DANIELA - INICIO

918 Words
Meu nome é Daniela Duarte. Tenho vinte anos e, apesar da pouca idade, carrego comigo sonhos que muitos consideram grandes demais para alguém tão jovem. Mas eu sempre fui assim: determinada, curiosa, e com uma vontade quase ingênua de acreditar que o mundo pode ser melhor. Talvez seja essa ingenuidade que me trouxe até aqui, à Penitenciária Santa Cruz, no Rio de Janeiro, para enfrentar o maior desafio da minha vida. Fisicamente, nunca me considerei uma mulher deslumbrante, mas sei que tenho traços que chamam atenção. Tenho 1,65m de altura, corpo esguio, pele clara que contrasta com meus cabelos castanhos longos, geralmente presos em um coque ou r**o de cavalo para dar praticidade ao meu dia a dia. Meus olhos são castanhos claros, herdados da minha mãe, e sempre ouvi que eles transmitem uma mistura de doçura e firmeza. Talvez seja isso que me define: uma aparência delicada, mas uma essência forte. Desde adolescente, sempre sonhei com um amor de filmes. Não qualquer amor, mas aquele que faz o coração disparar, que transforma a rotina em poesia, que dá sentido às pequenas coisas. Nunca namorei. Não por falta de oportunidade, mas porque nunca encontrei alguém que despertasse em mim essa sensação. Prefiro esperar por algo verdadeiro do que me entregar a algo vazio. Minha escolha pelo curso de Serviço Social não foi por acaso. Desde pequena, sempre me incomodou ver injustiças, ver pessoas sendo descartadas pela sociedade. Eu queria ser ponte, queria ser voz. Acreditava — e ainda acredito — que ninguém é apenas o erro que cometeu. Por trás de cada crime existe uma história, uma dor, uma escolha errada. Mas eu não via loucura nisso. Eu via coragem. Foi nesse período de mudanças que conheci minha melhor amiga, Camila Torres. Eu havia decidido morar sozinha, alugando uma kitnet pequena perto da faculdade. Era simples, com paredes brancas e móveis usados, mas para mim era um símbolo de independência. No primeiro dia, enquanto carregava caixas, Camila apareceu. Morena, cabelos longos e ondulados, sorriso fácil. Ela morava na kitnet ao lado e se ofereceu para ajudar. Desde então, nunca mais nos desgrudamos. Camila tem dezoito anos e é o oposto de mim. Extrovertida, ousada, fala o que pensa sem medo. Gosta de moda, de acessórios chamativos, de viver intensamente. Eu sou mais reservada, mais cautelosa. Mas juntas, nos equilibramos. Quando contei sobre o estágio na penitenciária, ela riu. — Você tem essa mania de querer salvar o mundo, Dani. E eu acho bonito. Só cuidado pra não se perder nele. Apesar da brincadeira, ela me apoiou. Sempre me apoia. O quarto da minha kitnet estava iluminado pela luz suave da luminária sobre a mesa. Eu estava sentada na cama, com os papéis do estágio nas mãos, nervosa e animada ao mesmo tempo. O coração batia rápido, como se quisesse anunciar ao mundo a novidade. Camila entrou sem bater, como sempre fazia, jogando-se na cadeira ao lado da mesa. — Dani, que cara é essa? Tá escondendo alguma coisa de mim? — perguntou, arqueando a sobrancelha com aquele jeito curioso que só ela tinha. Respirei fundo e soltei de uma vez: — Consegui. Fui aceita no estágio da penitenciária. Amanhã já começo. Camila arregalou os olhos e depois caiu na gargalhada. — Você é completamente maluca! Trabalhar na cadeia, no meio de criminosos? — disse, balançando a cabeça, mas com um sorriso divertido. — Só você mesmo pra achar que isso é uma boa ideia. — Eu sei que parece loucura, mas é o que eu quero. Quero entender, quero ajudar. É a chance de colocar em prática tudo o que eu acredito — respondi, tentando soar firme, mesmo com o coração acelerado. Camila se levantou e veio até mim, sentando-se na beira da cama. — Você tem essa mania de querer salvar o mundo, Dani. Eu admiro isso, mas às vezes acho que você vai acabar se metendo em encrenca. — Ela me cutucou no braço e completou, rindo: — Já tô até vendo, nós duas casando com dois caras m*l. Você com um bandido frio e eu com outro mais maluco ainda. Revirei os olhos, mas não consegui conter o riso. — Para com isso, Camila. Eu não vou me apaixonar por ninguém lá dentro. Nunca namorei porque espero algo verdadeiro, algo que faça meu coração disparar. Não vai ser na cadeia que eu vou encontrar isso. Camila deu de ombros, ainda sorrindo. — Quem sabe? O destino adora brincar com você, Dani. — Ela se deitou de costas na cama, olhando para o teto. — Mas falando sério, eu vou estar aqui. Se você precisar, se sentir medo, se quiser desistir, eu vou estar do seu lado. Olhei para ela e senti um calor no peito. Camila sempre foi assim: brincalhona, ousada, mas também leal. Conhecê-la tinha sido um presente. Desde o dia em que apareceu na porta da minha kitnet oferecendo ajuda, ela se tornou parte da minha vida. — Obrigada, Camila. Eu sei que posso contar com você — respondi, apertando sua mão. Ela sorriu e piscou. — Claro que pode. Agora vai dormir, futura doutora dos bandidos. Amanhã você começa a sua aventura. Deitei-me, ainda com os papéis ao lado, e fechei os olhos. O nervosismo não me deixava descansar, mas a certeza de que estava prestes a viver algo transformador me embalava. E, no fundo, as palavras de Camila ecoavam como uma provocação: casar com dois caras m*l. Eu ri sozinha, sem imaginar que aquela brincadeira poderia se tornar uma profecia perigosa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD