Capítulo 19: Viviana

651 Words
O irmão que me guiava avançava com uma naturalidade que me deixava tonta. Na Villa Rossi, as paredes de mármore pareciam sugar qualquer cor, restando apenas o cinza das pedras e o marrom escuro dos móveis de carvalho. Ali, mesmo sob a luz precária das lanternas de querosene, tudo saltava aos olhos. Vimos dois acrobatas chineses dividindo uma tigela de sopa quente sentados em caixotes, falando uma língua rápida que parecia música. Mais adiante, a mulher ruiva que costurava lantejoulas me deu um aceno curto, sem parar o movimento da agulha. Havia varais com malhas de seda secando ao vento frio e o cheiro de graxa de caminhão misturado ao feno. Era uma desordem viva, oposta ao vazio impecável da minha casa, onde cada vaso de porcelana estava no lugar apenas para provar que meu marido podia pagá-lo. — Eles não param nunca? — Perguntei, observando um homem de meia-idade que engraxava as botas com um vigor metódico. — O circo não dorme, Viviana. Ele apenas troca de turno — o brasileiro respondeu, afastando um pedaço de lona para que eu passasse. Conforme avançávamos para a parte mais afastada, onde as carretas eram maiores e mais luxuosas, a luz das gambiarras ficava para trás. O som da banda lá longe era apenas um murmúrio. Foi quando o segundo surgiu de trás de uma pilha de estacas. Ele ainda usava a calça do figurino, o torso nu brilhando sob o sereno da noite. A cicatriz na mandíbula parecia mais profunda na penumbra. Ele não disse nada, apenas se juntou a nós, caminhando do meu outro lado. Senti o calor que emanava dele, uma presença sólida que me fazia lembrar da pressão que ele exercera contra o meu corpo na primeira noite. Poucos metros depois, o terceiro apareceu, saindo da sombra de uma árvore. Ele estava vestido, mas a barba rala e o queixo quadrado davam a ele um ar de seriedade que os outros dois não tinham. Eles me levaram até um recuo entre duas caravanas de madeira escura, um lugar onde o vento batia menos e o som dos geradores sumia. No instante em que paramos, um som atravessou o ar. Era um gemido longo, agudo, seguido pelo baque rítmico de carne contra carne vindo de uma das cabinas próximas. Minha reação foi imediata. Dei um passo atrás, sentindo o sangue subir para as bochechas, os olhos arregalados em direção à estrutura que vibrava levemente. Pensei em Ettore e na garçonete no restaurante; pensei em violência. O primeiro soltou uma risada clara, e o da cicatriz o acompanhou com um som rouco. — Calma, bonequinha — o da cicatriz murmurou, a voz vibrando perto do meu ouvido. — Ninguém está morrendo. — É apenas o circo — o terceiro completou, os braços cruzados, observando meu espanto com aquela calma que me irritava. — Tanta gente jovem e bonita vivendo espremida... o prazer é a única coisa que não custa nada por aqui. Um novo grito escapou da cabina, e desta vez reconheci a nota de euforia na voz. Era Regina. O som era cru e livre, nada parecido com os suspiros de dor que eu tentava esconder sob os lençóis da Villa. — Sua amiga está bem acompanhada — o primeiro disse, dando um passo para fechar o círculo ao meu redor. — O homem das correntes não é de se jogar fora. Não precisa se preocupar com ela. Eles se aproximaram mais. Agora não havia mais artistas chineses, costureiras ou operários. Éramos apenas eu, no meio daquele recanto escuro, e os três homens que pareciam feitos da mesma matéria que o cobre. O constrangimento pelo som de Regina foi sendo substituído por um peso diferente no meu baixo ventre. Eu estava cercada por eles, longe da proteção de qualquer álibi, ouvindo o prazer da minha amiga enquanto o meu próprio corpo ainda carregava as marcas do ódio de Ettore Rossi.
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