Capítulo 11: Viviana

476 Words
O contato da seda preta com as feridas abertas nas minhas costas foi como um beijo de brasa. Prendi o fôlego, apoiando as mãos na penteadeira enquanto Carmela terminava de fechar o zíper lateral do vestido. Eu não podia gemer. Não podia vacilar. — Está um pouco apertado, Signora? — A criada perguntou, os olhos baixos, fugindo de qualquer sinal de sangue que pudesse manchar o tecido caro. — Está perfeito, Carmela. Pode ir. Fiquei sozinha diante do espelho. O pó de arroz escondia a palidez, e o batom vermelho-escuro desenhava uma boca que não sentia vontade de sorrir. Eu parecia uma pintura a óleo: estática, cara e sem vida. Ettore entrou no quarto logo depois, já vestido com seu terno de alfaiataria cinza e o cheiro de loção pós-barba que tentava esconder o odor de tabaco que o perseguia. Ele parou atrás de mim, os olhos encontrando os meus pelo reflexo. Suas mãos, as mesmas que haviam enrolado o cinto poucas horas antes, pousaram nos meus ombros com uma delicadeza que me dava náuseas. — Você está aceitável — ele disse, a voz baixa, o hálito ainda carregando o resquício do gim matinal. — Lembre-se: no Don Alfonso, você é o meu orgulho. Não fale se não for questionada. Sorria para os homens de Casal di Principe como se fossem seus irmãos. — Sim, Ettore. O trajeto até o centro de Afragola foi rápido, mas cada segundo com o meu marido me fazia querer vomitar. Ao chegarmos, Don Alfonso já nos esperava na calçada, sob o letreiro que iluminava a rua de pedra. Ele era um homem de cabelos brancos, com um avental impecável e um olhar que já tinha visto cadáveres e banquetes com a mesma indiferença. — Don Ettore, Signora Rossi — ele nos saudou, curvando-se levemente. — Sua mesa está pronta. Os convidados já chegaram. Ettore segurou meu braço, os dedos apertando o músculo com uma pressão que indicava que eu deveria andar mais rápido. O restaurante exalava cheiro de alho frito, orégano e o suor de homens que carregavam armas sob os paletós. Cruzamos o salão sob os olhares de respeito e medo dos outros clientes. Na mesa de canto, três homens nos esperavam. Eram mais rústicos que Ettore, com anéis de ouro exagerados e vozes que cortavam o ambiente. O jantar em si foi um exercício de tortura. A cada vez que eu me encostava na cadeira, a dor nas costas subia pelo meu pescoço como agulhas. Os homens falavam sobre cargas perdidas e "ajustes" necessários na fronteira de Caserta, ignorando minha existência como se eu fosse parte da decoração do Alfonso. — Com licença — murmurei, quando a pressão psicológica e física tornou-se insuportável. — Preciso de um momento. Ettore me olhou com desdém, mas assentiu. Caminhei em direção ao corredor dos toaletes, buscando apenas um segundo de solidão.
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