Isa Leal.
— Certo, estou bem, deixe-me ir colocar suas muletas antes que você se machuque — disse o Capitão, empurrando-me pelos ombros. Sua atitude distante estava começando a me machucar cada vez mais. Ele se sentia tão diferente. Quer dizer, antes ele era indiferente, mas agora ele nem parecia gostar da minha companhia e nem esforçava para parecer satisfeito.
Era exatamente esse homem amargo e de aparência indiferente que todos conheciam; deixando-me fora da exclusividade.
Quando olhei para cima, seu olhar estava seguindo a Comandante Bem enquanto ela se afastava com o Coronel Cleber. Senti o ciúme subir à minha cabeça. Eu senti como se ela o estivesse tirando de mim, e era como se não houvesse nada que eu pudesse fazer para tê-lo de volta. Ele não atendeu minhas ligações nem respondeu minhas mensagens, e eu nunca recebi um pedido de desculpas. Todos os nossos planos, meu futuro com o homem dos meus sonhos, pareciam desaparecer cada vez mais.
— Ajude-me, pedi, minha perna ainda dói muito.
Ele olhou para mim e eu estremeci, uma coisa que eu sabia era que seu afeto por mim não iria embora muito rapidamente, então eu tinha que fazer tudo que podia para lembrá-lo; lembro-me de como ele se sentia confortável quando estava comigo e que ele deveria cuidar de mim. O capitão Chances suspirou e eu fiquei ao lado dele, enquanto ele pegava minhas muletas e me ajudava a andar nelas.
— Obrigada, eu disse. O que você vai fazer mais tarde?
Ele piscou algumas vezes e franziu a testa.
— Reunião, preciso ir agora, ele disse, mas eu o segurei pelo braço.
— Depois da reunião, eu disse, você não pode se preocupar com a guerra o dia todo, Capitão. Vamos jantar fora hoje à noite.
— Não tenho tempo.
— Sim, você vai, meu pai virá.
Pela primeira vez, ele olhou para mim, e eu esperava que ele notasse finalmente a manhã toda que passei me arrumando.
— Seu pai? — Ele repetiu.
— Sim, sorri, ele me disse há alguns dias que viria com outros almirantes para dar apoio: Rhuan e Julio César.
Ele pareceu um pouco surpreso; se ele sabia alguma coisa sobre o Capitão Chances, era que estar com seus amigos sempre melhorava seu humor.
— Por que você não me contou?
— Você não respondeu minhas ligações ou mensagens, respondi. Nós sairíamos? Poderíamos ir com todos os almirantes, meu pai ficará feliz em vê-los e criar novas estratégias com vocês para a guerra.
Ele assentiu como única resposta e eu abri um sorriso.
— Preciso ir, ele disse e, sem dizer mais nada, foi embora.
Comecei a caminhar de volta para o meu quarto de muletas, sentindo que havia ganhado um pouco mais de terreno. Eu não podia deixar que aquela mulher tirasse de mim, de uma hora para outra, o que me tomou tanto tempo com o Capitão Chances.
Ainda assim, senti uma sensação de desgosto subindo pela minha garganta. Eu nunca havia visto uma mulher capturar sua atenção daquele jeito. O ciúme estava começando a me corroer.
— O que aconteceu? — Loures disse, aproximando-se de mim—, por que ele foi embora?
— Ele tem uma reunião, eu disse, mas eu o convenci a vir jantar hoje à noite com meu pai, o Vice-Almirante Julio Cesar e o Contra-Almirante Rhuan.
Ela sabia que eles eram seus amigos e, dessa forma, poderiam encorajá-lo um pouco mais no que ele precisava para a guerra, encorajando-o, por sua vez, a estar comigo em vista da minha ajuda estratégica. Era um plano perfeito.
— Bom. Eu já contei isso ao comandante de merda. Ela sabe que, se ela se aproximar, eu vou contar aos chefes do centro D.E.A.
Isso não me tranquilizou, eu realmente senti como se estivesse escapando por entre meus dedos.
— Sinto que estou perdendo-o. — Eu admiti — Quer dizer, eu nunca o tive completamente e agora que eu sentia que tinha uma parte do seu coração, era como se ele o tivesse tirado das minhas mãos. Odeio a indiferença dele.
— Primeiro foi você, respondeu Loures, vocês já conversaram sobre um futuro, não podem jogar isso fora. Se saírem hoje à noite, lembrem-no porque ele estava de olho em você desde o começo. Por sua causa, ele mudou, por sua causa, dela pareceu diferente, não recue devido a uma prostituta que acabou de aparecer.
Respirei fundo e assenti.
— Você tem razão, mas o que eu devo vestir se não posso usar sandálias e tenho essas muletas?
Não doía mais tanto, mas eu ainda estava em tratamento e meu tornozelo continuava inchado, só faltavam alguns dias para eu me recuperar.
— Fique em paz e eu te ajudo. — Disse Loures, e foi só naquele momento que vi a sujeira de pólvora em seu corpo e uniforme quando entramos no elevador do prédio.
— A propósito, como foi a missão? — Perguntei: Como foi o ataque?
Loures começou a falar sobre a missão, e aproveitei a oportunidade para desviar meus pensamentos dele e do tormento que o Comandante Bem representava.
Dominique Bem.
Fomos até o apartamento e ofereci um pouco de água a ele, que parecia cansado, provavelmente queria dormir um pouco.
— Você está bem? Você quer que eu fique com você por um tempo? — ele perguntou e bocejou.
— Não, estou bem. Já faz um tempo que não sofro um ataque, e isso trouxe de volta… muitas lembranças.
Cleber se aproximou de mim e acariciou gentilmente meus cabelos, seus olhos castanhos me observando docemente.
— Podemos sair hoje à noite, ele sugeriu. E os meninos? Depois de hoje, realmente merecemos uma pausa e podemos ir comer em um bom restaurante com música suave e um bom vinho…
— Parece ótimo, murmurei. Precisávamos de uma pausa de tudo o que havia acontecido.
Cleber se inclinou e, com um leve sorriso, me beijou, senti como se não estivesse naqueles lábios pela primeira vez, lábios que eram meu conforto na solidão, agora eu simplesmente sentia que eles não combinavam com os meus.
O pior é que eu sabia o porquê; eu estraguei tudo.
Tomei a decisão de traí-lo e agora estava lidando com as consequências da culpa, sentindo que não era quem eu queria e com o ciúme de ver os lábios que eu queria nos lábios de outra pessoa.
Era o que eu queria evitar desde o começo, mas eu consegui; estava feito, tropecei novamente na mesma pedra que sempre existiu e agora eu tinha que aceitar.
Quando Jasmim chegou, Cleber disse que iria descansar. Certamente naquele momento, os oficiais-general estavam em reunião planejando o próximo movimento para o contra-ataque dessa maldita guerra. Eu só estava esperando o Capitão Chances sugerir ativar as bombas para que assim que pisassem no território, a Hanã explodisse em milhares de pedaços. Não me importava que Gael estivesse lá, ele decidiu fazer parte deles, então tinha que assumir as consequências.