CAPÍTULO 2 – A FAZENDA DAS ORQUÍDEAS

1698 Words
Raul Carvalho era um nome temido. Não por gritar, não por ameaçar. Mas por olhar e calar. Por sentar-se à cabeceira das reuniões como quem não precisa provar nada. Por nunca sorrir. Nem em vitórias, nem em perdas. Um homem que não enterrava os mortos, apenas os transformava em cicatrizes. Viúvo. Bilionário. Dono de hotéis de luxo, terras que cruzavam a divisa de dois estados, e da Fazenda das Orquídeas, onde ninguém ousava pisar sem a sua permissão. Mas nada disso o preenchia. Raul era uma ruína bem vestida. Um fantasma elegante. Depois de Maya, tudo nele havia se partido por dentro. A separação foi silenciosa, mas brutal. Ele descobriu mensagens. Provas. Daniel, seu primo e ex-sócio que se tornou o pior inimigo, se infiltrando onde mais doía. A traição de Maya caiu como uma lâmina. E, em vez de confrontá-la com suas desconfianças, Raul a puniu com o próprio abandono. Fingiu tê-la trocado por Isabel. A loira doce, refinada, moldada para ser esposa perfeita e amiga de Maya. Mas Isabel não era amor. Era anestesia. Casaram-se. Fotografaram-se. Sorriram nas revistas. Mas na cama, o silêncio. No olhar, o vazio. E quando Raul começou a perceber que Isabel buscava algo fora do casamento, já era tarde demais. Ele encontrou os vídeos. Ela era submissa de Daniel. Daniel, por trás. Raiva, nojo e vergonha. Depois, a fuga dela. Dois meses depois, a notícia da morte. Grávida. A dor o corroeu de dentro para fora, o sofreu o mesmo castigo que causou em Maya e pior, com Maya foi apenas o orgulho ferido com bilhetes, mas com Isabel foi uma humilhação real todos ficaram sabendo das traições dela. A vida lhe cobrava caro todos os dias. Desde então, Raul vivia como quem respira por obrigação. O dinheiro não faltava. Os lucros só aumentavam. Era dono da metade daquela cidade. Era mais do que muitos homens sonhavam ser. Mas por dentro, ele era apenas escuridão. Naquela manhã, sentado diante da lareira apagada da sede da fazenda, Raul não esperava visitas. Até que Dr. Mary Resende, sua advogada pessoal há quase uma década, senhora de confiança, entrou sem bater. Como sempre fazia quando o assunto era sério demais para ser anunciado com delicadeza. — Tenho uma informação relevante sobre Daniel. Ela disse, depositando uma pasta sobre a mesa. — Ele está fazendo uma oferta antecipada no leilão fechado da Associação Privée. Dizem que ele vai pagar o que for preciso por uma jovem específica. Não sabemos o nome ainda, mas ele está obcecado. Disse que "Ela sempre foi dele que já a teve e agora ela será dele para sempre". Raul ergueu os olhos, apenas. — Ele está disposto a gastar quanto? A voz dele era grave, cortante. — O que for necessário. Já depositou um sinal de trezentos mil. Só para garantir prioridade no lance. Raul ficou em silêncio por longos segundos. Depois, levantou-se. — Prepare o meu convite. Disse, com a voz baixa, mas fatal. — Eu vou a esse leilão. Mary assentiu, cautelosa. — Raul… o senhor não frequenta esse tipo de ambiente desde… — Desde que virei um homem que não perdoa Ele cortou. — Eu só quero garantir que Daniel não tenha o que deseja. Ele não sabia. Não fazia ideia de que o número 17, a jovem disputada, era o nome que ele jamais conseguiu apagar da memória. Maya. E que ela, como as orquídeas que tanto cuidava, havia renascido da lama. Pronta para florescer ou para ferir. ... Mary Resende voltou no dia seguinte, pontualmente às sete da manhã, como ele havia solicitado. Desta vez, não trazia apenas uma pasta de couro. Carregava uma caixa lacrada, preta, com o símbolo discreto da associação no canto inferior direito: Privée, um clube tão exclusivo quanto silencioso. — Está aqui. Disse, entregando a caixa a Raul. — Seu nome consta entre os convidados. Categoria Ouro. Você pode ir com identidade preservada ou revelar quem é. A escolha é sua. Raul não respondeu de imediato. Abriu a caixa. Lá dentro, um convite dourado e um envelope selado com instruções. Tudo em papel de alto padrão, escrito em letras caligráficas. Local: confidencial, revelado apenas na noite anterior. Código de acesso: impresso em braile e tinta, como um ritual. Dress code: traje formal escuro. Máscaras obrigatórias. — Leilão silencioso, como os anteriores. Mary explicou, sentando-se. — As mulheres são preparadas antes da apresentação. Nenhuma tem acesso a quem estará na plateia. A compra é feita por meio de lances digitais em tempo real. O maior lance leva. Após o pagamento, o contrato é assinado imediatamente. O valor mínimo do lote número 17 é de trezentos mil reais. Raul arqueou uma sobrancelha. — Número 17? Mary assentiu, sem saber do peso que aquele número carregava. — É a jovem por quem Daniel está disposto a pagar qualquer preço. Aparentemente, ela recusou algumas “ofertas particulares”. Então ele decidiu comprar. Literalmente. O silêncio tomou conta do ambiente. Raul pegou o cartão de acesso e o virou entre os dedos. O olhar dele era o de um homem que não voltava atrás. — O