JUNHO DE 1994
Jogos do Brasil no mundial sempre fazia toda a rotina da cidade mudar, as empresas fechavam mais cedo, e os trabalhadores iam correndo para casa se juntar a família e poder assistir a partida. Tinham aqueles que moravam tão longe, que arrumavam um jeito de assistir o jogo no próprio trabalho, para não correr o risco de perder nada. Esse era o caso da professora Larissa, moradora da baixada fluminense.
A dedicada professora pegava todos os dias duas conduções lotadas para dar aula no Brizolão, uma escola estadual de poucos recursos, situada na favela Olho de Boi.
Logo que terminou a partida, a professora saiu da escola em meio a muitos fogos. O Brasil havia vencido a Suécia por 1x0 e estava na final da copa nos EUA.
Com Larissa tinham nove pessoas que assistiram o jogo na escola, quase todas eram moradores da própria favela e ficaram para assistir a partida no Brizolão. A imagem da TV na escola era bem melhor do que a das casas de alguns moradores. Somente um professor morava longe como Larissa, porém, dele, Larissa não queria despojar da companhia.
Roberto era um tanto abusado, mesmo sendo casado, o professor assediava com veemência sua colega de profissão. Por mais que estivesse deserto, Larissa preferia ir sozinha do que com o Roberto. Por várias vezes ele tentou avançar o sinal com ela, pensava então que era melhor andar só do que m*l acompanhada.
Quando descia a favela, a professora parecia não sentir medo, era respeitada pelos meninos do tráfico. Já que uma boa parte deles Larissa ensinou a ler. O grande problema foi quando chegou a estrada da Gávea e parou em um ponto de ônibus deserto.
Sozinha, ficou à espera da condução para a central de trem do Rio de Janeiro. Passados alguns minutos, a professora já não se encontrava tão sozinha, o professor Roberto seguia com seu veículo devagar em direção de Larissa.
[...]
Sua feição era de apreensão beirando ao desespero. Desceu o Dedo de Deus, a parte mais alta do morro Olho de boi como uma bala. Correu pelos becos e vielas tão desesperadamente, que desequilibrando-se às vezes batia de um canto ao outro nas paredes desniveladas da favela. No caminho, ouvia muitos estouros e desconfiado, pensava:
"São fogos por causa do jogo com certeza. São só fogos."
Na verdade, enquanto ele corria ao destino que cada vez parecia mais longe, rogou a Deus que os estouros realmente fossem fogos. Tinha só dez anos de idade, era um garoto ainda. Sabia que estouros na favela nem sempre eram motivos de comemoração.
Cabelo e sua blusa azul do Brasil completamente encharcados. Suor escorria feito chuva no rosto rosado por conta da correria. Esbaforido, chegou ao destino que tanto almejava. Quando logrou, sua expressão piorou, já não tinha quase ninguém na escola, somente uma servente que estava terminando a limpeza para fechar o Brizolão.
Tirou os óculos embaçados por conta do suor, secando o rosto com a blusa. Expressou na face uma cara de choro. Sentou no meio fio enterrando a cabeça entre as pernas. Levantou exasperado quase ao mesmo tempo que sentou. Voltou a correr descontroladamente de maneira desgovernada. Dessa vez, seu destino era saindo da favela em direção a Estrada da Gávea. Saiu tão desesperado, que esqueceu seus óculos na calçada da escola. Não enxergava bem sem eles, aliás, não enxergava nada.
Olhou para os lados e não viu ninguém. Concentrou seus pequenos olhos castanhos-esverdeados no ponto de ônibus. Forçou a visão, enrugando as sobrancelhas, até que percebeu o pior. Percebeu que tinha alguém caído por trás do assento do ponto.
Seu coração disparou de tal forma, que parecia que iria sair pela boca, suas pernas trêmulas já não lhe obedeciam. Era um menino de choro fácil, antes de ao menos chegar perto e constatar o que de verdade aconteceu ali, já chorava, esfregando o rosto com as mãos.
Chegou próximo ao corpo e o pranto o tomou por completo. O corpo já estava sem vida em cima de uma poça de sangue, com um pé descalço e, no outro pé, seu escarpim preto, no qual sempre dava aula. O cabelo comprido tampava o rosto, o menino não teve coragem de descobrir, mas não precisava, ele tinha certeza, aquela era sua adorada professora.
Na blusa amarelo-canário do Brasil, um furo da espessura de um dedo masculino, esse furo atravessava também a carne, mas preciso o coração da professora Larissa.
Ao ver sua professora morta e caída com um tiro no chão, o menino começou a sentir na pele como uma bala podia destruir os nossos sonhos e daqueles que amamos.