Capítulo 6 – Comprada Pelo Homem Que a Rejeitou

1527 Words
Maya olhava pela janela escurecida, os braços cruzados, como se quisesse manter o corpo fechado… blindado como o carro. Mas por dentro, o coração dela era um campo minado de memórias. Cada curva da estrada parecia acender lembranças que ela jurou ter enterrado. Raul estava ao lado. Imóvel. Máscara de mármore no rosto. O mesmo homem que a rejeitou… que a condenou sem ouvir… agora era o dono do seu contrato. Não havia toque. Ainda não. Mas o silêncio entre eles dizia mais do que qualquer carícia. — Se está arrependida, pode sair agora. Ele quebrou o silêncio, olhando direto para frente. — E perder meu pagamento? Ela respondeu, sem virar o rosto. — Seria burrice. Raul soltou uma risada seca, sem humor. — Você nunca foi burra, Maya. Só teimosa. — E você nunca foi justo. Só c***l. Ele não rebateu. Não com palavras. Mas o maxilar travado denunciava a luta interna. A estrada terminou num portão de ferro imponente. A mesma entrada da fazenda onde ela já foi feliz. Onde já acreditou no amor. Agora, voltava como mercadoria. A segurança abriu o portão assim que reconheceu o carro. Maya inspirou fundo. O nome da propriedade em letras ornamentadas brilhava como deboche: Fazenda das Orquídeas. Ela apertou os dedos no próprio joelho. Se era para viver o pagando por suas escolhas com consciência, que pelo menos entrasse com a cabeça erguida. — Bem-vinda de volta, Maya. Raul disse com a voz baixa, carregada de algo que ela se recusava a nomear. Ela virou o rosto devagar, encarando-o. — Eu não voltei. Fui vendida. E o olhar que ela lançou… Era o de uma mulher que fora queimada e aprendeu a dançar com as próprias cinzas. O carro parou em frente à entrada lateral da casa principal. Não havia empregados à vista. Nenhuma recepção formal. Tudo milimetricamente calculado para manter o sigilo e o controle. Raul desceu primeiro, abriu a porta com a mesma frieza que sempre usava para esconder o furacão dentro de si. Maya hesitou antes de sair. O vento da noite trouxe um cheiro familiar: flor de laranjeira misturado ao perfume da terra molhada. O mesmo cheiro que envolvia seus lençóis quando ainda acreditava que amar Raul era seguro. Caminhar ao lado dele novamente, mesmo sem tocá-lo, foi um teste de resistência. Cada passo era como atravessar um campo de memórias. Ao entrarem na casa, ela esperava ser levada a um quarto novo, anônimo, frio. Mas não. Ele abriu uma porta. A porta. E o ar lhe faltou. O quarto estava igual. O mesmo papel de parede bege claro com desenhos suaves de orquídeas lilases. O tapete creme. A penteadeira de madeira clara. As cortinas de linho branco esvoaçando com a brisa. E a cama… aquela maldita cama com cabeceira alta em ferro forjado… ainda estava ali. Intacta. Imponente. O mesmo jogo de lençóis que ela ajudou a escolher. Os mesmos travesseiros dispostos do jeito que ela gostava. O abajur do lado esquerdo aceso. Sempre foi o lado dela. Ela girou lentamente sobre os calcanhares, em choque. Os olhos brilharam de fúria e incredulidade. — Você manteve esse quarto? Por quê? Sussurrou. Raul encostou a porta com um gesto lento, como se selasse um pacto antigo. — Porque eu não consegui destruir. Nem mudar. Nem entrar. — Você nunca mais entrou aqui? A voz dela saiu trêmula, traindo sua raiva. — Desde que você saiu, esse quarto virou um mausoléu. Ele respondeu sem hesitar. — Da mulher que eu amei. Da mulher que eu perdi. Da mulher que eu… comprei de volta. Maya fechou os olhos, tentando conter o impacto. Naquele espaço tudo gritava “nós”. A colcha de linho cru. A orquídea seca que ela mesma plantou e que agora renascia na janela. Até o cheiro era o mesmo. — Isso aqui é tortura. Ela disse entre dentes. — Você não deveria ter me trazido pra cá. — Não fui eu que pedi pra voltar. Foi você quem assinou o contrato. Raul deu um passo à frente. — E esse quarto é seu, Maya. Sempre foi. Ela engoliu seco. Sentia-se nua. Violada por lembranças. O lugar onde um dia sonhou acordada, nua nos braços dele, era agora sua cela dourada. E ainda assim… Parte dela queria deitar naquela cama. Pra esquecer. Pra lembrar. Pra se vingar. Ou só pra sentir. Ele parou diante da porta, o olhar em chamas contidas. — Durma bem, número 17. Disse, com um meio sorriso amargo. — A orquídea voltou a florescer. E então ele saiu, deixando para trás