CAPÍTULO 7 – OLHOS QUE AINDA QUEIMAM

1584 Words
O sol m*l havia rasgado o céu quando a porta se abriu com cuidado. Joana, a governanta da fazenda das Orquídeas há mais de duas décadas, entrou com passos lentos e os olhos marejados. — Maya? A voz dela era um misto de surpresa, ternura e saudade. Quando viu a jovem sentada na poltrona próxima à janela, Joana não conteve a emoção. Atravessou o quarto, abriu os braços e envolveu Maya num abraço apertado. — Que bom que você voltou, minha filha… Que bom. A voz saiu embargada. Maya sorriu. Um sorriso breve, cansado. — Nem eu sei se voltei ou se fui vendida de volta. Murmurou, num tom carregado de ironia. Joana a soltou, mas segurou seu rosto com as mãos. — Não diga isso. Você sempre foi mais do que tudo isso. O Sr. Raul está esperando você no café. E completou, como se isso dissesse muito mais do que as palavras: — Ele não dormiu essa noite. Maya assentiu, mas não comentou. Ela sabia. Sentiu. Sentiu os passos no corredor, a presença dele do outro lado da porta… E o silêncio que veio em seguida. Ele podia ter entrado. Podia ter cobrado o que comprou. Podia ter feito dela apenas um corpo a ser usado por contrato. Mas não entrou. E isso… era perigoso. Porque só quem sente… se reprime. Ela se levantou devagar, caminhou até o espelho antigo que ainda ocupava o mesmo canto. Soltou o cabelo. Passou gloss nos lábios. Vestiu o roupão curto, com o laço frouxo. Pele à mostra. Ombros à vista. Nada vulgar. Tudo calculado. Ela não imploraria. Não choraria. Não explicaria nada. Mas iria provocar até o último centímetro de sanidade dele. Porque agora, quem mandava no jogo… Era ela. Desceu as escadas com calma. Cada degrau era uma lembrança. O som dos saltos no mármore antigo ecoava pela casa como um aviso. Quando entrou na sala de café da manhã, Raul estava de pé, de costas, com uma xícara entre os dedos. A camisa branca semiaberta, os cabelos molhados, a tensão visível na nuca. Ele virou-se devagar ao som dos passos. E parou. Os olhos dele cravaram nela como se tivessem voltado no tempo. Mas Maya não desviou. — Bom dia, senhor proprietário. Dormiu bem? A voz dela era doce e venenosa ao mesmo tempo. Raul não respondeu. Apenas observou. Ela se aproximou. Puxou uma cadeira. Cruzou as pernas. O roupão escorregou um pouco no ombro. E o olhar dele queimava. Mas a mão… ainda tremia em silêncio. Porque ver Maya era uma coisa. Ter Maya de volta ali, provocando, desafiando, querendo ferir com o desejo… Era outra completamente diferente. E o jogo só estava começando. Maya levou a xícara de porcelana aos lábios com a elegância de uma dama… e o veneno de quem sabia exatamente onde ferir. — Impressionante… Disse, soprando o vapor do café. — Passaram-se anos, e até a disposição das cadeiras continua igual. Ela pousou o olhar sobre ele. — Como se o tempo aqui tivesse parado. Raul não respondeu. Apenas continuou em pé, firme, como uma estátua esculpida pela raiva e pelo desejo. O maxilar travado. Os olhos cravados nela como se tentassem decifrar seus novos segredos… e seus antigos pecados. — A única coisa que mudou... Ela continuou —... é que agora eu sou sua propriedade. Oficialmente. Assinada. Reconhecida em cartório. Ela sorriu. Mas não era um sorriso gentil. — Você veio provocada ou vestida de arrependimento? Ele finalmente falou, a voz baixa, cortante, carregada de um controle que beirava o colapso. — Eu vim vestida de escolhas. As que me restaram. Ela deu um gole no café. — Mas confesso, senhor Carvalho, que me surpreendi. Você poderia ter cobrado sua… “compra” ontem mesmo. E não cobrou. Raul caminhou lentamente até ela. Parou atrás de sua cadeira. Tão perto que ela pôde sentir o calor do corpo dele nas costas. O perfume familiar invadindo as defesas que ela fingia ter. — E você… esperava que eu cobrasse? — Esperava que você fosse quem dizia ser. Ela respondeu, sem virar o rosto. — Frio. Racional. c***l. Ele abaixou-se lentamente, a boca próxima ao ouvido dela. — Cuidado, Maya. Você me provoca como se ainda tivesse algum poder sobre mim. Ela virou o rosto, encontrando os olhos dele tão de perto que qualquer outra palavra viraria confissão. — E você me olha como se quisesse devorar cada parte do que rejeitou um dia. Um silêncio. Um segundo de tensão. Um momento que poderia explodir ou recuar. Raul se afastou. Rígido. Voltou para sua xícara de café, mas não bebeu. — Esse café está frio. Ele disse, num tom neutro. — Como certas pessoas que voltam à minha casa depois de anos. — Então me aqueça. Maya