Capítulo 3: Viviana

1040 Words
O calor do corpo do homem às minhas costas atravessava o tecido fino do meu vestido como se a peça nem existisse. A rigidez do p*u dele, pressionada contra a parte superior das minhas nádegas, era um aviso mudo que fazia o ar travar nos meus pulmões. À minha frente, o primeiro irmão deu um passo para fechar o espaço, o sorriso de quem conhecia exatamente o efeito que causava. Eu estava imprensada entre duas massas de músculos e intenções que Ettore Rossi nunca demonstrara em anos de matrimônio. Posse e desejo de se afirmar e marcar território meu marido sabia fazer como ninguém, mas aquilo... aquilo era novo. — Me soltem — eu ordenei, mas minha voz saiu com uma fragilidade que me traía. Tentei me debater, mas as mãos do que estava atrás de mim apertaram meus ombros com uma firmeza que não chegava a machucar, apenas me imobilizava. Eles trocaram um olhar rápido e começaram a falar em português. As palavras eram rápidas, musicais e completamente estranhas. Soavam como um segredo compartilhado sobre a minha cabeça, uma língua que servia como uma muralha entre eles e o resto de Afragola. O da frente esticou a mão e tocou a pele do meu pescoço, logo abaixo da orelha, onde o pulso batia descontrolado. — Falem italiano — eu exigi, o queixo erguido. — Vocês estão na minha terra. O que me tocava riu, um som baixo que vibrou no peito do irmão que me segurava por trás. — Se quer entender o que pretendemos fazer com você, Signora Rossi — ele disse, a pronúncia do meu título soando como uma piada —, vai ter que aprender a nossa língua. O italiano é muito formal para o que temos em mente. Antes que eu pudesse retrucar, um som ríspido cortou o murmúrio das tendas vizinhas. Um gemido alto, agudo e carregado de um prazer quase doloroso ecoou pelo corredor de lona. Heracles estava tomando Regina com uma intensidade que fazia as paredes de madeira de uma das cabanas vibrarem. Foi um som animal, cru, que fez os dois irmãos desviarem o olhar por um décimo de segundo, uma distração momentânea causada pelo sucesso da conquista do colega de trupe. Foi a minha brecha. Empurrei o peito do homem à minha frente com toda a força que o medo me proporcionava e, aproveitando o afrouxar dos dedos no meu ombro, me esquivei para o lado. Corri sem sequer olhar para trás para ver se eles me seguiam. Meus pés batiam na terra agora mais fria, e o labirinto de tendas parecia se fechar ao meu redor. O circo estava morrendo para a noite. O público já era uma lembrança distante, o burburinho da multidão substituído pelo som de estacas sendo conferidas e o murmúrio baixo dos artistas que se recolhiam. As luzes de gambiarra estavam sendo apagadas uma a uma, deixando corredores de sombras profundas. Eu estava perdida. Entrei em um corredor estreito, cercado por lonas pesadas, sentindo que cada sombra poderia se transformar em um par de braços bronzeados. — Por aqui! — Uma mão agarrou meu pulso com força. Girei o corpo, o coração quase saindo pela boca. Um homem estava ali, o rosto parcialmente coberto pelas sombras de um chapéu de aba curta. Ele não sorria como os outros. Seu semblante era sério, quase urgente. — Eles estão vindo — ele sussurrou. — Venha comigo se não quiser ser encontrada. Ele me puxou com passos largos, guiando-me para longe da cabana onde Regina ainda gemia. Eu o segui, tropeçando na bainha do meu vestido, querendo apenas alcançar a estrada de terra que me levaria de volta à segurança sufocante da Villa. Mas ele não me levou para a saída. Ele parou em frente a uma estrutura lateral, uma tenda menor que as outras, mas com uma entrada de madeira sólida. Ele me empurrou para dentro e fechou a porta atrás de nós, trancando-a com um ferrolho pesado. Lá dentro, a luz era escassa, vinda apenas de uma lâmpada pendurada no teto que oscilava levemente. Olhei ao redor e o pânico voltou a subir. Estávamos na Tenda de Espelhos. Paredes de vidro se estendiam em todas as direções, criando corredores infinitos. Eu via dezenas de Vivianas: todas com o rosto corado, o cabelo desalinhado e o vestido de seda azul amassado. Olhei para o meu salvador e, quando ele retirou o chapéu, senti meus joelhos fraquejarem. Ele era idêntico aos outros dois. Mas havia algo diferente no olhar, uma frieza observadora que os outros não tinham. Era o terceiro irmão. O reflexo dele se multiplicou nos espelhos ao nosso redor, criando um exército de homens de bronze que pareciam me vigiar de todos os ângulos possíveis. — Você... — eu comecei, recuando, mas bati as costas em um dos espelhos. O vidro estava gelado contra a minha pele aquecida. — Meus irmãos são impacientes — ele disse, a voz mais suave que a dos outros, um barítono que parecia acariciar o ar. — Eles preferem ir direto ao ponto. Eu... eu gosto de ver minhas conquistas se rendendo. Ele deu um passo na minha direção. Nos espelhos, vi dez versões dele se aproximando. Era uma armadilha visual perfeita; eu não sabia qual braço era real até que senti a mão dele tocar o meu ombro. Ele não me segurou com força. Seus dedos apenas deslizaram pela alça do meu vestido, movendo-se para as minhas costas. Senti um calafrio violento quando ouvi o som metálico do primeiro botão sendo desfeito. — O que está fazendo? — Eu perguntei, embora o calor que subia por entre minhas pernas desse a resposta que minha mente se recusava a aceitar. — Ensinando a primeira lição — ele sussurrou, inclinando-se até que seus lábios roçassem a curva do meu pescoço. — No Brasil, não deixamos uma mulher como você ir embora sem antes saber o que é ser tocada de verdade. Senti a pressão dos dedos dele movendo-se para o segundo botão. Eu deveria gritar, deveria lutar, mas a imagem de tantas Vivianas nos espelhos, todas esperando pelo toque, parecia me hipnotizar. Eu estava no centro de um labirinto, e o Minotauro tinha o rosto mais lindo que eu já vira.
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