um quarto cheio de memórias e uma mulher que jamais seria a mesma. Maya fechou a porta devagar, como se precisasse selar o que Raul deixara ali. O silêncio do quarto era ensurdecedor. Ela ficou parada no centro, imóvel, como se o chão sob os pés não fosse confiável. Os olhos escorriam lentamente por cada canto, reconhecendo detalhes que só um coração apaixonado consegue guardar. O aroma suave do ambiente era familiar. Lavanda com um toque amadeirado. Aquele perfume que Raul sempre escolheu porque dizia que combinava com ela. Lentamente, os dedos de Maya percorreram a beirada da penteadeira. Ainda havia ali marcas de batom, um frasco de perfume vazio, e um porta-retratos virado para baixo. Ela não tocou o objeto. Não queria mais provas do passado. Já bastava a cama. Aquela cama. Ela se aproximou como quem enfrenta um santuário. Passou a mão pelo lençol. Ainda era macio. Ainda era o mesmo tecido que roçava sua pele nos domingos preguiçosos, quando ela se deitava ali apenas com a camisa dele no corpo e um sorriso no rosto. Sem perceber, os joelhos cederam. Sentou-se. Fechou os olhos. Inspirou fundo. O colchão cedeu sob seu peso como se a reconhecesse. O corpo dela reagiu. Um calor rastejou pela espinha, descendo pelas coxas. Um aperto involuntário no ventre. Ela odiava isso. Odiava o fato de que, mesmo anos depois, mesmo ferida, humilhada, acusada, o corpo dela ainda lembrava dele. Ainda doía por ele. Ela se deitou, primeiro de lado, depois virou-se de barriga para cima. As mãos deslizaram pelo próprio abdômen, como se buscassem algo que não podiam nomear. O teto acima parecia igual. Mas agora pesava. O coração disparava. Uma parte dela gritava: "Você é forte, Maya. Isso é só um lugar." Mas a outra parte sussurrava: "Foi aqui que você foi inteira. Foi aqui que ele te amou como se o mundo fosse acabar." Ela virou-se de lado novamente e mordeu o próprio lábio, com raiva de si mesma. Raul a rejeitou. A julgou. A abandonou. E, mesmo assim, aquela cama ainda a fazia tremer por dentro. Um corpo pode esquecer o toque de muitos homens… Mas não esquece quem acendeu a alma. E Maya sabia: por mais que odiasse Raul, por mais que quisesse feri-lo, uma parte dela ainda queimava, porque o amor que virou cinza… ainda era quente. O relógio da parede marcava quase meia-noite quando Maya ouviu o som. Passos. Lentos. Firmes. Masculinos. Ela se sentou na cama num salto, o coração batendo no ritmo da lembrança. Não precisou olhar pela janela nem abrir a porta. Ela sabia. Era Raul. O som dos sapatos de couro ecoando pelo corredor de madeira era o mesmo de anos atrás. O mesmo que fazia seu corpo se preparar… para amor, para guerra, para tudo o que ele era capaz de provocar. Ele parou. Do outro lado da porta. Maya prendeu a respiração. Ali, entre dois mundos, havia apenas uma fina camada de madeira separando o ontem e o agora. Ela sentia. Como se os poros se abrissem. Como se o cheiro dele atravessasse o tempo. Do lado de fora, Raul lutava contra os próprios pensamentos. Tinha a mão estendida para a maçaneta. Mas não girou. Ela estava ali. Do outro lado. Naquele quarto. Naquela cama. No espaço que ele preparou anos antes para viver um amor que nunca teve a chance de florescer. E o cheiro… Ah, o cheiro dela. Mesmo com a porta fechada, ele sentia. Era lavanda… e pele quente… e desejo. Era o perfume que só ela tinha após o banho. Era a lembrança do lençol bagunçado, do gemido preso na garganta, do olhar que dizia “sou sua” antes mesmo de qualquer palavra. Raul recuou um passo. Depois outro. A mão tremia. Não era medo de Maya. Era medo de si mesmo. Medo de entrar e perder o controle. Medo de olhar nos olhos dela e descobrir que ainda era refém. Medo de se deitar naquela cama e não sair dela nunca mais. Ele fechou os olhos com força, como se tentasse apagar tudo. Mas Maya não se apagava. Ela ardia. Mesmo sem vê-la. Mesmo depois de tudo. Com raiva de si, ele girou nos calcanhares e se afastou rápido pelo corredor, como se fugir fosse a única maneira de resistir. Do outro lado, Maya continuava sentada. O peito subindo e descendo. Os olhos cravados na porta. Ela sabia. Ele tinha vindo. E ele não entrou. Mas o calor que ficou no ar… Esse não foi embora com ele. Esse ficou. Porque Raul ainda pulsava nela. E agora… ela pulsava nele também.
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