Lucas narrando
Meu mundo era uma sucessão de asfalto, uniformes e sirenes. Como PRF, a estrada não era apenas meu local de trabalho; era o meu reino, o lugar onde a lei era mais do que um texto em um livro. A viatura, com seu cheiro de estofado e a constante vibração do motor, era a minha segunda casa. Em uma cidade fronteiriça, a tensão era palpável, e a cada quilômetro que percorríamos, sabíamos que estávamos na linha de frente de um combate silencioso.
Aquele dia começou como qualquer outro. O nascer do sol tingindo de laranja e rosa o céu do interior do Paraná, o café quente na caneca térmica e a expectativa de mais um turno de 12 horas. Mas a rotina foi quebrada logo cedo. No rádio, a voz do chefe soava mais tensa do que o normal. Uma denúncia. Um carro, modelo e cor específicos, passaria por uma das rodovias que patrulhávamos, transportando uma quantidade considerável de drogas.
O plano foi traçado rapidamente. Montamos uma blitz em um ponto estratégico, com o objetivo de interceptar o veículo antes que ele chegasse à cidade. O clima era de cautela, mas a adrenalina já corria nas veias. Eu estava com o meu parceiro, o Agente Barros, um veterano com mais de 20 anos de serviço, que já havia visto de tudo.
— Fica ligado, Lucas. Esses caras não brincam em serviço — ele me alertou, enquanto ajustava o colete à prova de balas.
— Estou ligado, Barros. A gente pega esses covardes — respondi, o tom de voz seco.
Eu tinha um senso de justiça muito forte. Desde criança, eu sonhava em ser policial. Não para ter poder, mas para fazer a diferença. Eu acreditava na lei, na ordem, na importância de proteger os inocentes e de colocar os criminosos atrás das grades. Mas, por trás do uniforme, havia um homem com medos e preocupações. Minha namorada, Sofia, era uma delas. Todas as vezes que eu saía para o trabalho, eu me perguntava se voltaria. A vida de um policial é uma roleta-russa, e o tempo todo eu rezava para que a sorte estivesse do meu lado.
As horas se arrastaram. O sol subiu, o asfalto esquentou, mas o carro não apareceu. A ansiedade era palpável. Foi quando, de longe, o Agente Barros avistou o veículo. Um Fox prateado, exatamente como a denúncia havia descrito. A placa estava adulterada, mas o número do chassi que nos passaram conferia.
— É ele, Lucas. O carro da denúncia — ele disse, com a voz firme.
Agimos rápido. Usando cones e sinalização, conseguimos fazer o carro parar na pista. Os vidros escuros impediam que víssemos quem estava dentro. Minha mão correu para a arma, mas mantive a calma. A prioridade era a nossa segurança, e a do motorista. Não havia necessidade de violência se não houvesse resistência.
O motorista do Fox era um jovem, magro, com o olhar assustado. Tinha uns dezenove anos, talvez menos. A cara dele era de quem já havia se metido em muita encrenca. Eu me aproximei do veículo, mantendo a distância de segurança.
— Documentos, por favor — pedi, a voz firme, mas sem ser agressiva.
Ele tremia. As mãos suavam e o olhar dele se perdia no painel do carro, como se ele estivesse procurando uma rota de fuga.
— Eu… eu não tenho, senhor — ele gaguejou.
— Saia do veículo, por favor — eu ordenei.
Ele hesitou, mas saiu. Quando o jovem saiu, o Barros fez uma varredura no carro e, embaixo do banco, encontrou o que procurávamos. Uma mochila preta, cheia de pacotes de maconha.
O resto foi protocolo. O jovem, que se identificou como Rafael Andrade, foi algemado e levado para a viatura. Ele não resistiu, mas a cada passo, eu via a vida dele desmoronando diante dos meus olhos. Eu já havia prendido centenas de pessoas, e todas elas tinham uma história. A do Rafael era triste, mas a lei era a lei. A minha função era cumprir a justiça, sem me envolver com a dor alheia.
Enquanto o levávamos para o carro, o celular de Rafael tocou. O Barros o pegou e olhou para a tela. “Mãe”.
— Atende, Lucas. Diz que a gente está levando ele para a delegacia. É melhor do que a mãe ficar preocupada — Barros sugeriu.
Eu peguei o celular e atendi. A voz do outro lado era de uma mulher desesperada.
— Rafael, onde você está? O que está acontecendo?
— A senhora está falando com o Agente Lucas Menezes, da Polícia Rodoviária Federal. O seu filho, Rafael, foi preso por tráfico de drogas.
O silêncio do outro lado da linha me assustou. Durou alguns segundos, mas pareceu uma eternidade. A mulher, desesperada, começou a me fazer perguntas. Onde ele estava, para onde estava sendo levado, o que ela podia fazer. Eu respondi a todas as perguntas, com o tom de voz calmo e profissional que a situação exigia. No meio da conversa, eu percebi que a mulher do outro lado da linha não estava sozinha. Ela conversava com uma pessoa, que eu julguei ser a filha dela, e pedia para que ela viesse para a delegacia.
Eu não sabia quem era essa mulher, mas sabia que, a partir daquele momento, a vida dela também seria afetada pela imprudência de seu irmão. Eu desliguei o celular, guardei-o e olhei para o Rafael. Ele estava calado, com o olhar perdido. Ele sabia que a vida dele havia mudado para sempre.
Eu não tinha ideia de que, em algumas horas, a minha vida também mudaria. Eu não tinha ideia de que o meu mundo de lei e ordem estava prestes a colidir com o dela. Eu não tinha ideia de que a justiça que eu havia jurado proteger me levaria para os braços da mulher que eu jamais poderia ter. A irmã de um criminoso. A mulher com os longos cabelos negros e o olhar de leoa. A mulher que me faria prisioneiro do meu desejo.