Capítulo 2: Viviana

1111 Words
Regina tinha o dom de se desintegrar no ar. Era uma habilidade que eu costumava admirar nas nossas caminhadas vespertinas pela villa, mas que, sob a penumbra caótica do Cirque de la Lune, transformava-se em uma negligência imperdoável. A euforia do espetáculo ainda vibrava nos meus ouvidos, mas o peso da realidade começava a retornar. Eu precisava ir para casa. Precisava estar deitada, fingindo o sono profundo da ignorância, antes que o Alfa Romeo de Ettore cruzasse o portão de ferro e ele tentasse me tomar como sua mulher, exalando o cheiro azedo de um barril de vinho e o perfume barato de Nápoles. Saí à procura dela por entre as ruelas improvisadas do acampamento. O circo, fora da lona principal, era um organismo vivo e desordenado. Caminhões de transporte com a pintura descascada serviam de anteparo para cordas de varal onde figurinos de lantejoulas secavam ao vento frio. O cheiro de serragem dava lugar ao odor de óleo diesel, feno úmido e o bafo quente dos cavalos que descansavam em cercados laterais. Eu me sentia pequena, uma mancha de seda azul em um mundo de lona grossa e engrenagens de ferro. Encontrei-a em um canto realmente reservado, onde a luz das gambiarras não ousava tocar totalmente. Regina, como de costume, não estava sozinha; ela tinha o talento magnético de conquistar a atenção de alguém no tempo de um suspiro. No escuro, o som dos beijos estalando e as respirações curtas chegaram aos meus ouvidos antes mesmo que os meus olhos processassem a cena. Eles cambalearam para lá e para cá, perdidos em um ritmo próprio, até que uma f***a de luz vinda de uma das cabanas vizinhas os iluminou brevemente. Meu coração deu um solavanco. Era o homem das tatuagens, o mesmo que eu vira organizando as correntes mais cedo. Suas mãos não estavam mais no metal frio; a esquerda ocupava-se em erguer a bainha do vestido de Regina, enquanto a outra a dedilhava com uma possessividade que me fez desviar o olhar por um segundo. A b***a macia de minha amiga recebia o toque firme e rústico do homem enquanto as línguas deles dançavam em um embate faminto. Meu sangue ferveu. Não de inveja, mas de uma irritação nervosa. Eu estava presa. Só poderia ir embora quando ela terminasse aquele espetáculo particular, pois a trilha de volta sozinha, àquela hora, era um convite ao desastre. Cruzei os braços sobre o peito e me afastei dois passos, tentando dar a eles uma privacidade que o lugar m*l oferecia. — Parece que sua amiga não vai voltar para casa tão cedo — uma voz masculina soou às minhas costas, calma e divertida. — O Heracles não costuma terminar rápido quando encontra algo que gosta. Dei um salto, o susto subindo pela garganta. Olhei para o estranho, pronta para disparar um xingamento e ordenar que saísse de perto de mim, mas as palavras morreram na língua. Eu o reconheci imediatamente. Era um dos brasileiros. O mesmo rosto, a mesma estrutura de bronze que eu vira voar no trapézio. Seria ele o que tinha erguido a cabeça para me olhar? Com a maquiagem agora removida, ele parecia ainda mais real, mais perigoso. Engoli em seco, buscando o resto de dignidade que me sobrava. — Posso ir para casa sozinha — falei, forçando uma frieza que não sentia. — Regina sabe o que faz da vida, e o que ela faz não diz respeito a mim, e certamente não diz respeito a você. — Claro que não — ele sorriu. — Mas a Signorina não deveria andar por estas bandas sem companhia. O caminho entre os pomares costuma ser traiçoeiro para quem tem pernas tão delicadas. — Signora — corrigi imediatamente, enfatizando o título com um orgulho que era, na verdade, minha única armadura. — E mais perigoso que qualquer caminho de terra, é o meu marido. Você está em Afragola, estrangeiro. Aqui, o nome de Don Ettore Rossi costuma ser o suficiente para manter os homens à distância. Ele deu de ombros, uma expressão de total indiferença que beirava a heresia naquela região. — Nunca ouvi falar — respondeu ele. Antes que eu pudesse retrucar, ele fez um movimento rápido com a mão, um borrão que passou perto do meu rosto. Ele estendeu o braço e, com um meio sorriso, mostrou uma maçã vermelha e brilhante que acabara de retirar de trás da minha orelha. Arregalei os olhos, a guarda baixada pela surpresa. — Como você fez isso? — Truques de quem vive entre espelhos e sombras — ele deu um passo para mais perto, o cheiro de sabão de coco e pele quente me atingindo. — Diga o seu nome e eu conto o segredo... — Não costumo dizer meu nome a saltimbancos — respondi, recuando um passo. Minha mente gritava que eu deveria correr, mas meus pés pareciam fincados na serragem. — Guarde seu truque e sua maçã. — Saltimbanco? — Ele riu baixo, um som vibrante que pareceu ressonar nas minhas costelas. — É uma palavra dura para quem estava quase caindo da arquibancada para nos ver voar. Eu vi você, Signora Rossi. O azul do seu vestido brilha mais que a lua aqui fora. — Você está sendo atrevido — murmurei, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. — Eu vou embora. Agora. Comecei a recuar lentamente, sem dar as costas e mantendo os olhos fixos nos dele, tentando ganhar distância passo a passo para sumir entre as tendas. Eu estava decidida a enfrentar a escuridão dos pomares sozinha, mas não dei três passos para trás antes de colidir violentamente contra algo sólido. O impacto me fez vacilar. Não era uma parede; era um peito largo, coberto por uma camisa de linho fino. Senti mãos firmes segurarem meus ombros por trás para me equilibrar, impedindo que eu caísse com o solavanco, mas o choque real veio de baixo. No movimento brusco do esbarrão, a parte de cima das minhas nádegas colidiram contra algo rígido, uma pressão firme e indiscutível que fez meu corpo todo tencionar. Era o p*u dele, perfeitamente duro e encostado em mim. Olhei para cima, o coração martelando contra o esterno. Era outro gêmeo, este tinha uma pequena cicatriz na lateral da mandíbula que o primeiro não possuía. O segundo irmão me mantinha presa contra o seu corpo com uma calma irritante, o olhar descendo para meus lábios antes de voltar para os meus olhos. — Calma, bonequinha — ele disse, em uma língua que eu não conhecia, mas cujo tom era impossível de confundir. Ele mudou para o italiano, a voz mais rouca que a do primeiro. — Aonde vai com tanta pressa?
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