POV da Nyra
Eu não fui para casa depois que Beverly terminou comigo.
Eu não consegui.
Casa significava os olhos da minha mãe, afiados o bastante para cortar qualquer mentira. Casa significava perguntas que eu não sabia responder. Casa significava aquele canto quieto da alcateia onde a dor ecoava mais alto porque nada mais vivia ali.
Então, em vez disso, manquei para a floresta.
A noite chegou rápido, o céu ficando roxo como um hematoma, o ar úmido com a chuva esperando para cair. Minhas costelas doíam a cada respiração, e meu lado queimava onde a bota dela tinha acertado de novo e de novo. Cada passo mandava a mesma mensagem pelo meu corpo: você é humana. você é fraca. você é quebrável.
Eu odiava que a alcateia pudesse me fazer sentir como um erro na minha própria pele.
Eu odiava ainda mais que eu ainda carregasse esperança como uma doença que eu não conseguia curar.
A cabana ficava mais fundo na floresta, escondida atrás de galhos grossos e vinhas trepadeiras. Não era minha. Também não era dele. Abandonada anos atrás, deixada para apodrecer, e de algum jeito se tornou nossa.
Um lugar para segredos.
Um lugar para um amor que não podia sobreviver à luz do dia.
Empurrei a porta para abrir e entrei. O ar estava frio e parado, mas ainda guardava traços dele, fumaça de pinho, aço e algo quente que fez meu peito doer.
Afundei na beirada da cama estreita e pressionei meu anuário contra o colo.
A capa estava amassada. Uma mancha de sangue seco marcava um canto, onde eu devo tê-lo agarrado depois que Beverly me chutou no chão.
Formatura.
Todo mundo teria páginas cheias de assinaturas e piadas internas e promessas de visita.
O meu ficaria em branco.
Fiquei olhando para ele até minha visão embaçar, não por causa da dor nas costelas, mas por causa da dor mais pesada atrás dos meus olhos. Do tipo que não deixa hematoma, mas ainda assim sangra.
Um som do lado de fora me deixou tensa.
Passos.
Rápidos. Controlados. Familiares.
A porta se abriu com tanta força que bateu na parede.
Kieran estava ali, o peito subindo e descendo como se ele tivesse corrido o caminho inteiro, o cabelo úmido de névoa, os olhos mais escuros do que eu já os tinha visto.
Por um momento ele não se mexeu.
Apenas olhou para mim, como se precisasse me ver viva com os próprios olhos antes que os pulmões dele se lembrassem de como funcionar.
Então ele atravessou o cômodo em três passadas e caiu de joelhos na minha frente.
As mãos dele seguraram meu rosto em concha, os polegares roçando os cantos da minha boca com uma gentileza cuidadosa e trêmula.
— Nyra. Meu nome saiu como uma prece. Como uma ferida.
Eu me encolhi quando os dedos dele roçaram um ponto sensível perto da minha mandíbula.
Os olhos dele se estreitaram na mesma hora. — Fizeram isso com você.
— Está tudo bem — sussurrei, porque era isso que eu sempre dizia. Porque a verdade parecia grande demais para caber dentro do quarto.
A mandíbula de Kieran se contraiu. As mãos dele deslizaram até meus pulsos, como se ele precisasse me segurar para não fazer alguma coisa violenta.
— Eu ouvi — ele disse, a voz baixa, tensa. — Ouvi o que aconteceu.
Algo dentro de mim rachou. — Ouviu?
Confusão brilhou, depois culpa.
— Sim — ele disse. — Claro que ouvi.
Eu ri baixinho, e soou errado. — Não. Quero dizer... você viu e ouviu o que eles disseram também? Ou estava ocupado fingindo que não me conhecia?
A respiração dele falhou.
Ele desviou o olhar por meio segundo, e foi toda a resposta de que eu precisava.
Kieran se inclinou para a frente, encostando a testa na minha. As mãos dele deslizaram para a parte de trás do meu pescoço, me segurando como se tivesse medo de que eu desaparecesse.
— Ainda bem — ele sussurrou. — Ainda bem que você não vai mais ter que lidar com eles.
As palavras deveriam ter me confortado.
Em vez disso, torceram alguma coisa no fundo do meu estômago.
— Ainda bem — repeti. — Você está feliz.