contrato… Ele perguntou, ainda observando o cartão; é o mesmo dos antigos? — Sim. Doze meses. A jovem fica à disposição do comprador enquanto durar o acordo, com cláusulas rígidas de sigilo e convivência. Se ele desistir antes, ela é liberada. E recebe integralmente a parte que lhe cabe. Não há espaço para escândalos, imprensa ou exposição. Tudo legal. E tudo frio. Raul deixou o cartão sobre a mesa. — Frio. Ele repetiu. — Exatamente como tem que ser. Mary hesitou. — Quer saber quem é a jovem? — Não Respondeu ele, com a firmeza de quem confia no próprio instinto. — Eu saberei quando olhar nos olhos dela. E nesse momento, Mary notou uma coisa: Raul estava vivo de novo. Mas não pelo motivo certo. A manhã passou sem alarde, mas Raul sentia a agitação correr sob a pele. Não demonstrava. Nunca demonstrava. Mas ela estava ali: como um zumbido constante e como o som abafado de um trovão se aproximando. Na biblioteca da sede da fazenda, ele organizava os contratos do mês, respondia e-mails da rede de hotéis, ignorava chamadas insistentes de investidores. O corpo seguia a rotina, mas a mente... estava presa no número 17. Mary dissera que não sabia quem era. E ele acreditava. Mas Raul sentia, no fundo, que aquele leilão não era apenas sobre vingança. Era sobre algo que ele ainda não conseguia nomear. Um incômodo no centro do peito. Uma ferida que nunca cicatrizou. No fim da tarde, ele subiu lentamente para o quarto. Abriu o armário e escolheu o terno mais escuro que tinha,preto profundo, como ele. A gravata de seda vinho descansava sobre a camisa branca engomada. E a máscara... uma peça feita sob medida em couro legítimo, moldada para esconder metade do rosto, revelando apenas os olhos. Olhos que já amaram demais. E que agora aprenderam a não confiar. Ele vestiu-se em silêncio, como se cada botão fechado fosse uma camada a mais de proteção contra o que viria. No espelho, o reflexo de um homem impecável. Mas quem olhasse de perto veria: aquele não era um príncipe mascarado. Era um predador ferido. A caçada começaria às 21h. E até lá, o silêncio da Fazenda das Orquídeas parecia mais denso que nunca. Até as plantas pareciam segurar a respiração. Raul passou pela estufa de orquídeas, como fazia todas as noites. Mas dessa vez, parou diante de uma flor específica. Branca, bordas roxas. Delicada, e ainda assim resistente. Ele sussurrou, quase sem perceber: — Maya. Um sussurro, a chamando de volta. Um nome que sangrava na memória. E que voltaria a florescer naquela mesma noite. Ele atravessou o corredor de vidro que ligava a casa à estufa com passos lentos, quase arrastados, como se estivesse indo ao encontro de um fantasma que ele mesmo criara. A porta da estufa rangeu ao ser aberta. O cheiro de terra úmida, adubo fresco e vida pulsante o envolveu. Era um ritual, sempre fora. Mas naquela noite, algo estava diferente. O ar parecia mais denso. As folhas pareciam sussurrar. E quando Raul chegou ao último canteiro, parou. Imóvel. Ali, entre dezenas de vasos de espécies raras, uma flor florescia fora de época. A orquídea branca com bordas arroxeadas. Maya. Ele mesmo havia nomeado aquela variedade. Uma espécie híbrida que ele cultivou com paciência, quase obsessão, nos anos em que amava Maya com tudo o que tinha. Criou o ambiente perfeito, estudou cada etapa da germinação, cruzou linhagens como se quisesse eternizar nela tudo o que sentia. E quando finalmente conseguiu fazê-la florescer, prometeu que daria aquele jardim inteiro de presente à mulher por quem jurava viver e morrer. Mas Maya partiu. Ou melhor, ele a afastou, por medo do amor que sentia por ela. O amor que sentia foi dilacerado pelo que acreditava ser uma traição. E quando ela se foi, a orquídea também parou de florescer. Nenhuma outra brotou. Por mais que os jardineiros tentassem, por mais que a ciência dissesse que ela deveria vingar. Durante anos… nada. Até agora. Raul ajoelhou-se lentamente diante do vaso, os olhos fixos na flor viva, perfeita, frágil e altiva. Sua mão tocou de leve a pétala macia. Uma memória veio como um sopro: o toque da pele de Maya sob seus dedos, o arrepio no pescoço, o gosto do riso dela no escuro. Rara. Insubstituível. Insuportavelmente desejada. — Você floresceu... Ele murmurou, quase com reverência. — Como se soubesse que esta noite ela voltaria. A orquídea era como ela. Linda demais para o mundo. Perigosa demais para o coração. E ainda assim, ali estava ele, tocando o que não devia, desejando o que jurou esquecer. Raul se levantou, secando a mão discretamente na calça, como se quisesse apagar o que sentiu. Mas não conseguia. O coração batia rápido demais. O sangue estava quente demais. O nome de Maya ainda tinha poder sobre ele. E bastaria um olhar para fazê-lo queimar. Ele saiu da estufa sem olhar para trás. O leilão começaria em poucas horas. E pela primeira vez em muito tempo… Raul estava prestes a cometer o mesmo erro que quase o destruiu: Desejar Maya.
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