Capítulo:11-Um beijo e um tapa.

738 Words
​[Narrado por Hugo "Talibã"] ​Eu me senti o dono do mundo. Ela estava ali, ajoelhada no chão, chorando por cima da capa rasgada como se tivesse perdido um filho. Eu finalmente tinha achado o ponto de quebra dela. O livro não era só papel; era a fuga dela, e eu acabei com tudo. ​Virei as costas para sair, pronto para deixar ela lá sofrendo sozinha. Mas aí ouvi um som. Não foi um grito, foi um soluço fundo, aquele barulho de quem não aguenta mais segurar o peso do mundo. ​Me virei devagar. A Maria Liz estava chorando de um jeito desesperado, o corpo dela tremia inteiro. Ela apertava os pedaços de papel no peito, e o ódio nos olhos dela estava misturado com uma tristeza tão profunda que me acertou como um tiro. ​Dei um passo na direção dela. Não era essa a vitória que eu queria. Eu queria briga, queria que ela me xingasse... não queria ver ela destruída desse jeito. Me senti um desgraçado. ​— Maria Liz... — tentei falar, mas a voz travou. ​Ela levantou o rosto e o que eu vi não foi uma prisioneira derrotada. Foi uma mulher que perdeu tudo e só pensava em troco. Os olhos dela estavam vermelhos e o rosto mostrava que ela tinha perdido o juízo de vez. ​Ela pulou do chão e avançou em cima de mim com uma fúria cega. ​— MALDITO! — ela berrou. O grito parecia um bicho ferido. ​Ela não pensou, só bateu. Os socos no meu peito não doíam de verdade, mas a raiva que ela colocava em cada golpe me deixou travado por um segundo. Ela começou a me empurrar, me batendo com os punhos fechados, totalmente fora de si. ​— Eu te odeio! Eu te odeio! Você me tirou tudo! TUDO! ​Segurei os pulsos dela fácil. Com o outro braço, agarrei a cintura dela para ela parar de se debater. O corpo dela, colado no meu, tremia tanto que eu senti o quanto ela era frágil ali. E aí, o desejo explodiu. O cheiro doce dela, o calor da briga... eu perdi a cabeça. ​Soltei um dos pulsos dela, segurei firme na nuca e puxei a cabeça dela para trás. E eu beijei. Não pedi licença, não perguntei nada. Foi uma invasão. Eu queria tomar posse dela na marra, pela raiva e pela vontade que eu estava sentindo. ​Forcei minha boca na dela, buscando uma resposta que ela não queria dar. Os lábios dela estavam salgados de lágrima. Senti que ela tentou lutar, o corpo rígido, um gemido de horror preso na garganta. Aquele beijo foi tudo o que eu sempre quis e, ao mesmo tempo, foi o que me quebrou por dentro. Pareceu uma eternidade de fogo. ​Quando soltei, eu ainda estava queimando. Eu tinha calado ela de novo, mas do meu jeito. Só que a Maria Liz não estava rendida. ​Ela me olhou assustada pelo que eu fiz, mas aproveitou o segundo em que eu baixei a guarda. Com uma precisão gelada, ela levantou a mão e me deu um tapa certeiro no rosto. ​O estalo ecoou pela sala toda. Foi seco e doeu. Minha cabeça virou com a força e minha bochecha começou a arder na hora. Soltei ela e fiquei parado, levando a mão no rosto, sem acreditar no que tinha acontecido. ​A Maria Liz estava lá, respirando rápido. Ela não chorava mais. O choque do beijo e do tapa secou as lágrimas dela. Os olhos estavam escuros de novo, mas agora tinham uma promessa de morte. ​Ela se abaixou, pegou os restos do livro e apertou contra o peito. Eu fiquei só olhando. A dor no meu rosto era física, mas o golpe real foi no meu orgulho. Aquele tapa não foi só uma rejeição; foi um basta. ​Não disse nada. Dei um passo para trás e saí de casa. Ela tinha me dado a conversa que eu queria e o ódio que eu precisava. E o tapa serviu para me lembrar quem realmente mandava na alma dela. ​Montei na moto e arranquei da garagem. Minha bochecha latejava, mas o que não saía da minha cabeça era o gosto do beijo misturado com o gosto de sangue na minha boca. A Maria Liz aceitou a guerra. E eu ia lutar até o fim.
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