Naquele final de tarde eu não pensei em outra coisa, coloquei roupas em minha mochila, comprei algumas botas, jaquetas, blusas grandes, tudo que indicasse que eu era uma mulher experiente em trabalhos de fazenda, apesar da grande mentira.
Fiz várias pesquisas sobre como trabalhar com animais, não virei uma expert, mas com certeza saberia passar por uma possível entrevista. Aquela foi a melhor forma de conseguir entrar naquele lugar. Talvez Amanda sentisse vergonha de mim nesse momento, assim como sinto as vezes, não por trabalhar na fazenda de forma tão braçal, não, longe disso, mas pelos verdadeiros motivos de eu estar fazendo isso.
Quando estaciono meu carro em frente à fazenda com o letreiro grande “Fazenda Lago Azul”, meu coração acelera. Não entendi o nome, mas não importa, ao lado tinha “Proibida entrada, terreno particular”. Posso ver a imensidão do lugar, com certeza eles têm muito dinheiro.
Um homem vem em minha direção. O grande portão de madeira se abre apenas para que ele saia, bate no vidro do meu carro e eu o abro, sorrindo para ele, que permanece sério.
- Quem é você?
- Vim pelo anúncio de emprego.
- Deixa eu ver teu documento. – Pego minha identidade e mostro a ele. O homem olha para mim, para a foto e então me devolve. – Segue direto até a casinha ao lado da principal. Lá a senhora Francisca vai estar te esperando.
Assinto e ele vai abrir o portão para mim. Sorrio, pelas minhas pesquisas essa senhora é a tal avó. Se eu achava o lugar grande por fora, assim que entro fico surpresa. Não apenas pela beleza e grandeza, mas pela diversidade. Acho que nunca vi tantas árvores frutíferas juntas, tantos animais, homens lidam com cavalos, bois, bodes, porcos, galinhas, não parecia uma fazenda de venda, eram poucos animais, mas com tanta pluralidade de raças que me deixou encantada.
Sem contar a diferença do ar, muito melhor do que a poluição da cidade grande, e olha que nem era tão longe. Cerca de uma hora e meia de distância a eu estava lá. Não foi difícil de encontrar aquele lugar, como eu disse antes, essa família é rica, envolvida com política, o sobrenome deles vive nos noticiários, não é de se estranhar que Beatrice tenha saído impune do acidente.
Quando estaciono onde fui indicada, vejo duas motos paradas em frente. Então desço do carro e entro, lá posso ver um homem sentado em uma cadeira e atrás de uma mesa um senhor.
- Quem é você? – O homem n***o pergunta, seu olhar é sério, duro, será que todos aqui são assim?
- Olá, sou Michele.
- Veio pela vaga de emprego?
- Sim. – Quando respondo, escuto a risada do outro homem sentado.
- Moça, não quero parecer m*l educado, mas a nossa prioridade são homens. - Franzo o cenho, aquilo não estava descrito no anúncio, o primeiro obstáculo.
- Por quê?
- O serviço que queremos é para cuidar dos bodes, eles sabem ser bem doidos quando querem.
Penso por um instante, não tinha descrito o que seria os cuidados, mas não posso negar nada, o objetivo é estar lá dentro, seja como for, não posso deixar essa chance passar, não agora depois de ter chegado até ali.
- Eu posso cuidar de bodes.
- Claro que pode. – O outro homem diz, desdenhando da minha capacidade, ou não, sei bem o que é aquilo, machismo escroto. Ignoro-o.
- Não posso impedi-la de falar com dona Francisca, mas não posso garantir nada, ela vai pedir minha opinião, não sei se uma mulher daria conta, apesar de parecer disposta e forte.
Ele olha meu corpo, sei que não foi algo desrespeitoso, realmente estava analisando minha massa muscular. Tenho esse corpo natural, talvez seja os genes negros correndo por minha pele, ou simplesmente as horas de exercícios feitos em casa.
- Tudo bem, só me deixe fazer a entrevista.
Ele assente e aponta para uma cadeira, sento e espero. Dez minutos depois o outro homem sai, então o machista escroto entra. Menos de dois minutos depois ele sai, irritado e xingando.
- Essa velha, ah... Com certeza não sabe...
Antes que falar alguma coisa o homem n***o levanta e puxa uma arma da cintura, apontando para o louco que arregala os olhos.
- O que você estava falando?
p***a, p***a, p***a, esse pessoal daqui é doido? O cara tem uma arma! Inferno, ele vai m***r o outro cara. Meu coração dispara. Tento manter a calma, mas não consigo desviar o olhar daquele objeto n***o na mão do homem.
- Eu...
- Vai embora daqui antes que eu exploda teus miolos.
O escroto machista continua com as mãos para cima, saindo de costas. Quando sai, vejo-o correndo para a moto. Engulo seco e volto a encarar o homem na minha frente. Ele guarda a arma como se fosse um brinquedo qualquer.
- Desculpa, moça, mas não admitimos nenhuma falta de respeito aqui. A senhora Francisca sempre nos ajudou, nunca permitirei que a destratem.
