Capítulo:26-Curativo e a Conexão💫

574 Words
​[Narrado por Camila] ​Eu ainda sentia o peso do meu corpo escorado na porta. Meus ombros estavam tensos e a ferida no ombro, agora limpa e coberta por um curativo apertado, latejava. Mas o cheiro de antisséptico e o alívio de estar viva eram maiores que a dor. ​Eu estava ali por pura fatalidade. Tenho vinte e um anos e minha vida, apesar de simples, é bem corrida. Meu cabelo é longo, loiro escuro, e eu o prendi em um r**o de cavalo alto por causa do calor — o que, ironicamente, deixou meu pescoço e ombro mais expostos. Minha pele é morena clara, com sardas discretas sobre o nariz, e sou magra, de estatura média. Eu estava vestindo uma calça jeans clara e aquela blusa branca que agora tinha uma mancha vermelha de sangue seco. Tenho um piercing discreto no nariz, o único toque de rebeldia que me permito. ​Eu estava voltando do curso de assistente administrativo, na rua principal do morro. O curso me consome muito e eu estava com pressa para chegar em casa e estudar para a prova de amanhã. Estava com o fone de ouvido, distraída, repassando a matéria na cabeça, quando o caos começou. ​Não percebi os avisos do rádio dos meninos; só ouvi os gritos e os primeiros tiros. Quando entendi que era confronto, larguei a mochila e corri para o beco, buscando refúgio. Foi ali, atrás das latas de lixo, que senti o impacto quente no ombro. Não foi uma dor lancinante de cara; foi como um ferro em brasa roçando a pele. Caí e me arrastei, tentando me esconder. Foi onde o medo me paralisou. ​O tiro não foi o mais assustador. O pior foi a indiferença ao redor, o quanto o morro engole a violência como se fosse algo normal. ​E então, ele apareceu. O Charada. ​Ele estava sujo de suor, com a testa franzida e um fuzil na mão. Ele era assustador, sim, com aquela aura de "cria" perigoso. Mas o jeito que ele agiu... Ele não me olhou com malícia. Ele me viu como um ser humano em risco. O toque dele foi firme, mas surpreendentemente gentil ao pressionar o pano na minha ferida. Ele podia ter me ignorado para não atrasar a guerra do Talibã, mas não o fez. Ele me levou para o posto, esperou e me trouxe até a porta de casa. ​O que eu achei dele? Achei que o Charada tem a delicadeza de um homem que é forçado a ser violento. Ele é alto, tem uma presença forte, mas a forma como falou — meio apressado e um pouco atrapalhado — mostrava um cuidado real. Não era o cuidado de um "herói" de filme, mas de alguém que sabe o valor de um curativo e o preço de uma bala. ​E o final... o fato de ele ter perguntado meu nome e pedido meu telefone foi totalmente inesperado. Ele não queria me assustar; ele queria uma conexão. Eu sei o risco. Ele é do tráfico, braço direito do dono do morro. Mas naquele beco, ele foi o meu anjo da guarda. Pela primeira vez em muito tempo, senti um calor que não vinha do sol, mas dessa gentileza inesperada. ​Agora, meu telefone tem o número dele salvo. Tenho um curativo que me lembra a violência do morro e um contato que me lembra a sua humanidade.
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