disse, se levantando. — Ou aceite que está queimando por dentro. Ela saiu da sala antes que ele pudesse responder. Mas deixou no ar o cheiro do desafio. E o gosto amargo do café… e dela. A manhã seguia fria, com nuvens baixas e uma brisa cortante que passava rente aos vitrais da estufa. Era o tipo de dia que combinava com silêncios e Raul vinha colecionando silêncios há anos. Desde o dia em que Maya partiu, ele não entrava ali. A estufa era sagrada. Ou melhor, era dela. Antes, ele mesmo cuidava de cada vaso, regava com precisão, estudava espécies exóticas, importava mudas raras. Mas quando Maya se foi; levando consigo o calor, a esperança, e tudo que era dele, Raul trancou a porta daquele jardim com mais força do que trancou o próprio coração. Deixou tudo nas mãos de Seu Geraldo e Zé Lino, eram homens simples, de mãos calejadas e almas paciente. Eram verdadeiros mestre das flores, que compreendia que algumas coisas precisavam de tempo. E silêncio. Mas naquela manhã, algo havia mudado. — Senhor Raul! Chamou Geraldo, os olhos arregalados, o senhor precisa ver isso… Raul hesitou. Não respondeu de imediato. Mas havia algo no tom de voz do jardineiro que o puxou de volta. A curiosidade, ou talvez o medo de sentir de novo, o fez atravessar a porta pesada da estufa. O cheiro era o mesmo. Umidade, terra fresca, e o perfume das orquídeas… Mas agora, havia algo a mais. No canto mais recuado, sob o vidro embaçado da parede leste, uma espécie que não florescia há anos estava completamente aberta. Pétalas largas, lilases com toques de vinho escuro nas pontas: a rara orquídea que ele mesmo batizara de Orquídea Maya. Ela nunca mais tinha germinado. Desde o fim. Desde a queda. Desde ela. E agora… ali estava, viva. Desabrochando. Impossível de ignorar. Raul se aproximou, o peito comprimido, a respiração presa. Estendeu a mão, mas não a tocou. — Maldição! Murmurou. — Essa mulher me assombra até nas flores. Geraldo apenas observava de longe. Sabia que havia histórias naquele silêncio que não era dele decifrar. Raul olhou ao redor. E naquele instante, teve certeza. Era ela. Era Maya. De alguma forma, mesmo antes de vê-la de novo naquela manhã, o jardim soube. A terra sentiu. O tempo cedeu. Porque algumas flores só florescem para uma mulher. E Maya… sempre foi a única capaz de fazê-las nascer. Raul entrou no salão da casa principal com os passos duros e o maxilar travado. Ainda sentia o cheiro das orquídeas grudado na pele ou seria o perfume dela? O mesmo que o torturava desde a noite anterior, no corredor, quando parou diante da porta e... recuou. Ela já estava lá. Sentada à cabeceira da mesa de madeira maciça, como se aquele lugar ainda a reconhecesse. O cabelo solto, a pele cintilando à luz suave da manhã, e os olhos... ah, os olhos. Maya o encarava como se nada entre eles tivesse desmoronado. Como se anos de mágoa pudessem ser vencidos com um olhar de desafio. Ele parou ao lado da cadeira, puxou-a com controle exagerado e se sentou. Silêncio. Ela serviu o próprio café. Mexeu com calma. E então, olhou para ele. — Vai me dizer quais são as regras, Sr. Carvalho? A voz era provocativa, baixa, mas firme. Raul respirou fundo. — Este acordo tem limites. Você está aqui por doze meses. Vai cumprir cada cláusula. Vai me respeitar. Vai... — Obedecer? Ela interrompeu, arqueando uma sobrancelha. — É isso que quer de mim? — É o mínimo. Ela se inclinou levemente, as mãos pousadas na borda da mesa. Os olhos cravados nos dele. — Você acha que pode me comprar, me prender, me calar... mas tem uma coisa que esqueceu, Raul. — O quê? Ela sorriu, devagar. Um sorriso que não pedia permissão. — Você me teve antes de qualquer contrato. E perdeu. Agora, sou eu quem dita as regras. Ele cerrou os punhos. Aquilo não era parte do script. Ele havia se preparado para humilha, para controlar, para vingar. Mas ela... ela tinha voltado como um furacão elegante e perigoso. E aquilo acendia o seu desejo como mais fome que antes. Maya levantou-se com calma, deu a volta na mesa e parou atrás dele. Seus dedos tocaram a nuca dele por um segundo. Um gesto ousado. Um teste. Raul fechou os olhos, o corpo inteiro em alerta. Ela se inclinou até o ouvido dele e sussurrou: — Cuidado com as regras, meu amor. Algumas só servem para serem quebradas. E saiu do salão sem olhar para trás. Raul permaneceu ali, imóvel. Ardendo. Desafiado. E mais vivo do que se sentia há anos. A guerra havia começado. E as regras… já não valiam aqui.
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