Capítulo 9: Viviana

455 Words
Regina saiu do quarto com a mesma leveza impetuosa com que entrara, deixando o eco do seu conselho absurdo flutuando entre os móveis pesados. Fiquei parada, a fita vermelha ainda escondida no punho cerrado. Foder os três. A frase era um insulto à realidade. Regina falava como se o mundo fosse um circo onde ela podia rir e dançar ao seu bel-prazer, mas ela não carregava o sobrenome Rossi. Em Afragola, a Máfia não era uma lenda de jornais ou um filme de cinema; era o ar que respirávamos. Era o homem que decidia quem vendia o leite, quem plantava o pêssego e quem, como eu, servia de moeda de troca para selar alianças. Meu pai não me entregara a Ettore por amor ou por falta de opções financeiras. Ele me entregara por respeito. Naquelas terras, o respeito era uma mercadoria mais valiosa que o ouro, e ter uma filha na cama de um Capo como Ettore garantia que ninguém ousaria atravessar o caminho da nossa família. Eu fui vendida antes mesmo de saber o que era um contrato. Caminhei até a cômoda e escondi a fita de cetim no fundo de uma caixa de joias, sob um colar de pérolas que Ettore me dera. Pérolas para esconder cicatrizes. Apesar da queimação nas costas, retirei a camisola. Escolhi um vestido de lã cinza, de gola alta e mangas longas. Cada movimento para abotoar a peça era um suplício, mas a Signora Rossi precisava estar montada. Cobri a palidez com pó de arroz e prendi o cabelo em um coque rigoroso. Ninguém veria a mulher que tremeu em uma tenda de espelhos ou que apanhou na própria cama. Desci as escadas de mármore, sentindo o tecido grosso roçar nas feridas. No salão de jantar, a mesa de carvalho estava posta para uma única pessoa. — Bom dia, Signora — murmurou Carmela, uma das criadas, sem erguer os olhos enquanto servia o café. — Bom dia. Sentei-me à cabeceira, a cadeira de espaldar alto servindo como um suporte rígido. Tomei meu café sozinha, cercada pelo luxo que era minha cela. Através da janela, via os pomares de pêssego florescendo em tons de rosa, um contraste c***l com o cinza das pedras vulcânicas que cercavam a propriedade. Ali, a ideia de Regina parecia delirante. Eu estava amarrada a Ettore por leis de tradição e sangue. Não havia saída. O circo era um brilho passageiro que desapareceria assim que as tendas fossem desmontadas. Eu não tinha o direito de ter fogo. Meu destino era ser a cinza que sobrava depois que Ettore passava. Terminei o café em silêncio, observando uma mosca bater contra o vidro da janela fechada. Ela queria o jardim; eu só queria que o dia passasse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD