Capitulo:28-A rotina do Dono ⚙️

670 Words
​[Narrado por Talibã] ​A vida no morro não para por dramas de amor ou traumas de refém. Depois de deixar o Carlinhos e os outros crias vigiando a Liz na padaria, o dia foi um inferno metódico de trabalho. ​Nossa rotina era bruta. Fui com o Charada até o Beco do Rato; eu precisava ver com meus próprios olhos. O corpo do bota já tinha sumido, levado pelo camburão depois do recuo, mas o rastro de sangue ainda estava lá no asfalto. Ordenei limpeza total e reestruturei as posições de tiro. Se eles voltassem, eu estaria pronto para o abate. Ainda tive um B.O. com um cria novo que tentou desviar dinheiro na Vila 13. Não perdi tempo com conversa: mandei dar uma surra para ele aprender quem manda e rebaixei o moleque para a guarda de muro. Eu preciso de lealdade, não de ladrão interno. ​Depois, resolvi o principal: a encomenda de 15 quilos com o Pesado, lá no Rio. O Charada fez a ponte e eu finalizei o acordo. Paguei mais caro pela urgência, mas o estoque não podia zerar. A segurança do meu morro depende da minha capacidade de entregar o produto. ​Passei o dia inteiro na minha sala na boca. O rádio grudado na cintura, a cabeça fervendo com números, rotas e traições. Eu estava no meu elemento, mas essa máquina consome a gente. ​No meio da tarde, quando a adrenalina baixou e a exaustão bateu, ouvi aquele som familiar de salto. ​— E aí, Talibã. Trouxe um negócio gostosinho para você — era a Suzana. ​Ela entrou na sala com aquela roupa apertada e o sorriso fácil de sempre. Sem a Liz por perto, ela se sentia à vontade para tentar me ganhar no cansaço. Se aproximou e eu senti o cheiro forte daquele perfume barato dela. Ela tentou colocar a mão onde não devia, mas eu a parei no caminho. ​— Não, Suzana. Hoje não dá. Estou no meio da contabilidade e o dia foi f**a. Vaza — minha voz foi cortante, sem nenhum charme. ​Ela não entendeu o recado. Se ajoelhou na minha frente com aquele olhar de quem sabe o que faz. ​— Mas, Patrão, você está tenso. Eu te relaxo em cinco minutos. É o que você precisa. ​Olhei para ela com frieza. A Suzana sempre foi um objeto útil, mas agora ela era só uma distração barata. Eu não queria o fácil. Eu queria o que me dava trabalho. ​— Eu disse que não. Some da minha frente. E não volta mais sem ser chamada. Quando eu quiser te fuder, eu mando te buscar — ordenei, apontando para a porta. ​Ela hesitou, frustrada, mas não discutiu. Saiu batendo a porta com um baque seco. Voltei para a planilha no notebook, mas o pensamento voou direto para a Liz. Eu sabia que o turno dela na padaria estava acabando. Podia mandar o Carlinhos trazer ela, seria o lógico. ​Mas eu precisava ver ela. Precisava confirmar se aquele beijo de manhã ainda valia mais que o ódio dela. Precisava que ela me visse ali, no meu território, misturando o poder do dono com o cuidado do homem que ela abraçou no meio do tiroteio. ​Eu não era mais o mesmo Talibã, e eu sabia disso. O morro estava sob controle, mas eu estava perdendo a guerra contra o meu próprio desejo. Larguei tudo na mesa, peguei as chaves da moto e a jaqueta. ​— Charada! Estou saindo. Vou buscar a Liz. Fica na escuta. Qualquer merda, me liga. E avisa o Carlinhos que ele está dispensado assim que eu chegar na padaria — falei pelo rádio. ​Saí da boca e montei na moto. Acelerei, sentindo o motor rugindo pelas vielas. A desculpa oficial era a segurança dela, mas a verdade é que eu estava seco para ver o rosto dela de novo. Eu estava indo buscar a Liz, a minha dose diária de caos.
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