[Narrado por Hugo "Talibã"]
As horas na boca se arrastaram. Quinze quilos de carga, novo ponto de venda, negociação com o Pesadelo... Resolver B.O. era a minha âncora, a única coisa que me fazia sentir invencível. Mas, mesmo dando ordens ou contando maços de dinheiro, o latejar na minha bochecha e o gosto salgado na boca não me deixavam em paz. A Suzana não apagou nada; só sujou a minha memória.
Quando o sol já estava alto, indicando a hora do almoço, senti o peso da exaustão. Não era só cansaço físico. Eu precisava de um tempo, de um banho e, por incrível que pareça, da única coisa parecida com "casa" que ainda me restava.
Estacionei a moto e entrei. O cheiro de feijão e bife frito me acertou em cheio, um cheiro bom, que trazia um pouco de paz. Era a Dona Leila, a cozinheira antiga que vinha uns dias fazer a comida de verdade. Ela estava no fogão, de costas para a porta.
— Salve, Leila. O cheiro está bom.
— Salve, Talibã. Já botei o arroz no fogo, pode ir sentando — ela falou com aquela confiança de quem me viu crescer.
Olhei em volta. A sala estava estranhamente arrumada, mas nem sinal da Liz.
— Cadê a Liz? — perguntei, tentando não mostrar que estava ansioso.
Leila deu de ombros, sem julgar. Ela não se metia nas minhas loucuras.
— Está no quarto, meu filho. Disse que não estava com fome e que ia ficar por lá.
Trancada. Claro. Depois do surto, do tapa e do beijo, ela tinha se recolhido para o seu canto para lamber as feridas e, com certeza, planejar o próximo passo. A tensão entre nós agora era um ar pesado que sufocava a casa. Pensei em ir até lá, bater na porta e forçar outra briga, mas o cansaço venceu a raiva. Pela primeira vez em dias, resolvi deixar ela quieta.
— Deixa ela lá — murmurei para mim mesmo.
Eu precisava recarregar. A batalha não ia ser vencida no impulso. Me servi: arroz, feijão, bife e salada. Comi em silêncio na mesa da cozinha, olhando para o nada. A comida estava ótima, mas meu paladar parecia anestesiado. Eu olhava para o prato, mas só conseguia enxergar a cara de nojo que a Liz fez para mim.
Terminei, lavei o prato por costume e subi as escadas arrastando os pés. Meu quarto estava escuro e frio. Tranquei a porta por dentro. Joguei a pistola e a pochete em cima da cômoda e fui tirando a roupa suja do morro. Entrei no banho. A água quente escorreu pelo corpo levando o suor, a tensão e, eu esperava, o cheiro da Suzana. Esfreguei bem a pele, tentando apagar qualquer rastro dela em mim.
Saí do banho com o vapor ainda no ar. Enrolei a toalha na cintura e fui para a cama. Deitei só de cueca, esticado naquela cama grande. A luz que passava pela janela desenhava listras no meu peito.
Fechei os olhos, esperando que o sono viesse rápido e me levasse para um lugar sem livros rasgados e sem tapas. Mas a única imagem que vinha era a dela: o corpo dela lutando contra o meu, o gosto da boca dela e a fúria nos olhos antes do estalo. Eu estava tentando descansar, mas a minha mente continuava em guerra. E a culpada estava a poucos metros de mim, trancada num quarto que cheirava a sabonete doce. Eu estava em casa, mas a paz tinha passado longe.