Capítulo 15: Viviana

684 Words
Passei a tarde organizando o meu armário, separando tecidos que não precisavam de reforma, apenas para sustentar a mentira que eu contaria à noite. Eu precisava de um motivo para cruzar os portões da Villa sem levantar as sobrancelhas dos guardas. A modista em Afragola era o álibi perfeito: uma necessidade feminina, fútil o suficiente para que os homens de Ettore não se dessem ao trabalho de investigar. Eu estava no andar de baixo, fingindo interesse em uma pilha de rendas, quando ouvi o rádio da cozinha. O locutor falava com aquela pressa característica de quem entrega notícias ruins o dia todo. — ...encontrado nas primeiras horas da manhã, próximo ao entroncamento da Estrada Estadual 87. O corpo apresentava múltiplos ferimentos. As autoridades locais não descartam a hipótese de um acerto de contas entre clãs da região. Deixei a renda cair sobre a mesa. Carmela, que polia a prataria no canto da sala, parou o movimento por um segundo. Nossos olhos se cruzaram por um breve instante antes de ela voltar ao trabalho, com uma pressa que dizia que ela sabia exatamente de quem o rádio falava. Era o homem de Casal di Principe. O que se sentara à nossa direita no Don Alfonso, o que rira alto enquanto Ettore servia o vinho tinto. O jantar servira ao seu propósito. O "álibi de sangue" estava completo. Ettore passara a noite sendo visto, sendo um anfitrião dedicado, enquanto o destino daquele homem era selado em algum sussurro sob a mesa ou em um gesto que eu, em minha náusea, não percebi. Senti um calafrio que não tinha nada a ver com a temperatura da sala. A eficiência de Ettore era uma sombra que cobria tudo o que eu tocava. Ele podia estar em Nápoles agora, mas o rastro da sua vontade estava espalhado pelos jornais e pelas valas da província. A percepção de que eu fizera parte daquela encenação, sorrindo e usando pérolas enquanto a morte era servida como acompanhamento, fez meu estômago dar um solavanco. — Signora? Está passando m*l de novo? — Carmela perguntou, aproximando-se com um pano na mão. — Não. É apenas o cansaço. Vou subir para me trocar. Regina virá me buscar para irmos à modista. Subi os degraus sentindo as pernas pesadas. A notícia do assassinato deveria ser o aviso final para eu me trancar no quarto e nunca mais sair. Se Ettore era capaz de apagar um homem de influência com a mesma facilidade com que abria uma garrafa de vinho, o que ele faria comigo se descobrisse a fita vermelha? Encontrei Regina no jardim lateral horas depois. Ela já estava vestida com seu melhor casaco de lã, mas seu semblante estava diferente. Ela também ouvira o rádio. — Você soube? — Ela sussurrou assim que nos afastamos dos ouvidos das criadas. — Soube. O homem de Casal di Principe. — O pai dele já está em Afragola. O clima na cidade está péssimo, Viviana. Talvez... talvez a gente devesse adiar. Ettore em Nápoles e um morto na estrada não é uma combinação segura. Olhei para os portões da Villa. Por um momento, a imagem de Ettore no banheiro do restaurante, rindo de mim enquanto possuía outra mulher, sobrepôs-se ao medo da morte. A humilhação dele era uma ferida que não fechava com bom comportamento. Se eu recuasse agora, eu aceitaria que minha vida era apenas aquilo: ser o álibi de um assassino e a piada das suas amantes. — Não — respondi, segurando a alça da minha bolsa com força. — Nós vamos. — Tem certeza? — Ettore usa o sangue para conseguir o que quer. Eu vou usar a ausência dele para conseguir o que eu quero. Vamos em frente, Regina, já temos nosso próprio álibi. Regina me olhou por um longo tempo, medindo a nova dureza na minha voz. — Para a modista na cidade então — ela disse, dando uma piscadela. Seguimos em frente e logo pegaríamos a trilha das oliveiras até os pomares que nos levariam para o circo. A noite estava estrelada, mas algo me dizia que eu me sentiria nas nuvens.
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