A manhã nasceu cinzenta, com uma névoa que se arrastava sobre os pomares e entrava pelas frestas do quarto. Ettore tinha saído antes do sol.
Ouvi o ronco do motor cortando o pátio, uma nota áspera que desta vez não me trouxe o habitual aperto no peito, mas um alívio gélido. Carmela trouxe a bandeja de prata, mas foi Regina quem entrou logo atrás, fechando a porta com o pé e trazendo consigo o cheiro de orvalho e agitação.
Ela não esperou eu me sentar. Puxou a cadeira da escrivaninha para perto da cama e começou a empilhar torradas com geleia no próprio prato enquanto me analisava.
— Você está com uma cara de quem viu um fantasma — Regina disse, mastigando sem a menor cerimônia. — O que aconteceu naquele jantar? Os homens de Casal di Principe decidiram quem vai ser enterrado hoje?
— Eu vi o Ettore — falei, a voz ainda rouca de sono e das náuseas da noite anterior. — No banheiro do restaurante de Don Alfonso. Com uma das garçonetes.
Regina parou com a torrada no meio do caminho. Seus olhos brilharam, não com surpresa, mas com aquela curiosidade faminta que ela sempre tinha diante do caos.
— Com uma garçonete? No meio do jantar com os convidados? — Ela soltou uma risada que quase a fez engasgar. — Aquele porco não tem nem o trabalho de ser discreto. E o que você fez?
— Nada. Ele me mandou esperar no carro. Como se eu fosse um cão de guarda ou uma criança que atrapalhava a brincadeira.
Deixei a xícara de café sobre a mesa de cabeceira. O calor do líquido não conseguia dissipar o frio que parecia ter se instalado nos meus ossos.
Contei a ela sobre o caminho de volta, sobre as ofensas que ele cuspiu e sobre como ele me chamou de metida. Regina escutava tudo com o cenho franzido, os dedos batendo ritmadamente no joelho.
— Ele acha que te comprou por inteira, Viviana. Acha que pode te bater, te trair na sua frente e que você vai continuar lá, sendo a Signora Rossi impecável que serve vinho para os amigos dele — Regina se inclinou para frente, a voz baixando. — Conversei com um homem no pomar antes de eu entrar. Ele disse que o Signor Rossi foi para Nápoles tratar de um carregamento que atrasou no porto. Só volta amanhã ao meio-dia.
— Ele vai passar a noite fora? — Perguntei, sentindo um formigamento nas pontas dos dedos.
— Vai. O caminho está livre. Os guardas do portão são preguiçosos quando o Don não está, e eu já sei por onde a gente sai sem que ninguém note.
Virei o rosto para a janela. O Cirque de La Lune estava lá embaixo, no terreno baldio, as lonas balançando levemente com o vento.
A imagem dos três irmãos na tenda de espelhos voltou com uma força que me fez perder o fôlego. Eu ainda conseguia sentir a pressão dos dedos do terceiro irmão desfazendo os botões do meu vestido.
— Um deles me mandou aquela fita — murmurei, lembrando da manhã seguinte àquela noite em que Ettore me bateu. — O que ele quis dizer com isso?
— Só tem um jeito de saber. A gente vai hoje à noite. Sem vestidos de seda, sem joias, sem o sobrenome dele nos vigiando.
Olhei para as minhas mãos. As marcas nas minhas costas ainda queimavam, um lembrete físico de que, para Ettore, eu era apenas carne para ser moldada pela dor.
Se ele usava o tempo dele para se entregar aos seus apetites nos banheiros da cidade, por que eu deveria passar o meu trancada entre paredes de mármore, esperando pela próxima correção?
— Se ele descobrir, Regina... ele não vai apenas usar o cinto.
— Ele não vai descobrir. Ele está ocupado demais se achando o dono do mundo em Nápoles.
Levantei-me da cama e caminhei até a caixa de joias. Tirei a fita vermelha lá de dentro, o cetim deslizando entre meus dedos como uma promessa.
O medo ainda estava lá, uma sombra persistente, mas o desejo de ver algo que não fosse o rosto de Ettore ou as paredes da Villa era maior.
— Às dez — falei, fechando a mão sobre o tecido vermelho. — Me encontre na trilha das oliveiras.
Regina sorriu, um brilho de vitória nos olhos. Ela sabia que, a partir daquele momento, a máscara da Signora Rossi tinha uma rachadura que nenhum pó de arroz seria capaz de esconder.