Lucas narrando
A sala de reuniões no posto tinha o cheiro de café forte e a tensão de sempre que um evento grande se aproximava. Depois daquele show de horrores com as contrabandistas, a gente foi direto para a reunião. O comandante da nossa unidade estava lá, com a expressão séria de quem tinha um pepino para resolver. O assunto do dia era o reforço na Penitenciária Estadual.
— Pessoal, amanhã é dia de visita. E como vocês sabem, a segurança lá precisa ser triplicada. Teremos um fluxo muito grande de pessoas, e o nosso trabalho é garantir que tudo corra de forma organizada e segura — ele começou, enquanto apontava para um quadro branco.
Ele dividiu a equipe. Os policiais mais experientes, como o Barros e outros veteranos, seriam alocados na parte externa. A responsabilidade deles era manter a ordem na fila de espera, garantir que o trânsito fluísse e ficar de olho em qualquer movimentação suspeita do lado de fora dos muros.
— Aos mais novos, vocês vão ficar com a parte da vistoria. Antes das famílias entrarem, o procedimento de busca será feito por vocês. A atenção tem que ser máxima. Não podemos deixar que nada de ilícito entre na prisão.
A palavra "vistoria" pairou no ar. Todos nós, os policiais mais novos, sabíamos exatamente o que isso significava. Não era apenas uma olhada na sacola. Era um procedimento minucioso e desconfortável, tanto para quem faz quanto para quem sofre a revista. O objetivo era impedir a entrada de qualquer objeto proibido, de drogas a celulares, escondidos de forma criativa ou descarada. Era um trabalho delicado, que exigia firmeza e, acima de tudo, respeito, mesmo em situações que pudessem ser embaraçosas.
Eu me senti um pouco apreensivo. Era uma das partes mais desagradáveis da nossa profissão. Olhei para Barros, que me deu um aceno de cabeça, como quem dizia: "É a vida, garoto. Faz parte do nosso trabalho".
Fiquei pensando no tipo de situação que eu poderia enfrentar. Mães, esposas, filhos... Pessoas desesperadas, tentando burlar a segurança por amor, por medo ou por dinheiro. A gente sabia que as abordagens poderiam ser tensas, e a linha entre ser firme e ser desumano era muito tênue. Meu treinamento me preparou para isso, mas o lado humano da coisa era sempre um desafio.
A reunião terminou, e o clima ficou pesado. Enquanto a gente se preparava para o turno, a perspectiva de amanhã pesava na minha mente. A vistoria. A tensão. E a possibilidade de ver o rosto de alguém conhecido. Pela primeira vez, o meu trabalho parecia estar prestes a colidir de forma muito direta com a minha vida pessoal, e eu não sabia se estava preparado para isso.