Hospício.

1697 Words
O lugar carrega um silêncio calmo, é pálido e vazio. Não sei porque estou aqui, não sei nem mesmo como cheguei. A cama que estou está rangendo a cada vez que mexo, o ambiente parece mais abafado do que estou acostumada. Eu não vejo nenhuma cor. Estou trancada, ou assim parece, já que não tenho forças pra me levantar da cama e com minhas próprias mãos girar a maçaneta. Aqui me enjoa. Me deprime. Quero me levantar e gritar, mas não tenho ânimo, nem forças. Estou com saudades de alguém que sinto que conheci por aqui, mas não me recordo de seu rosto. Pareço estar em um lugar desconhecido sem nenhum motivo aparente. Quero me lembrar, me machuca não me lembrar de nada. Quero chorar e obter respostas, mas meu corpo não move.. Estou dopada, soando e soando até cair no sono novamente.                                                                                     ❦❦❦❦❦ Uma mulher com cabelos ruivos acabou por entrar no quarto. Era alta, tinha olhos castanhos. Ela sequer olhou pra mim, como se eu fosse invisível. — Se me permite, onde estamos? — Eu pergunto. Quero que ela saiba todas as respostas da minha mente confusa. Quero conversar. Eu amo conversar com todos ao meu redor. Embora não me lembre se já tenha conversado com alguém. — Está brincando? — Ela revirou os olhos. Não a entendo, ela é rude, áspera com suas palavras. Quero lhe dar um soco. Oh, Deus. Certamente esse não é um pensamento admirável de se fazer com um desconhecido, mas meus dedos coçam de raiva.. fúria.. algo dentro de mim que talvez nem haja palavras pra explicar. Ela pega algo de sua maleta branca, algo parecido com um remédio, e me mandou abrir a boca. — Mas por que? — Sempre as mesmas perguntas! — Ela grita e respira fundo logo em seguida. Como se eu fosse um bicho inquieto difícil de ser domado, que costuma dar muito trabalho. Isso me faz querer rir. Alguém sempre me dizia que eu era teimosa, uma garotinha muito parecida comigo, embora também não me recorde perfeitamente quem era.. Minha cabeça doe por tentar pensar demais, pareço não estar tão acostumada assim.. Não estou acostumada a pensar. Acabei permitindo que ela me desse o remédio, do qual tomei (já que ela me pediu até para mostrar a língua para conferir), mas quando percebi que ela trazia na mão uma injeção grande - que parecia que ia arrancar pedaços de mim - acabei negando e resistindo. Fui até a porta do quarto, tentei abri-la, e ela me puxou pelo cabelo(que era tão nanico), me colocou de volta a minha cama, puxou meu braço com força e a aplicou em mim. Gritei, não de dor e sim de raiva. — Por que está fazendo isso comigo? Ao ver que ela me ignorava, tentei novamente: — Não entendo..— Resmunguei. Dos meus olhos saiam algumas lágrimas. Ela guardava suas coisas. Enquanto eu falava, sequer preocupou em me responder, e antes dela sair, acabei por mostrar-lhe a língua. Era um gesto que eu costumava fazer quando estava triste e com raiva. Fiquei sozinha naquele quarto pelo que pareceu horas, resisti ao máximo para não pegar no sono, mas acabei por cochilar às vezes. O remédio deve ter me dado sono. Ou o silêncio demasiado. Ou a ausência de algo para se fazer. Mas não demorou muito para que eu começasse a entrar em pânico. Esmurrava a porta, gritava coisas como "a onde estou?", "por que estou aqui?", "vocês não vão me responder seus monstros nojentos?" E enfim a porta se abriu e um homem mais velho entrou. — Bom dia Alice. Como vai passando? Como ele sabe meu nome? — Vou bem. Ele anotou isso em algo, um caderno ou um bloco de notas. Parecia escrever além do que falei, pelo tempo um pouco demorado. — O que está anotando? — Fixei meu olhar curioso em suas frases escritas depressa. — O de sempre. — Ele falou. — O que é "o de sempre"? — Ah, sim. Esqueci completamente que Victoria me disse que você pensa que perdeu a memória. — Então Victoria é o nome dela? Ele coçou um pouco seus olhos de insônia, continuou anotando algumas coisas, e enfim me olhou fixamente. Pareceu me notar pela primeira vez. — Quais são suas perguntas? Posso te ajudar a lembrar de algumas coisas. — Ele me encarava como se realmente quisesse me ouvir, como se eu não fosse um bichinho difícil de domar, como Victoria pensa, mas mesmo assim, ele não me deixa tranquila, ele me amedronta. — Onde estou? — Em um hospício. — Ele respondeu calmamente. Um hospício é um lugar para pessoas loucas, me recordei. Alguém me disse isso uma vez. — EM UM HOSPÍCIO?! EU SOU PERFEITAMENTE NORMAL! — Estava entrando em desespero. O médico segurou sua risada e continuou: — Você se diz provedora do futuro, atormenta os demais sobre isso. Essas coisas não funcionam muito no nosso tempo Alice, você sabe. Acham que é feiticeira e estamos aqui para tratá-la disso. — Talvez tenha feito algumas coisas anormais, mas não sou louca e nem tenho visões! Se tiver uma família, gostaria de conversar com