Ele levantou a cabeça, franzindo a testa. — Não foi isso que eu, Nyra, olha para você. Você está sangrando. Está machucada. Você não se cura como nós. Eu não posso... — A voz dele falhou, e ele engoliu em seco. — Eu não posso continuar vendo eles fazerem isso com você.
Fiquei olhando para ele, o peito apertado. — Então faça isso parar.
Os olhos dele se arregalaram. — Eu estou tentando.
— Não — eu disse, mais ríspida do que pretendia. — Você tenta em particular. Você tenta aqui, onde ninguém pode ver. Mas lá fora... — inclinei a cabeça, e minhas costelas gritaram. Ignorei isso. — Lá fora você deixa que acreditem que eu não sou nada.
O rosto de Kieran endureceu, não por minha causa, por causa dele mesmo.
Ele soltou o ar devagar, depois enfiou a mão na jaqueta e tirou um pequeno pano. Limpou com cuidado o sangue perto do meu lábio.
A ternura fez minha garganta arder.
— Me promete uma coisa — ele disse.
Olhei para ele. — O quê?
— Fique longe deles — ele disse, a voz áspera. — Fique longe da academia depois de hoje. Não chegue perto de Beverly. Não chegue perto do pátio de treinamento. Não... — Os olhos dele se ergueram, intensos. — Não dê a eles uma a******a.
Minha risada saiu quebrada. — Kieran... eles não precisam de uma a******a. Eu existo. Isso basta.
Ele ficou imóvel.
Então as mãos dele voltaram para minhas bochechas, mais firmes agora, me forçando a encontrar o olhar dele.
— Você não está pensando — ele disse.
— Como eu deveria pensar? — sussurrei. — Como uma excluída? Como alguém que deveria aceitar apanhar em silêncio para não envergonhar a alcateia?
A garganta dele se moveu.
Eu vi raiva ali, raiva de verdade, mas não dirigida a eles.
Era dirigida à situação.
À verdade que ele não conseguia suportar dizer em voz alta.
Minha voz baixou. — Por que você se afastou?
Ele piscou.
— No corredor — continuei, com a boca seca. — Quando você me ajudou a levantar. Eu estendi a mão para você, e você... — Meus dedos se fecharam na minha saia. — Você se afastou como se eu fosse algo que você não queria tocar.
Dor passou pelo rosto dele. — Nyra...
— Você tem vergonha de mim? — As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las, feias, cruas. — Porque, se tem, diga. Se você não me quer, me rejeite. Você é o filho do Alfa. Você pode. Poderia ter feito isso anos atrás.
O rosto de Kieran perdeu a cor como se eu tivesse batido nele.
Ele agarrou minhas mãos e as puxou até o peito dele.
— Não — ele disse, a voz tremendo agora. — Não diga isso.
— Então me diga a verdade.
Os olhos dele vasculharam os meus como se ele estivesse se afogando.
— Eu me afastei porque as pessoas estavam olhando — ele admitiu, e a confissão bateu como uma pedra. — Porque, se eu segurasse você do jeito que eu queria, se eu tocasse você do jeito que eu toco você aqui...
— Então eles saberiam — terminei com amargura.
— Sim. — A voz dele quebrou nessa palavra. — E destruiriam você ainda mais por causa disso. Eles despedaçariam você só para me punir. Para nos punir.
Fiquei olhando para ele. Meu coração martelava contra minhas costelas, cada batida um hematoma.
— Você acha que está me protegendo — sussurrei.
— Eu estou. — O aperto dele se intensificou. — Nyra, você é tudo para mim. Tudo. Eu não posso perder você.
As palavras eram exatamente do que eu precisava.
E ainda assim machucaram.
Porque amor que precisava ser escondido não parecia amor.
Parecia ser enterrada viva.
— Kieran — sussurrei —, eu já estou me perdendo.
Ele se inclinou para a frente e beijou minha testa. Depois minha têmpora. Depois o canto da minha boca onde o sangue tinha secado. Beijos gentis que fizeram meu corpo doer de necessidade e meu coração doer de tristeza.
— Eu te amo — ele disse contra a minha pele. — Eu te amo tanto que isso me assusta.
Minha garganta se apertou. — Então por que parece que sou a única que paga por isso?