CapĂ­tulo:18-A Quebra da Calmariađź’Ą

638 Words
​[Narrado por Talibã] ​O silêncio na cozinha era uma corda esticada, prestes a arrebentar. Eu estava na bancada, tomando meu café quente e amargo; a Liz estava na mesa, a um metro de distância, comendo aquele bolo amanhecido. Ela não me olhava, mas eu sentia a tensão dela, o corpo rígido. A cada gole, eu pensava no toque, na entrega dela por um segundo e, claro, no tapa. Eu sabia que ela estava repassando a noite na cabeça, e isso me divertia. O ódio dela agora tinha que lutar contra algo mais forte: a memória do corpo. ​Eu usava a minha presença como arma. Cada movimento meu era lento, calculado. Quando me levantei e me inclinei para pegar o açúcar, meu braço raspou na cadeira dela. Ela se encolheu na hora. Essa era a nossa nova guerra. ​— Se a comida não estiver boa, me avisa. Posso mandar um dos crias ir na padaria buscar algo fresco para você — falei com a voz suave, mas com aquela malícia que fez ela apertar os punhos. ​Ela finalmente falou, sem me encarar: ​— Não pedi nada para você. ​— Pediu, sim. Pediu e queria a noite inteira — murmurei, voltando a beber o café. ​Ela levantou a cabeça num bote, querendo me fuzilar com o olhar, mas eu já tinha desviado a vista para a janela. Eu estava no controle total daquele jogo. ​De repente, a calma foi pro ralo. O rádio que eu levo para todo canto, em cima da bancada, estalou. A estática veio acompanhada de uma voz apavorada. ​— Visão! Visão, crias! Charada na escuta, câmbio! ​Larguei a xícara na bancada. O som seco ecoou pela cozinha. Minha postura mudou na mesma hora. De homem apaixonado para Dono do morro em um segundo. Peguei o rádio sob o olhar paralisado da Liz. ​— Visão, Charada. Qual o B.O.? ​— Patrão, a casa caiu! Os botas subiram pelo Beco do Rato. Estão vindo para cima forte, Talibã! Parece o batalhão inteiro, câmbio! ​A calma do meu corpo se tornou mortal. O sangue esfriou. ​— Quantos crias no ponto? ​— Só cinco com fuzil, Patrão. Eles vieram no sapatinho, mas já estão na altura do bar da Dona Cida! Rápido, Talibã! Câmbio! ​Desliguei o rádio. A vida no morro não espera por flerte ou joguinho de sedução. É brutal, é agora. A guerra da Liz ia ter que esperar pela guerra do estado. Olhei para ela; estava em choque, o rosto pálido. ​— Polícia — falei, com a voz sem nenhuma emoção. — A diversão acabou. Por enquanto. ​Subi as escadas e entrei no quarto. Em trinta segundos, eu era outro homem. Calça jeans escura, camiseta preta, colete balístico por baixo. Peguei meu fuzil — o AK-47 que fica guardado no esquema — e o rádio. ​Virei para a porta. A Liz estava ali, parada, com os olhos fixos na arma. ​— Fica aqui. E não sai desse quarto por nada. ​Não encostei nela. Só passei direto, deixando o peso do fuzil e o cheiro de pólvora no ar. Antes de sair, dei um último olhar para a cozinha. O café esfriando, o bolo jogado, a xícara de porcelana dela intacta. ​Liguei o rádio: ​— Charada, segura a ponta. Avisei o resto dos crias. O Talibã está descendo! ​Montei na moto. A adrenalina pulsava, limpando a minha mente de desejo e ódio. Naquele momento, só existia o morro e o confronto. Ela podia me odiar, podia me dar mil tapas. Mas ali, eu era o Talibã. E o meu trabalho era manter o meu trono de pé. ​Arranquei com a moto em direção ao tiroteio. A guerra de verdade estava apenas começando.
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