Capítulo 1: Viviana

1044 Words
As solas dos meus sapatos de couro não foram feitas para a terra batida de Afragola. A cada passo, sentia as irregularidades do chão, as pedras pequenas e a umidade que subia do solo escuro daquela região. Minhas pernas já acusavam o cansaço, uma queimação leve nas panturrilhas que eu tentava ignorar. O ar da noite estava fresco, carregado com o aroma doce e pesado das flores de pêssego que começavam a despontar nos pomares ao redor. Era um cheiro que eu costumava associar à minha liberdade perdida, mas naquela noite, ele parecia me empurrar para frente. Ao meu lado, Regina caminhava com uma agilidade que eu invejava. Ela não tinha o peso de um sobrenome como Rossi sobre os ombros, nem precisava se preocupar se o coque estava perfeitamente alinhado ou se o vestido de seda azul denunciava sua posição. Regina era apenas Regina, minha vizinha e a única pessoa que se atrevera a me tratar como uma mulher de dezoito anos, e não como uma peça de mobília valiosa da Villa. — Já começou, Viviana! — Regina exclamou, apertando o passo e olhando para o clarão que surgia entre as copas das oliveiras. — Ouça a música. Eles já abriram as cortinas! — Estamos indo, Regina. Cuidado para não cair nessa vala — respondi, tentando manter a voz firme apesar da respiração curta. Eu sabia que Ettore estava longe. Ele partira ao entardecer no Alfa Romeo, deixando para trás apenas o rastro do motor barulhento e a certeza de que não voltaria antes do sol nascer. Seus "negócios" no centro de Nápoles sempre envolviam as luzes vermelhas dos bordéis e o cheiro de gim barato, algo que ele nem se dava ao trabalho de esconder de mim. Para Ettore, eu era uma garantia de linhagem, um contrato assinado que ele guardava na gaveta, enquanto buscava diversão nas ruas. Quando finalmente dobramos a última curva da trilha, as luzes do Cirque de La Lune nos atingiram com intensidade. Havia geradores roncando, o estalo de lâmpadas de magnésio e o som de uma banda de metais que tocava algo vibrante e de outras terras. Passamos rapidamente pelos arredores da estrutura. O cheiro de pipoca feita na banha e o aroma de açúcar queimado do algodão-doce flutuavam no ar. Vi, de relance, um homem alto exibindo tatuagens nos braços enquanto organizava correntes, e crianças correndo com moedas nas mãos. Não paramos nas barracas de tiro ao alvo ou nas videntes de olhar turvo. Regina exibia nossos ingressos como se fossem passaportes para outro mundo. A estrutura de lona era imponente, uma massa de tecido escuro reforçado onde uma lua crescente, branca e brilhante, fora desenhada com perfeição. Ao cruzarmos a entrada, a temperatura subiu dez graus. O calor humano, misturado ao cheiro de serragem nova e querosene, preencheu meus pulmões. Sentamos nos bancos de madeira da arquibancada, espremidas entre uma família de camponeses e um grupo de jovens que assobiavam. A risada do público nos acertou como um tapa logo de cara. Dois palhaços, com rostos pintados de branco e expressões exageradamente tristes, tropeçavam um no outro no centro do picadeiro, arrancando gargalhadas histéricas de crianças e adultos. Eu ri. Uma risada que parecia ter ficado guardada em algum lugar do meu peito por meses. Desde que meu pai me entregara a Ettore em uma transação que cheirava a conveniência e medo, a alegria fora substituída por uma etiqueta rígida e jantares silenciosos. Ali, sob a lona remendada, eu não era a Signora Rossi de Afragola. A noite passou em uma felicidade enevoada de cores e sons. Acrobatas russas giraram sobre cavalos brancos e um mágico francês fez pombas aparecerem de lugares impossíveis. Mas nada me preparou para o que veio a seguir. A música mudou. O ritmo dos tambores ficou mais seco, mais profundo, ecoando no meu diafragma. O mestre de cerimônias anunciou, com um sotaque carregado, a atração vinda do outro lado do oceano. Eles entraram correndo, três vultos que pareciam feitos de bronze sob os refletores. Eram idênticos. A mesma altura, a mesma largura de ombros, o mesmo cabelo escuro que brilhava com o suor. Usavam trajes justos que deixavam pouco para a imaginação, revelando uma musculatura que não vinha do trabalho pesado no campo, mas de uma disciplina que parecia arte. Eram brasileiros. Moviam-se com uma confiança que beirava a insolência. Enquanto subiam pelas cordas para os trapézios, eles não olhavam para os próprios pés; olhavam para a multidão com sorrisos que pareciam promessas. Eu me inclinei para frente, as mãos apertando o tecido do meu vestido. Eles voavam. Literalmente. Lançavam-se no vazio entre as barras de ferro com uma precisão que fazia a plateia prender o fôlego coletivamente. Não havia hesitação. Quando um deles soltava o trapézio, o outro já estava lá, as mãos prontas para o encaixe perfeito no ar. Eles pareciam enfrentar a gravidade e rir dela. Eram livres de um jeito que eu sequer conseguia conceber. O show terminou com um salto triplo sincronizado que fez Regina gritar de empolgação. O público se levantou em peso, um mar de aplausos e assobios que faziam as estacas do circo vibrarem. No centro do picadeiro, sob a luz principal, os três irmãos se juntaram. Eles se curvaram em um agradecimento teatral, os rostos brilhando de esforço e triunfo. Um deles, posicionado ligeiramente à esquerda, levantou a cabeça um pouco antes dos outros. Naquele momento, o ruído da multidão pareceu sumir. Eu tive a certeza absoluta de que os olhos dele, escuros e intensos, caíram exatamente sobre mim. Eu não entendia muito sobre os homens. Os únicos que eu convivi foram o meu pai e depois o meu marido, mas aquele brasileiro não parecia olhar para mim como se eu fosse mais uma espectadora. Um calor súbito percorreu minha espinha, subindo pelas maçãs do rosto e fazendo meu coração errar a batida de forma alarmante. Senti como se ele tivesse puxado um fio invisível dentro de mim, algo que eu nem sabia que estava conectado a nada. A intensidade durou apenas um batimento cardíaco. Os outros artistas se juntaram ao grupo para o agradecimento final, e a forma física dele se perdeu em meio aos figurinos coloridos e às capas de veludo. Eu nem imaginava o que aconteceria naquela noite.
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