Capítulo 8 – A Noite na Fazenda

1597 Words
A noite havia caído sobre a Fazenda das Orquídeas com um silêncio pesado, quase reverente. A brisa morna cortava os corredores como sussurros antigos, e cada estalo do assoalho parecia carregar memórias que nunca foram enterradas de verdade. Maya estava de pé na varanda, com os braços cruzados sobre o peito e os olhos voltados para o horizonte escuro. A lua refletia em sua pele como um toque íntimo do passado, e o cheiro das flores, aquele mesmo cheiro, parecia zombar do seu autocontrole. Ela não sabia por que estava ali. Ou sabia, mas preferia fingir que não. Seu corpo ainda carregava o calor do olhar de Raul durante o café. Aquela tensão contida, aquele jogo de poder, a raiva misturada com desejo. Era tudo perigoso. Era tudo exatamente como antes. Mas agora era diferente. Agora ela era uma mulher que conhecia a dor. E a usava como escudo. Ela fechou os olhos por um instante, permitindo que o vento bagunçasse seus cabelos e seus pensamentos. A porta principal se abriu atrás dela. Um ruído discreto. Passos firmes. Ela não virou. Sabia quem era. Raul a observava de longe, parado no limite da luz. Os olhos fixos na silhueta dela, como se cada curva, cada linha daquele corpo o lembrasse daquilo que ele perdeu e agora, paradoxalmente, comprou. Ele queria entrar naquela varanda. Queria tocá-la, desafiá-la, prendê-la entre seus braços e arrancar as palavras que ela nunca disse. Mas não se moveu. Ela, por sua vez, apenas sussurrou: — Essa fazenda ainda sabe meu nome. Ele engoliu em seco. E então, se afastou. Não por fraqueza. Mas porque, naquela noite… ele não estava pronto. E Maya sabia disso. Maya fechou a porta com um leve estalo. O quarto cheirava a madeira antiga, lavanda e lembrança. Era o mesmo quarto. O mesmo tapete felpudo que ela escolhera. As mesmas cortinas esvoaçantes que ela insistira em manter abertas para a luz da manhã. Ela não cansava de admirar.Nada havia mudado. Exceto ela. Ela se sentou na beira da cama. Os dedos deslizaram pelo lençol como se buscassem um rastro invisível. Seus olhos percorreram o ambiente lentamente, tocando os detalhes que antes eram seus. Que ainda pareciam ser. Mesmo após tanto tempo. E então, veio o fantasma. A lembrança como uma visão do passado. Raul, jovem, intenso, tirando sua blusa com mãos trêmulas e olhos famintos. Ela lembrava do som da respiração dele contra seu pescoço, do cheiro de terra molhada entrando pela janela, da forma como ele disse “você é minha, Maya. Minha.” E ela foi. Inteira. Crente. Desarmada. Naquela primeira vez, não houve pressa. Nem vergonha. Só um amor bruto e puro, que se despia junto com as roupas. Ele a beijou como quem pedia desculpas por todas as dores que ela ainda não conhecia. E ela gemeu seu nome como uma prece. Deitada agora, Maya apertou os olhos com força. Queria arrancar aquilo de dentro. Queria odiá-lo com mais convicção. Mas o corpo... ah, o corpo lembrava. E traía. A poucos cômodos dali, Raul encostou-se à parede do corredor, os olhos fechados, o punho cerrado. Também lembrava. Do gosto da pele dela. Do arrepio na espinha ao vê-la se entregar quando fizeram amor primeira vez. Do tremor nos dedos ao descobrir que amar podia ser também uma forma de morrer. Ele bateu de leve a cabeça na madeira fria atrás de si, tentando apagar a cena da memória. Mas era inútil. Maya ainda vivia dentro dele. E agora, estava de novo ali. Apenas uma porta entre eles. E um passado que queimava. — A casa está silenciosa demais, Sr. Carvalho. Maya disse, parada no batente da sala, de braços cruzados, usando apenas um robe leve que desenhava o corpo com crueldade. Raul nem precisou levantar os olhos do copo de vinho. Ele sentia o perfume dela preencher o ar, como se aquela mulher fosse feita para assombrá-lo com beleza e deboche. — E ainda assim, você faz questão de quebrar o silêncio. Respondeu, com a voz baixa, cortante. Maya caminhou devagar, os pés descalços sobre o piso frio. Aproximou-se até que o ar entre eles ficasse espesso, tenso. Seu olhar era um campo de batalha. — Está me evitando, Raul? — Estou te poupando. Ele disse, por fim, olhando-a de frente com uma frieza ensaiada, mas com olhos em chamas. — De mim? Ela riu, inclinando-se perigosamente perto. — Ou de você mesmo? Raul ergueu a taça, bebeu devagar, depois deixou o cristal sobre a mesa de madeira. Lentamente, se levantou. A diferença de altura fez Maya engolir em seco, mas ela não recuou. — Você me quer tanto que implora com o olhar Ele disse num tom grave, aproximando o rosto do dela. — Você