[Narrado por Maria Liz]
Eu não me mexi até o som do motor da moto dele sumir. Minha xícara de café ficou ali, intacta; meu corpo era uma estátua de puro pavor. Aquele homem, que eu odiava com todas as minhas forças, tinha acabado de sair para uma guerra real, e eu estava presa na casa dele, a metros de onde os tiros começariam.
O som do rádio, as palavras frias dele sobre a polícia e a visão daquele fuzil imenso... tudo me gritava para me esconder. Eu sabia que, se a polícia entrasse aqui, eu seria apenas a "mulher do bandido", sem voz, sem defesa e sem saída.
Não fui para o meu quarto; não parecia seguro. Sem pensar duas vezes, corri para o quarto do Talibã. Era ilógico, mas se o morro desabasse, eu queria estar no lugar mais protegido, no centro do poder que ele representava. Tranquei a porta e me joguei no chão, atrás da cama imensa. O cheiro dele me envolveu: pólvora, suor e aquele perfume amadeirado forte. Pressionei as mãos nos ouvidos, tentando abafar o inevitável.
E então, começou.
As rajadas. Os tiros vieram como uma explosão, misturados a gritos e ao barulho abafado da luta. Naquele momento, o ódio desapareceu. Não sobrou nada além de um pavor gelado. De repente, não era o Talibã que estava lá fora; era a morte. A morte que ele esmagava para dominar, mas que agora vinha buscar ele.
E se ele não voltasse?
A pergunta me acertou como um soco. Lembrei daquele beijo na madrugada, do tapa que dei para me salvar e da guerra suja que tínhamos declarado. Se ele morresse, eu ficaria sozinha no meio do caos. Ficaria à mercê de um novo dono, ou pior, nas mãos de uma polícia que me veria como cúmplice.
Mas o medo não era só por mim. Era sobre perder o último elo que eu tinha. Senti o nó apertar na garganta. Lembrei do meu pai, do dia em que ele não voltou para casa. A notícia fria, a ausência que dilacerou a minha vida. Ele se foi por causa de uma bala, num confronto igual a esse, e nunca mais abriu aquela porta.
O Talibã era um ditador, sim. Mas ele era a única "família" que me restava. Se ele morresse agora, eu estaria vivendo tudo de novo. A perda. O vazio. A violência levando tudo. E, meu Deus, eu não podia perder mais ninguém para a bala.
Comecei a soluçar no chão, tremendo. Eu precisava que ele vivesse. Eu precisava do meu carcereiro de volta.
O tiroteio parou. O silêncio voltou, mas era um silêncio pesado, com cheiro de fumaça. Minutos depois, ouvi o barulho da moto. Meu coração disparou. Era ele. Era a XRE 300 dele.
Saltei do chão, com o corpo tremendo num alívio visceral. Corri para a porta, desajeitada, e destranquei tudo. Ele entrou na sala exausto, suado, com o fuzil na mão. Parou no batente da porta, com a camiseta preta suja de poeira.
Eu não pensei no ódio, no tapa, no jogo de sedução ou no meu pai. Eu só vi ele vivo. Inteiro. O alívio foi um tsunami.
Corri até ele. Meus braços envolveram o pescoço dele e minha boca encontrou a dele. Foi um beijo desesperado, rouco, salgado pelas minhas lágrimas. Não era paixão; era a confirmação física de que ele estava ali, de que a morte não o tinha levado.
Ele ficou chocado, mas retribuiu, soltando o fuzil no chão. Ele me segurou com força, como se também precisasse de uma prova de que tinha voltado para casa. Me afastei, soluçando sem parar. A revolta de ver ele arriscar a vida e a lembrança do meu pai se misturaram num grito sufocado:
— Seu desgraçado! Você não ouse! Não ouse morrer! Você não vai me deixar sozinha de novo! Você não é o meu pai!
As palavras saíram atropeladas, cheias de pânico. Eu estava desmoronando, chorando por todas as perdas. O ódio estava ali, mas coberto pela vulnerabilidade do medo.
O Talibã me olhou e, pela primeira vez, vi algo diferente de desejo ou raiva nos olhos dele: confusão e uma ponta de entendimento. Ele não fazia ideia do porquê eu o beijei, e muito menos do trauma que o meu choro estava expondo.