O impacto da minha parada brusca fez o ar fugir dos meus pulmões por um segundo. A escuridão ali era densa, cortada apenas pelo brilho pálido da lua que conseguia atravessar o labirinto de lonas e cabos de aço.
Quando me virei, o rosto dele estava a poucos centímetros do meu.
Reconheci o perfil mais fino, as maçãs do rosto salientes que o faziam parecer mais jovem e ágil que os outros dois. Era o primeiro. O homem da maçã. O que tinha o sorriso que parecia sempre guardar uma piada interna.
— Você está tremendo — ele notou. Não era uma pergunta, mas uma observação feita com uma voz leve, quase musical, que não condizia com o modo autoritário como ele me arrastara para ali.
— Onde está a Regina? — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, ecoando contra as chapas de metal de uma carreta de transporte. — Me leve até ela agora.
— Sua amiga está bem entregue. Heracles não é um homem que gosta de interrupções, e acredito que ela também não — ele respondeu, dando um passo lateral, cercando meu espaço sem precisar me tocar. — E você... você não cruzou os pomares para segurar a mão de uma amiga, Signora Rossi.
A menção ao meu título soou como um deboche suave. Tentei sustentar o olhar, mas a lembrança da noite de terça-feira, do cerco na tenda de espelhos e, principalmente, do cinto de Ettore nas minhas costas, fez minha guarda vacilar.
— Eu vim assistir ao show. Mas parece que o circo de vocês é tão desorganizado quanto os seus modos — retruquei, tentando recuperar a frieza que a gola alta do meu vestido de lã exigia. — Cheguei e vocês já tinham sumido.
Ele soltou uma risada curta e vibrante.
— Nós não sumimos. Nós apenas escolhemos quem pode nos ver de perto. — Ele aproximou a mão do meu rosto. Recuei por instinto, mas ele foi mais rápido.
Não houve toque bruto. Seus dedos moveram-se com uma velocidade que meus olhos m*l conseguiram acompanhar. Um estalo seco de dedos perto da minha orelha e, de repente, ele segurava algo entre o indicador e o médio.
Não era outra maçã. Era uma pequena flor de pêssego, de um rosa vibrante, idêntica às que cobriam os campos da Villa Rossi.
— Para combinar com o seu perfume — ele disse, estendendo a flor. — E para provar que, mesmo sob o teto do Don, as coisas bonitas pertencem a quem tem mãos rápidas o suficiente para pegá-las.
Peguei a flor com os dedos trêmulos. O gesto era tão absurdo e inofensivo diante do perigo que eu corria que senti uma vontade histérica de rir.
— Como você faz isso? — Perguntei, a curiosidade vencendo o pavor por um breve momento.
— Eu já disse. Truques de quem vive entre sombras — ele se inclinou, o rosto agora iluminado por um reflexo azulado vindo de uma lâmpada distante. — Mas você não veio aqui por mágica de feira, Viviana. Você veio porque a fita vermelha no seu bolso está queimando, não está?
Ele sabia. Eles todos sabiam. A percepção de que eu era um livro aberto para aqueles estrangeiros me fez sentir mais nua do que quando meu vestido caiu aos meus pés na outra noite.
— Vim porque não aceito que ninguém, nem mesmo um saltimbanco, me deixe com perguntas sem resposta — menti, tentando manter a dignidade enquanto apertava a flor de pêssego entre os dedos.
Ele deu as costas para o caminho de volta, apontando para o corredor profundo que levava às carretas de luxo, onde as luzes de querosene brilhavam com mais intensidade.
— Então venha. Se quer respostas, o picadeiro é o lugar errado. As verdades deste circo só aparecem quando as luzes principais se apagam.
Ele começou a caminhar sem olhar para trás, confiante de que eu o seguiria. Olhei para a escuridão da saída, pensando na Villa silenciosa e em Ettore que poderia voltar a qualquer momento. Depois, olhei para as costas largas e o passo leve do brasileiro.
O medo ainda estava lá, mas a raiva de ser apenas uma sombra em Afragola me deu o empurrão final. Comecei a segui-lo.