Capítulo 12

746 Words
Isabela narrando A cozinha do restaurante tinha o cheiro de casa. O aroma de temperos frescos, do feijão cozinhando, do arroz no ponto, tudo isso me lembrava da minha infância. A minha mãe, Dona Helena, estava na cozinha, com a sua blusa branca e o seu sorriso cansado. Ela era a alma do nosso negócio, e o seu toque na comida era a única coisa que me fazia acreditar que tudo ficaria bem. Eu estava no salão, cuidando do caixa e do atendimento. A minha vida era uma correria, um ciclo interminável de pedidos, contas, e a preocupação com a minha família. Mas naquele dia, a correria era a minha salvação. Eu não tinha tempo para pensar em Rafael, não tinha tempo para pensar no policial misterioso da praça. Eu era a Isabela do restaurante, e a minha prioridade era o meu trabalho. O restaurante estava lotado. Era a hora do almoço, e as mesas estavam cheias de famílias, de casais, de homens que trabalhavam na região. O movimento era intenso, e eu me sentia viva. Eu me sentia útil. Eu me sentia no controle de alguma coisa. Foi quando um homem, alto e com a aparência de quem era dono do mundo, se aproximou do balcão. Ele tinha um sorriso no rosto, e um olhar que me fez sentir desconfortável. — Olá, linda. Você está sozinha? — ele perguntou, com a voz carregada de uma malícia que eu já estava acostumada. — Eu estou trabalhando. O que o senhor deseja? — eu respondi, com um tom de voz seco e profissional. Ele riu. — Eu desejo você. E desejo um prato de comida, mas com uma mulher como você, a comida é a última coisa que eu penso. Eu senti a minha raiva crescer. Eu estava acostumada com esse tipo de comentário. Desde que o meu corpo havia se desenvolvido, a minha beleza era um fardo. Os homens me viam como um objeto, e não como uma pessoa. Eu estava cansada disso. Eu estava cansada de ser julgada pela minha aparência. — Eu não estou à venda, senhor. E a comida é a única coisa que eu posso oferecer. O homem me olhou, e o sorriso dele se transformou em um olhar de desdém. Ele se virou e foi embora, e eu me senti aliviada. Eu respirei fundo e voltei ao meu trabalho. Mas a cena se repetiu. Outro homem, e depois outro, me dando em cima. O meu corpo, que antes era uma armadura, se transformou em uma prisão. Eu me senti sufocada. Eu me senti uma mulher que não podia ser livre, que não podia ser ela mesma. Eu fui para a cozinha, e a minha mãe me olhou com os olhos cheios de preocupação. — Minha filha, o que foi? — ela perguntou, com a voz suave. — Nada, mãe. Só estou cansada. Eu não podia contar a ela o que estava acontecendo. Ela já tinha preocupações demais. O Rafael, o restaurante. Eu não podia dar a ela mais um fardo para carregar. Eu me sentei na cadeira da cozinha, e a minha mente se perdeu no meu passado. Eu me lembrei do meu pai. Ele sempre me ensinou a ser uma mulher forte, uma mulher que não se deixava abalar por ninguém. E eu estava me sentindo fraca. Eu estava me sentindo uma mulher que não conseguia se defender. A minha mãe se sentou ao meu lado e me deu a mão. — Filha, eu sei que você está preocupada. Mas a gente vai passar por isso. Nós vamos lutar. Eu olhei para ela, e eu vi o mesmo olhar que meu pai me dava. Um olhar de orgulho e de compaixão. — Eu sei, mãe. Nós vamos lutar. Eu voltei para o salão, e a minha postura era diferente. Eu me senti mais forte. Eu me senti uma mulher que não se deixava abalar por ninguém. Eu me senti a filha do meu pai. O meu dia de trabalho continuou, e os homens continuaram me dando em cima. Mas eu não me sentia mais uma vítima. Eu me sentia uma guerreira. Eu estava lutando. Lutando contra o mundo, lutando contra o destino, lutando contra tudo. E, no meio de tudo isso, a imagem de Lucas, do seu olhar triste e da sua farda da PRF, me veio à mente. O destino, que antes me parecia tão c***l, agora me parecia um jogo de cartas. E eu estava pronta para jogar.
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