Capítulo 1

1129 Words
Isabela Narrando O aroma de feijão cozido e alho dourado era a melodia constante da minha vida. A melodia da família Andrade, de um negócio que meu pai havia construído com as próprias mãos e que agora minha mãe e eu lutávamos para manter de pé. Aos vinte e três anos, a balança entre a minha vaidade natural e a realidade do dia a dia era um jogo que eu já havia aprendido a dominar. No espelho do banheiro de casa, a maquiagem era suave e a roupa, discreta, mas no restaurante, meu foco era outro. Aqui, eu era a Isabela do trabalho. No caixa, o som da maquininha de cartão era a trilha sonora das tardes de semana. Era um movimento automático: sorrir, somar, receber e agradecer. Do outro lado do balcão, minha mãe, dona Helena, organizava o buffet com um carinho que só uma cozinheira apaixonada tem. Os pratos coloridos de salada, o arroz branquinho, a carne ensopada que era a especialidade da casa. Ela se movia com a graça de quem sabia exatamente o que estava fazendo, uma força da natureza vestida em um avental. — Filha, está faltando a torta de limão. Vê se dá uma olhada na geladeira, por favor — ela pediu, sem sequer me encarar, enquanto ajeitava uma travessa de pudim de leite. — Já vou, mãe — respondi, finalizando o pagamento de um cliente. Eu amava o nosso cantinho. O restaurante, com suas mesas de madeira simples e os quadros de paisagens bucólicas, era mais do que um emprego. Era a minha história, o meu refúgio e o meu porto seguro. Depois que meu pai se foi, foi aqui que encontramos força para continuar. E era aqui, nesse espaço familiar e acolhedor, que eu tentava esquecer dos problemas que nos esperavam lá fora. O maior deles tinha nome e sobrenome: Rafael. Meu irmão caçula. Aos dezenove anos, ele já havia se perdido. Trocou a promessa de uma vida tranquila pelo perigo das ruas. Todas as manhãs, eu acordava com um aperto no peito, me perguntando se ele voltaria para casa à noite. Meus pensamentos sobre ele não eram de pena, mas de uma tristeza profunda e de uma raiva contida. Ele sabia o que estava fazendo. Sabia o quanto estava nos machucando. A porta do restaurante se abriu e eu atendi a mais um cliente. Um senhor de idade, que vinha todas as terças-feiras para almoçar. Ele era simpático e sempre me perguntava sobre a faculdade de Contabilidade, que eu estava tentando conciliar com o trabalho. — E como vai a futura contadora da família, Isabela? — ele perguntou, com um sorriso bondoso. — Indo, seu Geraldo. Contando os dias para me formar — respondi, enquanto passava o cartão dele na máquina. A conversa me distraiu por um tempo. Mas a preocupação com Rafael era como uma nuvem escura que pairava sobre a minha cabeça, pronta para desabar a qualquer momento. Eu me imaginava, mais tarde, voltando para casa, encontrando minha mãe sentada no sofá, com o celular na mão, olhando para a tela, esperando uma mensagem, uma ligação, qualquer sinal de vida do filho. A voz da minha mãe quebrou o silêncio. — Isabela, a torta, por favor. Fui até a cozinha e peguei a torta de limão na geladeira, sentindo o aroma cítrico invadir o ambiente. Meus olhos se perderam por um instante, e vi meu reflexo na porta de vidro. Longos cabelos negros que caíam em cascata, um rosto de traços marcantes, e o corpo com curvas que eu sabia que chamavam atenção. Eu não era de ferro, sabia do meu potencial, da minha beleza, mas aqui, nesse momento, eu só queria ser a Isabela, a filha, a irmã, a aluna. A mulher que sonhava com uma vida simples, honesta e tranquila. Fechei a porta da geladeira e voltei ao salão, levando a torta para o buffet. A essa altura, o restaurante estava mais tranquilo, e a movimentação de clientes já havia diminuído. Olhei pela janela, para a rua movimentada lá fora, e meu pensamento voou para Rafael. Ele estava, provavelmente, com a turma dele, em algum lugar perigoso da cidade. Eu me lembrava da última vez que o vi. Ele estava com os olhos injetados de sangue, a camiseta amassada e um cheiro de maconha que impregnou a sala da nossa casa. A briga foi intensa. Minha mãe chorava, eu gritava com ele. Ele, por sua vez, só sabia responder com desdém e sarcasmo. — Você não entende, Isabela! Você não sabe o que é viver de verdade! — ele gritava. Eu nunca entendi. Nunca entendi o que o levava a isso, o que o levava a arriscar a própria vida por algo tão sem sentido. A tarde se arrastou. O sol da tarde batia na janela, e a poeira que se acumulava no ar se movia em pequenos círculos, como se estivesse dançando. A essa altura, já havíamos fechado o restaurante e estávamos apenas eu e minha mãe, limpando o salão. — Acho que vou fazer um café para nós, filha — minha mãe disse, com um tom cansado na voz. — Deixa que eu faço, mãe. Você já trabalhou demais hoje — eu respondi, indo para a cozinha. Nós duas estávamos exaustas, mas havia uma paz na rotina, uma tranquilidade na repetição dos nossos dias. Foi nesse momento, enquanto eu preparava o café, que meu celular tocou. Um número desconhecido. Hesitei por um segundo, mas atendi. — Alô? — falei, com um tom de voz que já sabia que não era de boa notícia. — Isabela? É a Patrícia. A namorada do Rafael. Meu coração disparou. Patrícia era uma garota doce, que também estava no meio daquele furacão que era a vida de meu irmão. Eu a admirava, por sua lealdade a ele, mesmo sabendo o perigo que ele representava. — Oi, Patrícia. O que houve? — minha voz soou mais alta do que eu esperava. — Isabela, ele está encrencado. Ele… ele foi pego com umas coisas. A respiração me faltou. O copo que eu segurava quase caiu das minhas mãos. O café na panela borbulhou e o aroma, antes tão convidativo, agora me sufocava. — O que você quer dizer com "pego com umas coisas", Patrícia? Me explica direito. — A polícia. A Polícia Rodoviária Federal. Eles o pegaram em uma blitz. Ele está preso, Isabela. Preso. O mundo, que antes era uma melodia de cheiros e sons, se tornou um silêncio absoluto. Eu não sentia pena, não sentia dor. Só uma raiva profunda e a certeza de que, a partir de agora, a minha vida e a vida da minha mãe nunca mais seriam as mesmas. O furacão, que antes era só uma ameaça, havia chegado, e a destruição já era iminente.
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