tem uma imaginação fértil. Ela sussurrou, firme, mas o peito arfava. — Ou será que está confundindo desejo com ilusão? Raul tocou de leve o queixo dela, sem ternura. — Não preciso imaginar, Maya. Eu lembro. Seu corpo implorava por mim muito antes de você saber o que era orgulho. Ela o empurrou com as duas mãos, com raiva, mas também com algo que queimava em silêncio. — E você era o covarde que trocou isso por uma mentira! — Você me traiu! Com o Daniel. Ele devolveu, os olhos faiscando. — Com o meu inimigo. E ainda teve a audácia de voltar pro lugar onde enterrou tudo que eu fui! Os dois ficaram frente a frente, o ar rarefeito entre palavras ditas com veneno e verdades que ainda sangravam. Maya recuou, apenas um passo. Mas não era medo, era controle. — Pode comprar meu corpo, Raul. Mas o que você destruiu… esse, nem o seu dinheiro conserta. Ela se virou e saiu da sala, os quadris firmes, o orgulho intacto. Raul ficou ali, sozinho. O corpo em chamas. O coração, em ruínas. O relógio da parede marcava quase duas da manhã. A Fazenda das Orquídeas dormia… menos dois corpos. Maya deitou-se na cama que um dia sonhara dividir com ele. O lençol era macio, o travesseiro perfumado, mas nada disso acalmava o que fervia sob sua pele. O corpo gritava, as lembranças mordiam. O cheiro de Raul ainda estava ali. Não era só perfume. Era presença. Amadeirado, quente, imperdoável. Impregnado nos móveis. No colchão. Nela. Maya fechou os olhos, e bastava isso para senti-lo. Era como se sua pele carregasse a memória da pele dele. O corpo lembrava. A carne respondia. E o orgulho… ah, o orgulho gemia calado, derrotado. “Você me quer tanto que implora” Ele havia sussurrado. E mesmo quando ela dizia que não, o ventre tremia como se dissesse sim. Era isso que a destruía. Ele não precisava tocar nela. Era o timbre da voz rouca. O jeito que dizia seu nome. O olhar verde que a despia com um piscar. O silêncio cheio de promessas sujas. Ele a chamava… com o próprio desejo. Ela sentia calor só de lembrar do toque ausente. Era como se a saudade do corpo dele se insinuasse entre suas pernas, sem permissão. Maya o odiava por isso. Por fazer seu corpo arder quando sua alma sangrava. Por fazer com que ela se traísse em cada suspiro. Por ser o único homem que sabia onde habitava sua sede. E por ser, também, aquele que a deixou com sede de vingança. Mas, naquele quarto ainda impregnado de Raul, o que queimava não era o ódio. Era a vontade. Quente, silenciosa, pulsando feito segredo. Porque ele era veneno. Mas era também… o vício que ela não queria curar. No quarto ao lado, Raul andava de um lado para o outro, a camisa aberta, o copo de uísque intocado. Maya era uma maldição que voltara com força total. A boca dela, o cheiro, a voz, tudo nele clamava por ela. — Maldita seja… A boca dela. O gosto que ainda queimava na dele. O cheiro que invadia seus pulmões mesmo a metros de distância. A voz... aquela voz sexy, firme, quase desafiadora, que fazia o seu sangue ferver como se cada palavra dela fosse um comando silencioso para perder o controle. — Maldita seja... Ele murmurou, os dedos enterrando-se nos cabelos, enquanto o peito arfava como se estivesse em guerra com o próprio corpo. Sentou-se à beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça pendida. Mas a imagem dela: nua, com os cabelos soltos como uma tempestade sobre os ombros, os olhos ardendo entre fúria e entrega, era uma tatuagem viva na memória. Uma que ele não queria apagar. Ele a queria. Mais do que queria respirar. Mais do que queria respostas. Queria tocá-la até fazê-la esquecer o próprio nome. Queria tomar sua boca com a raiva de quem foi ferido e o amor de quem nunca esqueceu. Queria arrancar dela cada gemido, cada negação, cada lágrima escondida que ela jurava não mais derramar. Queria vê-la despida de orgulho e coberta apenas pela verdade, a verdade que ambos evitavam. Mas o que mais o enlouquecia era não saber se ainda a odiava... Ou se a amava justamente por tudo o que ela se tornou. Mais forte. Mais selvagem. Mais dela. Do outro lado da casa, Maya virava de lado. As pernas se apertavam num reflexo que só ele sabia decifrar. Ela respirava fundo, tentando domar o próprio corpo que teimava em lembrar. Porque o desejo, aquele desejo, era uma maldição antiga. E Raul sempre foi o veneno preferido da sua pele. Eles estavam separados por paredes. Mas acorrentados pelo mesmo delírio. Um desejo que não cedia à razão. Uma história que ainda queimava — em carne, osso… e silêncio.
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