Isabela narrando
A delegacia de Foz do Iguaçu era um prédio cinzento, com a aparência de um bloco de concreto frio e impessoal. O ar dentro do local era denso, carregado de uma mistura de cheiro de papel velho, café e odores que eu não conseguia identificar. A cada passo que eu dava, sentia uma angústia crescer em meu peito, mas eu me mantinha firme. Eu não ia desmoronar ali, não na frente de todas aquelas pessoas, não na frente da lei.
No balcão da recepção, uma policial com o rosto cansado me olhou por cima dos óculos. Havia um tom de desinteresse em seus olhos, como se a minha história fosse mais uma entre as centenas que ela ouvia todos os dias.
— Olá, o que deseja? — ela perguntou, a voz seca.
— Meu irmão, Rafael Andrade, foi preso hoje. Eu queria saber onde ele está, e se eu posso vê-lo — eu respondi, com a voz firme.
A policial digitou algo no computador, e o som das teclas ecoou pela sala. Ela me olhou, e eu vi um lampejo de curiosidade em seus olhos.
— O caso do tráfico. Ele foi levado para uma cela especial. Um dos agentes que o prendeu vai conversar com você. Aguarde aqui.
Eu me sentei em uma das cadeiras de plástico, e observei o movimento da delegacia. Policiais entrando e saindo, pessoas aguardando em silêncio, e o som constante do rádio da polícia. O meu mundo, que antes era uma rotina de cheiros de tempero e de risadas com a minha mãe, havia se transformado em um mundo de crime e de lei.
Foi quando um policial mais velho se aproximou de mim. Ele tinha os cabelos grisalhos, a pele marcada pelo tempo, e um olhar de quem já havia visto de tudo. Era um homem alto, e sua farda impecável parecia carregada de um peso invisível.
— A senhorita é a irmã do Rafael? — ele perguntou, com a voz grossa.
— Sim. Meu nome é Isabela Andrade — eu respondi, me levantando.
— Agente Barros. Fui eu quem o prendi — ele disse, com um tom de voz que não me parecia de arrependimento, mas de dever cumprido.
Ele se sentou na cadeira em minha frente, e me fez um sinal para que eu me sentasse. Eu o fiz, com o coração acelerado. Eu estava cara a cara com o homem que havia desabado o meu mundo, e eu tinha que ser forte, por mim e pela minha família.
— O seu irmão foi pego transportando uma quantidade considerável de drogas. Ele não resistiu à prisão, mas também não cooperou com a gente. Eu preciso que você me responda algumas perguntas.
Eu assenti.
— O seu irmão tem alguma passagem pela polícia? Ele já esteve envolvido com isso antes?
— Não. Rafael nunca teve passagem pela polícia. Ele… ele sempre foi um garoto problemático, mas nunca pensei que ele se envolveria com isso.
O Agente Barros me olhou, e eu vi em seus olhos a mesma curiosidade que a policial da recepção havia me demonstrado. Ele estava me analisando, me medindo, tentando entender quem eu era.
— E a sua família? Onde o seu pai trabalha? Onde a sua mãe trabalha?
— Meu pai faleceu há cinco anos. Ele era dono de um restaurante. Minha mãe e eu tomamos conta do negócio.
— E o seu irmão? Ele trabalhava com vocês?
— Ele… ele nos ajudava de vez em quando, mas não era fixo. Ele não tinha uma profissão definida.
O Agente Barros anotou algo em sua prancheta, e eu sentia a minha raiva crescendo. Eu não estava ali para ser interrogada, mas para ver meu irmão.
— Por que o senhor está me fazendo todas essas perguntas? Eu só queria saber do meu irmão.
— Porque o seu irmão está em uma situação complicada. E a gente precisa entender o que aconteceu para poder ajudá-lo. Ele não quis falar com a gente, mas talvez você, como a irmã dele, possa nos ajudar a entender quem está por trás disso.
Eu suspirei. A situação era mais complexa do que eu pensava. Eu não sabia de nada. Eu não sabia quem estava por trás disso, eu não sabia o que o meu irmão estava fazendo. A única coisa que eu sabia é que ele havia se metido em encrenca, e eu estava ali para tentar tirá-lo dela.
— Eu não sei de nada, Agente. Eu juro. O meu irmão sempre foi muito fechado, ele não me contava nada da vida dele.
O Agente Barros me olhou, e eu vi que ele não estava acreditando em mim. Ele se levantou, e eu senti um arrepio. A minha beleza, que era a minha armadura, não estava me protegendo ali. Ali, eu era apenas a irmã de um criminoso.
— O seu irmão está sendo formalmente acusado de tráfico de drogas. A gente precisa de documentos dele para o processo. Você poderia nos ajudar com isso?
Eu assenti.
— Sim. Eu posso trazer. Mas eu posso vê-lo?
— Não. Ele está em uma cela de segurança máxima. Não é possível que você o veja agora. O seu advogado vai conversar com ele.
— O meu advogado já está a caminho — eu disse, com um tom de voz mais alto do que eu esperava.
E foi nesse momento que a porta da delegacia se abriu, e eu vi o Eduardo, o nosso advogado, entrar. Ele era um homem alto, de terno e gravata, com o ar de quem sabia o que estava fazendo. Eu me levantei e fui até ele, aliviada.
— Eduardo! — eu o abracei forte.
Ele me olhou e me deu um sorriso reconfortante. Ele era a minha salvação, a única pessoa que eu confiava naquele lugar.
— Fica tranquila, Isabela. Eu vou cuidar de tudo.
O Agente Barros o cumprimentou, e eles começaram a conversar. Eu fiquei em silêncio, observando-os, sentindo a minha impotência. Eu estava ali, em uma delegacia, em uma cidade que, de repente, se tornou hostil, e eu não podia fazer nada. O meu corpo estava tenso, mas eu me mantive de pé, como se estivesse em uma batalha invisível. Eu era a irmã do criminoso, mas também era a mulher que lutaria por sua família. O meu coração estava em guerra, mas eu não ia deixar a minha armadura cair. O meu maior desafio estava prestes a começar.