- Eu... Tudo bem.
- Pode entrar. Boa sorte.
Respiro fundo e entro na sala. Assim que olho para frente tem uma senhora, idosa para ser mais exata, me encarando, seu olhar é duvidoso, avaliativo, analítico. Ela me dá um pouco de medo.
- Boa tarde, com licença.
- Entre, sente-se. – Faço o que ela manda. – Achei que não fosse aparecer nenhuma mulher para a vaga.
- No anúncio não foi dito que a preferência eram homens.
- Besteira. – Ela joga a mão no ar. – Isso é coisa daquela antiquado lá fora, que acha que mulheres não podem fazer serviços braçais, e você... Olha para você. Com todos esses músculos deve tirar de letra. Dá aqui seu curriculum. – Entrego para ela. – Michele...
Então ela passa a analisar. Vejo suas expressões lendo cada linha, pensando, não menti no documento, agora vejo que fiz certo. Posso sentir em seu olhar o seu bom coração. Não consigo imaginar essa mulher sendo avó de um ser tão...
- Você se coloca aqui como escritora, porque está aqui, Michele? – Era a pergunta mais óbvia depois de ver meu curriculum.
- Para ser sincera... Fuga.
- Fuga? – Ela fecha a pasta e me encara.
- Sim. Eu... Eu perdi alguém importante há um tempo. Não consegui mais viver como antes, escrever não me deu mais prazer, precisava de novos ares... – Não é mentira o que estou dizendo, talvez por isso ganho sua atenção. – Estou fugindo da realidade, pensei que um lugar assim... Esse lugar é maravilhoso, penso que essa seja minha escapatória, pelo menos por um tempo.
- Eu... – Ela engole seco. Posso ver tristeza agora em seus olhos, o que me deixa curiosa e preocupada.
- Está tudo bem?
- Sim... – A senhora se remexe na cadeira. – Perdas são sempre dolorosas, mas não sei se aqui seja o lugar certo para sua fuga, apesar de ser um motivo nobre, estamos de fato precisando do funcionário, não é uma colônia de férias.
- Eu nunca disse que seria. – Fico séria, encarando-a sem desviar. – Não estou atrás de férias, estou em busca de ocupação.
- Você não tem experiência alguma.
- Não, não nessa área, mas não saberá que sou capaz sem me deixar tentar, dizer que aprendo fácil seria besteira, todos dizem isso, mas posso afirmar que não irei decepcioná-la, pelo menos não profissionalmente.
O olhar dela... Aquele olhar me deixa nervosa. Medrosa até. Algo em Francisca é intenso demais para desviar, eu quero olhar para outro lado, tentar parecer calma, mas não consigo, ela me faz fixar os olhos nela, é estranho e... Bom ao mesmo tempo.
- Você tem algo... – Ela sente a mesma coisa. – Eu não sei explicar, vou criar uma confusão dos infernos com Caio, aquele marrento lá fora... – Então suspira. – Mas você terá sua chance, Michele.
Sorrio, m*l podendo conter minha felicidade, não só por conseguir o trabalho, mas por saber que aquela mulher seria minha patroa.
- Obrigada, senhora, prometo não decepcioná-la.
- Espero que não, mas... – Seus olhos me desnudam mais uma vez. – Deixa para lá. Caio vai te explicar tudo. Dizer onde vai ficar, como funciona, questões salariais, folga, essas cosias. Eu moro na casa grande com minha neta, mas ela... Ela não costuma sair, acho difícil você vê-la, mas caso aconteça, ignore seu mau humor, desde que... Faz um tempo que ela ficou assim. Qualquer dúvida pode falar com Caio, caso queira falar comigo, pode ir até a casa e pedir para me chamarem, mas Caio responde por mim aqui dentro. Preciso descansar, não tenho mais vinte anos. – Ela sorri ao dizer. – É bem óbvio.
- Você parece bem para a sua idade, senhora.
- Continue me chamando de você. E sim, sempre me dediquei a esse lugar, meu marido morreu e meu filho tomou conta dos negócios, só quis esse lugar, porque ele sempre será meu e um dia da minha neta.
Tento ao máximo evitar travar o maxilar quando ela fala da neta, talvez tenha notado, pois sempre me encara de forma tão sufocante, intensa, íntima, como se me conhecesse, como se pudesse despir minha alma.
- Tudo bem. Obrigada novamente.
Aperto sua mão e saio. Falo para o homem que a senhora lhe chama, demora um tempo, na verdade tempo demais, depois ele retorna, me encara e respira fundo, chega perto e me encara, no mesmo momento me lembro da arma em sua cintura.
- Não sei o que você fez, garota, mas está contratada. – Seus olhos negros mostram que ele já usou aquela arma. – Só saiba de uma coisa, ninguém faz m*l nesse lugar, não comigo os protegendo.
- Eu só quero trabalhar e ficar em paz.
- Espero que esteja falando a verdade, porque eu sinceramente não acredito em você. – Então se afasta, mas antes de pegar seu chapéu fala novamente. – E nem ela acredita em você. – Meus olhos o encaram, eu sei que não, Francisca é esperta demais. – Vamos, vou te mostrar onde vai dormir.
