CAPÍTULO 4 – UM LEILÃO, UM DESTINO

1545 Words
O ambiente era de luxo extremo. Como um santuário para homens poderosos e vaidades obscuras. As jovens selecionadas para o leilão estavam sendo preparadas com esmero: banhos com óleos aromáticos, sessões em spas exclusivos, massagens, unhas impecáveis e cabelos moldados com perfeição. Era uma noite de fantasias, de cifras elevadas, de contratos blindados por silêncio e desejo. Todas vestiam roupas luxuosas, vestidos assinados por estilistas, joias que brilhavam como promessa. Os rostos, cobertos por véus finos, parte do mistério que tanto atiçava os investidores. Cada uma delas representava um número. Um valor. Uma aposta. Maya, no entanto, estava diferente. Vestia um modelo simples, liso, sem brilho, sem assinatura. Não usava joias. Nenhum colar em seu colo. Nenhuma pedra em seus dedos. Nada além da própria presença. Mas bastava um olhar para que os sussurros começassem. Sua pele n***a reluzia como cetim sob as luzes. O corpo esculpido, os ombros erguidos, a postura de quem não implora. Um misto de desafio e mistério fazia com que todos parassem de conversar quando ela subia ao palco. Número 17. Maya não precisava de ouro para parecer valiosa. Carregava no andar firme a elegância de quem já conheceu a dor e sobreviveu. No olhar intenso, a força de quem sangrou sem deixar vestígios. Entre vestidos brilhosos e corpos perfumados, ela era a única que não precisava de adornos. Era crua. Selvagem. Real. A coordenadora do evento observava tudo de perto, mas ao chegar em Maya, hesitou. Por um instante, pareceu que a mulher à frente dela não pertencia àquele lugar. Era como se algo ali estivesse fora da ordem. Ou... talvez fosse exatamente isso que tornava Maya tão cobiçada sem que ninguém ainda soubesse. Atrás das cortinas, os organizadores conferiam os nomes dos compradores VIPs. Tudo era sigiloso, desde os lances até os contratos. O que estava em jogo naquela noite ia além do dinheiro: era ego, poder e domínio. E Maya, sem saber, era a peça central do jogo. Número 17. Uma orquídea solitária em meio a um jardim envenenado. Mas quando ela entrou na passarela, com o véu cobrindo o rosto e a postura reta, o salão inteiro pareceu prender o fôlego. Mesmo sem ver os olhos, mesmo sem ouvir a voz, era impossível ignorar a presença dela. E naquele momento, do outro lado do salão, Raul Carvalho apertou o copo de cristal em sua mão. Sem ainda saber por quê... Seu corpo reagiu antes da mente. E o passado começava a cobrar seu preço. Raul não queria estar ali. Ou, ao menos, era nisso que insistia acreditar. Dizia a si mesmo que era apenas curiosidade. Ou vingança. Que fora ao leilão apenas para frustrar os planos de Daniel. Mas, no fundo, a verdade latejava como um tambor silencioso: ele estava ali por algo que não sabia nomear. Ou, talvez, por alguém que jurava ter esquecido. Vestia o terno mais escuro do armário. Gravata cinza como as nuvens de sua alma. O olhar impassível de quem não se dobra. Entrara no salão como um rei entediado, com o passo firme de quem nunca perde. Mas quando a número 17 subiu ao palco, o tempo pareceu quebrar dentro dele. Maya. A mulher por quem ele já chorou em silêncio. A mesma que julgava traidora. A mesma que ainda aparecia nos seus pesadelos. E nos seus desejos mais indecentes. Ela estava ali. E mesmo com o rosto parcialmente coberto, o corpo dele reconheceu antes dos olhos. As curvas. A pele. O cheiro distante que lhe subia ao peito como uma lembrança viva. Os ombros nus, a postura desafiadora, o jeito que caminhava como se o mundo devesse se curvar… Ela não implorava. Nunca implorou. Maya era o furacão que já tinha derrubado tudo dentro dele uma vez. Ele engoliu seco. Apertou o copo em mãos. Raul tentou desviar o olhar. Ajustou o paletó. Limpou a garganta como se pudesse limpar também a memória. Mas nada o preparava para o que vinha em seguida: — Duzentos mil. — A voz de Daniel cortou o silêncio. Raul o encarou. O sorriso de canto nos lábios do rival era provocação pura. Ele sabia o que estava fazendo. Sabia exatamente quem era a número 17. E estava disposto a pagar caro por ela. Daniel olhou para Maya e mordeu o lábio inferior, como um predador analisando a presa. Raul sentiu o estômago virar. Mas seu rosto? Permaneceu de pedra. O leiloeiro sorriu, animado com o começo agressivo da disputa. — Temos duzentos mil. Alguém oferece mais? Raul ergueu lentamente dois dedos. — Quinhentos mil. Daniel arqueou as sobrancelhas, surpreso. O salão começou a murmurar. Os outros homens se entreolhavam. A tensão estava lançada. E Maya, lá em cima, imóvel