Lucas narrando
A luz fria do amanhecer de Foz do Iguaçu entrava pela janela do meu quarto. Eu acordei, e o silêncio do meu apartamento me atingiu como um soco. A ausência de Sofia era um eco, um vazio que me fazia sentir como se eu tivesse perdido uma parte de mim. Eu me levantei, e a minha rotina, que antes era de dois, agora era de um. O café na cozinha, a arrumação do quarto, o silêncio. Tudo era diferente.
Eu me vesti, e a minha farda da PRF era a minha armadura. O meu trabalho era o meu porto seguro, o meu refúgio da dor. Eu entrei na viatura e dirigi para o posto policial. A minha mente estava em um turbilhão de emoções. A traição de Sofia, o consórcio, a Isabela. A vida, que antes era previsível, agora era um caos.
Quando cheguei no posto, o Agente Barros já estava lá. Ele era um homem de rotina, um homem que acreditava em horários e em regras. E ele era o meu único amigo, a minha única família em Foz do Iguaçu. Eu sou de São Paulo, e a minha família estava lá. O Barros, com o seu jeito de tio, era a única pessoa que eu tinha para desabafar.
— Bom dia, Lucas. O que aconteceu? Você está com uma cara de quem viu um fantasma — ele disse, com um sorriso.
— Não vi um fantasma, Barros. Mas vi algo pior. Eu vi a Sofia na cama com outro.
O sorriso dele desapareceu. Ele me olhou, e eu vi a sua surpresa, a sua raiva.
— O quê? Como assim?
— É. Eu cheguei em casa, e ela estava lá, com outro. Eu a mandei embora. A gente acabou.
O Barros me deu um abraço, e eu me senti um pouco melhor. O abraço dele era o abraço de um pai, de um irmão.
— Eu sinto muito, Lucas. Ela não te merecia. Ela não era para você. Você é um bom homem. Você merece uma mulher que te ame, que te respeite.
Eu sorri.
— Eu sei. Mas a vida continua, não é? A gente tem que seguir em frente.
Ele me olhou, e eu vi o seu orgulho.
— Sim. A gente tem.
Eu me sentei na minha mesa, e a minha mente se perdeu no meu passado. Eu me lembrei da minha vida com Sofia, da minha vida que eu achava que era perfeita. E eu me senti uma pessoa que tinha que recomeçar.
— Barros, eu tenho uma notícia para te dar — eu disse, com um sorriso.
— Qual? Você está com uma cara de quem vai aprontar.
— Eu fui contemplado no consórcio.
Os olhos dele se arregalaram.
— O quê? Você está falando sério?
— Sim. A gente tem que começar a procurar carro agora — eu disse, com uma risada.
— Eu não acredito. Você pagou esse consórcio por anos. Finalmente a sua sorte mudou. Você merecia, meu filho. Você merecia.
Ele me deu um abraço, e eu me senti feliz. A minha vida estava em ruínas, mas algo bom estava acontecendo. Eu tinha o meu carro. Eu tinha um novo começo.
— A gente pode ir ver os carros no final de semana. Mas agora, a gente tem que ir para a estrada. O dever nos chama — ele disse, com um sorriso.
Eu me levantei, e a minha farda era a minha armadura. O meu trabalho era o meu porto seguro, o meu refúgio da dor. Eu entrei na viatura, e o Barros estava ao meu lado.
— Vamos, filho. A vida é para ser vivida. E você tem que começar a viver a sua.
As palavras dele me atingiram. Ele era o meu único amigo, a minha única família em Foz do Iguaçu. E ele estava ali para me ajudar. Eu sabia que a minha vida havia mudado, e que a minha única certeza, o meu único porto seguro, havia se perdido. Mas eu tinha um novo começo, um novo carro, e um amigo leal que eu podia contar. E, no meio de todo esse caos, a imagem de Isabela, a mulher dos cabelos negros, me veio à mente. O destino, que antes me parecia tão c***l, agora me parecia um jogo de cartas. E eu estava pronto para jogar.