Assinto, então saímos da casinha, que acredito ser o escritório da fazenda. Vou até o carro, pego minha mochila e caminhamos até um pouco mais atrás, lá tem outras casinhas, menores, mas parecem quartos. Caio tira do bolso uma chave, então abre o lugar. É de fato um quarto, literalmente. Uma cama, uma cômoda e uma porta que acredito ser um banheiro.
- Essa chave é sua, todos os empregados ficam aqui. Eu e minha esposa moramos mais atrás. O Pedro, conheceu, é o porteiro também mora com a esposa, é a Raissa, ela é a cozinheira, junto com a filha, a Carla. Cuidado com ela.
- Como assim?
- Você vai entender depois. As refeições são feitas na cozinha da casa, você escolhe, doze ou treze para o almoço, só diga para Raissa, assim ela acrescenta o prato no horário escolhido, mas o café da manhã é sempre as sete, porém sempre terá café puro na garrafa perto do estábulo, às vezes alguns bolinhos também, fique a vontade e o jantar às dezenove. É isso. Depois leve seus documentos para mim, vamos assinar sua carteira. Amanhã cedo esteja pronta. Todos acordam às cinco e meia.
- Sim, estarei pronta.
- Vamos ver até onde essa sua disposição vai.
Então ele sai. Enfim posso suspirar aliviada, não tão aliviada, pois agora me sinto o tempo todo observada. Não sei o que Francisca disse para Caio quando ele foi até ela, mas algo me diz que serei vigiada de perto. Hoje posso dizer que estava certa, mas não da forma que eu pensei, porque aquela idosa esperta demais, mostrou estar sempre um passo à minha frente, mas não vem ao caso agora.
Depois de arrumar minhas coisas na cômoda, junto da foto de Amanda, relaxo. Olho para o relógio em meu pulso, quatro e meia, acho que não custa nada dar uma olhada no local. Então saio, caminho para perto do cercado onde alguns cavalos caminham, comem, correm, rincham, são animais maravilhosos.
- Lindos não é? – Assusto-me com a voz ao meu lado, então viro e encaro a mulher loira, seus olhos tão verdes quanto os mais lindos que já vi antes. – Desculpa se te assustei, sou Sara, sou amiga da família.
- Tudo bem. Sou Michele.
- Prazer. – Aperta minha mão. – Você é nova aqui?
- Sim, na verdade fui contratada hoje, começo amanhã.
- Entendi.
Silêncio se faz presente, continuo encarando os lindos animais na minha frente, sem dar atenção para a mulher, ela suspira, então se afasta do cercado, me fazendo olhá-la.
- Tenho que ir. Bea está me chamando.
- Bea? – Meu coração dispara, sei muito bem quem é.
- Sim. – O olhar da mulher se torna triste. – Vim ficar o fim de semana com ela, mas é uma perda de tempo, ela nunca sai, não é mais a mesma garota de sempre.
- O que aconteceu?
- Ela... - Mas antes que termine de falar, Caio se aproxima, seu olhar duro está em mim.
- Sara, a senhorita Beatrice está te chamando.
- Eu não disse? Até qualquer hora, Michele.
- Até.
Parece que todos naquele lugar evitam falar de Beatrice, é estranho e ao mesmo tempo ridículo. O que uma garota como ela poderia reclamar? Ela é bonita, rica, tem esse lugar para explorar. Poderia estar aproveitando esses cavalos, esse ar puro, a sensação de liberdade que um lugar como esse dá.
A mulher se afasta, então Caio se aproxima. Seu olhar continua intenso, ameaçador, acho que nunca vou esquecer que ele carrega aquela coisa na cintura.
- É sua última chance, garota. O que de fato procura aqui?
Minha última chance, nisso ele tem razão. Essa é a última chance que tenho de ter um motivo para viver, conhecer aquela garota, fazê-la sofrer, vê-la chorar por ter me feito perder a mulher que amo, essa é minha missão. Cada vez mais eu tenho certeza disso, ela está aqui, é aqui que tenho que ficar.
- Eu já disse, Caio, quero trabalhar. - Ele suspira, nunca acreditou em mim, acho que nunca vai acreditar.
- Uma pena.
Então se afasta. Vejo-o caminhar para dentro da casa grande, então a olho, não tão evidente, não tão exposta, as cortinas impedem que eu consiga ver seus olhos, seu corpo, que parece estar sentado, mas algo dentro de mim me diz que é ela.
Beatrice... A mulher que dirigia o carro que tirou a vida da minha Amanda. Sei que ela me olha de volta. De alguma forma indescritível tenho certeza que nos encaramos. Como se soubesse exatamente porque estava ali. Meu coração está acelerado, meu corpo trêmulo. Aquele ainda não foi nosso encontro, mas agora estou com medo. Tenho medo de como meu corpo vai responder, porque nesse momento minha mente só pensa em ir até lá em cima e confrontá-la. Porém ainda não tenho certeza se é isso mesmo que devo fazer.