eles, eles me ouvirão e me retirarão desse lugar. Ele me olhou surpreso. Pareceu acreditar em mim pela primeira vez, e vi surgindo um pequeno sorriso em seus lábios. Aqueles lábios secos, aquele olhar n***o, seus pequenos gestos frívolos, seus braços, pernas gordas, me fez pensar que talvez já o tinha visto em algum lugar. Forço a minha mente, obrigo-a a trabalhar mais, a tentar procurar o passado, mas tudo o que vejo é um branco, como uma porta trancada, implorando para que eu a abra, e continuo tentando, sem sucesso. — Me lembro de você. — Claro que sim. Sou o dono desse lugar. Ah, claro. Deve ser isso. — Quando poderei sair desse quarto? — O horário da alimentação é daqui dez minutos. — Quando vou sair daqui? Ele me encarou com um olhar de pena, ou talvez fosse uma atuação de sua tão maestria posição. — Logo estará melhor. — Ele deu meia-volta e saiu do quarto, me deixando sozinha novamente.                                                                                     ❦❦❦❦❦ Ao se passar um tempo, a porta trancada acabou se abrindo automaticamente, e uma moça me acompanhou até o que ela disse ser a sala das refeições. Não era um lugar bonito, mas me senti feliz por sair do quarto. Me sentei com uma senhora, ela tinha olhos claros e parecia muito gentil. Seu nome era Gal, e ela me contou detalhes sobre as demais pessoas do hospício. Suzan era uma das pessoas mais jovens e bonitas, assim como eu, ela disse. Blaine era o zelador, um de seus poucos amigos. Karen, Anne e Jimmy, eram pessoas fechadas como zumbis, que nunca se entrosavam. Havia outros pacientes, mas tão loucos que não podiam nem sair do quarto. Também havia funcionários chatos e rabugentos, que ela sequer notava seus nomes. Falei sobre Victoria, e ela concordou comigo quando disse que a achava rude. Perguntei o que a fazia estar aqui, mas ela não sabia. A maioria das pessoas aqui não sabiam o que tinham feito. — Somos iguais em tudo, não concorda? — Perguntei ao vê-la separar alguns legumes de cima do arroz e delicadamente organizar a mesa. Eu também amo organização. Me sinto aliviada a não ver nada bagunçado. — Oh, Alice, ninguém é igual a você. Gal me faz sentir especial, talvez esse lugar não seja de todo tão horrível.                                                                                          ❦❦❦❦❦ No restante da semana, raramente fazia algo a não ser dormir. Aplicavam remédios em mim que mais pareciam com mata-leão, e vi que se raciocinasse bem, perceberia que quanto menos você resiste mais leve eles pegam. Mas eu não raciocinava muito bem, e teve uma hora que acabei mordendo Victoria, e ela me deu um tapa forte no rosto. Eu não me importaria se aquela mula morresse. Ela era o objeto que todo o meu ódio estava destinado. Não gostava da maneira como ela andava, como ela falava, não gostava de como ela me tratava como uma criança pirracenta. E no horário de almoço, pude conhecer também Blaine, porque estava sempre acompanhando Gal, e os dois eram fofos juntos. Me acomodei aos dois, pude conhecer mais sobre a vida de Gal, de como ela sempre foi querida na família, de como eles sempre a amaram, mas agora ela estava morrendo. Fiquei triste por ela, acho que a considero uma amiga aqui, e ficaria muito triste se ela fosse embora Já sobre Blaine, ele não contava nada sobre si, mas havia dias que não aparecia nos almoços, dias que eram melhores, com mais sol e mais ar puro. — Eu não o entendo. — Me disse Gal uma vez.— Ele sempre evita o sol. E é raro fazer sol por aqui, ele deveria valorizar. Mas ele sempre aparecia nos dias que pareciam mais com noites, de tão nublados e cinzas. Falava poucas palavras, parecia tão fechado como Karen, Anne e Jimmy, mas eu gosto de sua companhia. Ele também parecia gostar de mim, porque às vezes ele me respondia. Estou quase caindo no sono quando sinto algo martelar em minha mente, como uma faca cortando meu cérebro. Eu abro os olhos, mas de repente não estou mais em um quarto. Eu vejo Blaine, vejo-o encarando Gal, e de repente... vejo tudo virar uma poça de sangue. Vejo mais sangue, Gal está gritando, Gal está morrendo aos poucos, como se estivessem sugando toda sua energia. Vejo uma mulher estranha, de corpo atraente e pele frágil, cabelos longos, castanhos, cacheados e bonitos. Ela sussurra no ouvido de um homem (que está de costas): "vai ouvir aquela maluca? Ela não sabe nada de futuro. Eu sou o seu futuro!", e então os dois se beijam na noite escura. Volto a encarar e vejo o hospício de novo. Foi como se eu tivesse um vislumbre, uma visão. Estou suando frio, porque isso não me pareceu uma alucinação. Me pareceu mais como algo palpável, algo que realmente fosse acontecer... Eu grito. Ah, não.. Estou ficando maluca!                                                                                        ❦❦❦❦❦❦❦
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