Capítulo 10: Viviana

579 Words
O ar fresco do pomar era a única coisa que me impedia de sufocar dentro do vestido de lã cinza. Caminhei entre as fileiras de pêssegos, observando as flores rosadas que insistiam em nascer naquele solo de cinzas vulcânicas. Eu fingia conferir o estado das brotações, mas meus olhos buscavam a estrada de terra que cortava o limite da propriedade. Ao longe, o vulto de um homem surgiu na curva do caminho. Ele caminhava com uma postura que não era a dos camponeses de Afragola; havia uma soltura nos ombros, um ritmo diferente. Meu coração deu um solavanco tão violento que precisei apoiar a mão no tronco áspero de uma árvore. Por um segundo, a imagem do terceiro irmão, com sua frieza observadora, sobrepôs-se à silhueta distante. Prendi a respiração, sentindo o cetim da fita vermelha queimar na memória. Mas, conforme o homem se aproximava, a ilusão se desfez. Não era um dos brasileiros. Era apenas um operário do circo, um homem de meia-idade vestindo um macacão sujo de graxa, carregando uma caixa de ferramentas e um pneu sobressalente. Ele sequer olhou para a Villa. Estava focado em chegar à oficina da vila para algum reparo de emergência. Soltei o ar, sentindo uma mistura de alívio e uma decepção amarga que me envergonhou. Eu era a Signora Rossi; não deveria estar caçando saltimbancos no horizonte como uma adolescente febril. Voltei para a casa principal quando o sol começou a baixar, tingindo o céu de laranja. Na entrada, Carmela me esperava com o rosto rígido de quem trazia notícias indesejadas. — O Don ligou de Nápoles, Signora. — Ele volta para o jantar? — perguntei, tentando manter a voz neutra. — Sim. E deu ordens para que a senhora esteja pronta às oito. O carro passará para buscá-los. O jantar será no restaurante de Don Alfonso, no centro. Os senhores de Casal di Principe já confirmaram presença. Senti um nó seco se fechar na minha garganta. Eu sabia como isso funcionava. Ettore me usaria como a moldura da sua respeitabilidade em público, desfilando comigo pelo salão para que todos vissem como ele mantinha sua casa em ordem. Eu deveria usar as joias mais pesadas, o sorriso mais discreto e permanecer em silêncio enquanto, sob a toalha de linho, os homens discutiam rotas de tabaco e zonas de influência. Essas noites eram prelúdios de sangue. Sempre que Ettore marcava encontros em território neutro, o vinho servia para selar acordos ou sentenças. Normalmente, algum nome importante aparecia morto em uma vala de estrada no dia seguinte, e eu era o álibi perfeito; a esposa que atestaria que o marido esteve ocupado sendo um cavalheiro diante de testemunhas. Subi as escadas sentindo o peso do dever. Sair da Villa significava que eu teria que esconder as marcas nas minhas costas sob camadas de seda e pó, sem o refúgio das paredes de casa. Teria que sorrir para assassinos e fingir que as mãos de Ettore, que agora me guiariam pelo salão, não eram as mesmas que haviam me chicoteado poucas horas antes. Entrei no quarto e encarei o espelho. A fita vermelha estava guardada, mas o incêndio que ela iniciara ainda fumegava em algum lugar dentro de mim. A ideia de vestir a máscara de Signora Rossi e sentar-me àquela mesa parecia quase insuportável. Eu não era mais apenas uma peça de mobília fixa na Villa; eu era uma peça que começava a rachar, prestes a ser levada para o meio da cidade.
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