​[Narrado por Talibã]
​O silĂŞncio na cozinha era uma corda esticada, prestes a arrebentar. Eu estava na bancada, tomando meu cafĂ© quente e amargo; a Liz estava na mesa, a um metro de distância, comendo aquele bolo amanhecido. Ela nĂŁo me olhava, mas eu sentia a tensĂŁo dela, o corpo rĂgido. A cada gole, eu pensava no toque, na entrega dela por um segundo e, claro, no tapa. Eu sabia que ela estava repassando a noite na cabeça, e isso me divertia. O Ăłdio dela agora tinha que lutar contra algo mais forte: a memĂłria do corpo.
​Eu usava a minha presença como arma. Cada movimento meu era lento, calculado. Quando me levantei e me inclinei para pegar o açúcar, meu braço raspou na cadeira dela. Ela se encolheu na hora. Essa era a nossa nova guerra.
​— Se a comida nĂŁo estiver boa, me avisa. Posso mandar um dos crias ir na padaria buscar algo fresco para vocĂŞ — falei com a voz suave, mas com aquela malĂcia que fez ela apertar os punhos.
​Ela finalmente falou, sem me encarar:
​— Não pedi nada para você.
​— Pediu, sim. Pediu e queria a noite inteira — murmurei, voltando a beber o café.
​Ela levantou a cabeça num bote, querendo me fuzilar com o olhar, mas eu já tinha desviado a vista para a janela. Eu estava no controle total daquele jogo.
​De repente, a calma foi pro ralo. O rádio que eu levo para todo canto, em cima da bancada, estalou. A estática veio acompanhada de uma voz apavorada.
​— Visão! Visão, crias! Charada na escuta, câmbio!
​Larguei a xĂcara na bancada. O som seco ecoou pela cozinha. Minha postura mudou na mesma hora. De homem apaixonado para Dono do morro em um segundo. Peguei o rádio sob o olhar paralisado da Liz.
​— Visão, Charada. Qual o B.O.?
​— Patrão, a casa caiu! Os botas subiram pelo Beco do Rato. Estão vindo para cima forte, Talibã! Parece o batalhão inteiro, câmbio!
​A calma do meu corpo se tornou mortal. O sangue esfriou.
​— Quantos crias no ponto?
​— Só cinco com fuzil, Patrão. Eles vieram no sapatinho, mas já estão na altura do bar da Dona Cida! Rápido, Talibã! Câmbio!
​Desliguei o rádio. A vida no morro não espera por flerte ou joguinho de sedução. É brutal, é agora. A guerra da Liz ia ter que esperar pela guerra do estado. Olhei para ela; estava em choque, o rosto pálido.
​— PolĂcia — falei, com a voz sem nenhuma emoção. — A diversĂŁo acabou. Por enquanto.
​Subi as escadas e entrei no quarto. Em trinta segundos, eu era outro homem. Calça jeans escura, camiseta preta, colete balĂstico por baixo. Peguei meu fuzil — o AK-47 que fica guardado no esquema — e o rádio.
​Virei para a porta. A Liz estava ali, parada, com os olhos fixos na arma.
​— Fica aqui. E não sai desse quarto por nada.
​NĂŁo encostei nela. SĂł passei direto, deixando o peso do fuzil e o cheiro de pĂłlvora no ar. Antes de sair, dei um Ăşltimo olhar para a cozinha. O cafĂ© esfriando, o bolo jogado, a xĂcara de porcelana dela intacta.
​Liguei o rádio:
​— Charada, segura a ponta. Avisei o resto dos crias. O Talibã está descendo!
​Montei na moto. A adrenalina pulsava, limpando a minha mente de desejo e ódio. Naquele momento, só existia o morro e o confronto. Ela podia me odiar, podia me dar mil tapas. Mas ali, eu era o Talibã. E o meu trabalho era manter o meu trono de pé.
​Arranquei com a moto em direção ao tiroteio. A guerra de verdade estava apenas começando.