogo não tinha acabado; estava só esquentando. Eu precisava voltar para casa e começar a desmontar as defesas dela, peça por peça. A sedução tinha sido interrompida, mas agora eu voltaria com cheiro de pólvora e suor. E para a Liz, eu sabia, isso só me faria parecer mais perigoso. E mais atraente.
Acelerei a moto, subindo as vielas e deixando o caos para trás. A verdadeira caçada estava me esperando na minha goma.