sob o véu… sentia. Sentia o campo de guerra silencioso se formar. Sentia que aquele combate… tinha nome. E ela era o prêmio. O salão respirava tensão. Como se cada cifra lançada no ar cortasse não apenas o silêncio, mas a história de duas almas feridas. Os olhos de Raul estavam fixos no palco, mas não era Maya que ele encarava. Era o passado. Era tudo o que enterrara sem direito a luto. Era a mulher que ele amou e que agora estava ali, envolta num véu e num número. — Seiscentos mil. Raul disse, com voz firme. Baixa, seca. Como uma sentença. Daniel riu. Um riso curto, debochado. Inclinou o corpo para frente, os olhos passeando lentamente sobre Maya, como se já a possuísse em pensamento. — Setecentos mil. Disparou, saboreando a própria audácia. Raul não piscou. — Oitocentos mil. A plateia murmurou. Copos foram pousados com mais cautela. Os homens, até então entediados, agora assistiam como se presenciassem um duelo pessoal. — Novecentos mil. Daniel apertou o copo de uísque com força, os dentes semicerrados atrás do sorriso forçado. Seu olhar tinha veneno. Mas o charme… ainda estava ali, falso como sempre. O leiloeiro começava a suar sob a gola engomada. Havia recebido ordens veladas para favorecer Daniel, cliente de confiança, influente entre os investidores da noite. Mas o nome Raul Carvalho agora ecoava com peso. Um peso que ninguém ousava contrariar. Silêncio. Então Raul ergueu dois dedos. O gesto foi lento, contido. Mas a voz… — Um milhão. Simples assim. Como quem já venceu antes de começar. A sala parou. Nenhum garçom se movia. Nenhuma taça tilintava. Todos os olhos estavam fixos nele: o homem de rosto inexpressivo, cujos olhos ardiam sem piscar. Um milhão. Por uma mulher coberta por um véu. Por um número. Mas ele sabia. Daniel sabia. Era por Maya. Daniel cerrou o maxilar, o pescoço latejando sob o colarinho justo. Os olhos dele encontraram os de Raul e o que houve ali não foi apenas raiva. Foi humilhação silenciosa. Daniel não podia aumentar. Não ali. Não diante da elite, dos contratos futuros, dos olhares atentos. Reagir seria perder mais do que uma mulher. Seria perder o próprio jogo. Então ele se calou. O leiloeiro hesitou, limpando discretamente a testa com um lenço. — Vendida! Anunciou, a voz mais alta do que pretendia. — A moça de número 17 é de Raul Carvalho. As palmas foram discretas. Um ou outro sorriso contido. Ninguém ousava comentar o que era evidente: aquele leilão se transformou num campo de batalha. E Raul havia vencido. A moça de vestido simples foi retirada do palco por duas assistentes. Silenciosa. Altiva. Irretocável. Maya. Levavam-na agora até a sala reservada. Onde o verdadeiro confronto estava prestes a começar. Raul não se moveu de imediato. Sentado em sua cadeira de couro escuro, manteve a coluna reta, os olhos fixos no palco vazio, como se ainda enxergasse Maya sob o véu, como se quisesse congelar aquela imagem dentro dele. Sem pressa, retirou do bolso interno do paletó um lenço branco de linho e, com um gesto discreto, secou a palma da mão. Não por nervosismo. Mas porque, mesmo vencendo, ele sabia: aquela mulher não era uma conquista. Era um retorno. Uma cobrança do destino. Ao lado, Daniel explodiu em silêncio. Esmurrou a mesa baixa de mármore com força suficiente para fazer a bebida derramar. O som abafado se perdeu no burburinho da sala. Mas os olhos dele... esses queimavam. Dois investidores j*******s o observavam com interesse e Daniel, mestre em encenações, forçou um sorriso diplomático. Com um aceno contido, limpou o uísque respingado no terno e murmurou algo em inglês formal. Mas por dentro… ele ardia. Maya. A mulher que ele perseguiu por anos. A única que resistiu mesmo subjugada. Agora pertencia a Raul. Aquele nome voltava como uma maldição: Raul Carvalho. Bilionário. Imponente. E agora… vencedor. O leiloeiro recolheu os papéis com mãos trêmulas, evitando encarar Daniel. Todos sabiam o que havia acontecido, mesmo sem nomes. Todos sabiam que aquela disputa era pessoal. Mas era Maya quem estava no centro da mesa. Maya quem agora aguardava atrás da porta espessa do escritório privativo. Maya quem, mesmo sem ver, sentia a tempestade prestes a cair. Raul se levantou. Ajeitou o paletó com um gesto preciso. E caminhou em direção à porta reservada, onde a número 17; a mulher que um dia ele expulsou do coração e nunca mais conseguiu esquecer, o esperava. Não sorriu. Não comemorou. Porque aquela não era uma vitória que se exibia. Era uma vitória silenciosa. Daquelas que sangram por dentro… E queimam devagar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD