CAMILA - ROTINA

799 Words
Acordo cedo, como sempre. O despertador toca às seis e meia, e eu já sei que o dia vai ser longo. Faculdade de manhã, mais aulas à tarde, e depois o bar. Só Deus sabe a hora que vou sair de lá. Mas essa é a minha vida, e eu aprendi a encarar cada parte dela com coragem. Levanto da cama e vou direto para o banheiro. Me olho no espelho: cabelos longos e ondulados, pele morena, olhos castanhos escuros. Eu gosto de destacar quem eu sou. Escolho uma calça jeans justa, uma blusa vermelha decotada, e coloco uma jaqueta preta por cima. Nos pés, tênis branco. É simples, mas chama atenção. Eu gosto de ser vista, gosto de ser notada. Saio da kitnet e caminho até o ponto de ônibus. O ar da manhã ainda está fresco, e eu sinto a cidade acordando junto comigo. O ônibus chega lotado, como sempre. Entro, me espremo entre as pessoas, e sigo viagem até a faculdade. O trajeto é longo, mas eu já me acostumei. Coloco os fones de ouvido e deixo a música me distrair. Na faculdade, as horas passam rápido. Aula de administração, trabalhos em grupo, discussões sobre mercado, gestão, números. Eu gosto do curso. Ele me dá opções, me abre portas. Eu sei que, com administração, posso trabalhar em várias áreas. E isso é importante pra mim. Eu não quero ficar presa. Eu quero liberdade. Às quinze horas, saio da faculdade e sigo direto para a lanchonete/bar onde trabalho. O uniforme é simples: camiseta preta com o logo do bar, calça jeans e tênis. Prendo o cabelo em um r**o de cavalo e coloco um batom vermelho. Gosto de marcar presença, mesmo no trabalho. O bar começa tranquilo, com alguns clientes tomando café e lanches. Mas conforme a tarde vira noite, o ambiente muda. As mesas se enchem, a música aumenta, os copos tilintam. Eu corro de mesa em mesa, equilibrando bandejas, sorrindo para quem merece, ignorando quem não merece. Às vezes, os clientes passam dos limites. Homens bêbados, cantadas baratas, olhares invasivos. Eu já aprendi a lidar com isso. — Ei, gata, senta aqui comigo. — diz um, rindo alto. — Você devia largar esse trabalho e vir comigo. — provoca outro. — Com esse corpo, você devia estar no palco, não servindo cerveja. — comenta um terceiro, olhando descaradamente. Eu respiro fundo, mantenho o sorriso forçado, e sigo. Quando passam dos limites, eu não hesito. Já joguei bandeja de cerveja em cliente, já chamei segurança, já mandei sair. Eu não tenho medo. Eu sei me impor. O bar é pequeno, mas sempre cheio. Música alta, risadas, conversas. Eu gosto da energia, mas também sei que é perigoso. Cada noite é uma batalha. Eu preciso estar atenta, precisa estar firme. Enquanto sirvo as mesas, penso na minha vida. Faculdade de manhã e tarde, trabalho à noite. É puxado, mas é o que me mantém. É o que paga minhas contas, é o que me dá independência. Eu não tenho família. Não tenho mãe, não tenho pai. Eu tenho a Dani. Ela é minha irmã de coração. E é por ela que eu sigo. Às vezes, penso no que poderia ter sido. Se minha mãe tivesse acreditado em mim, se meu padrasto não tivesse feito o que fez. Mas eu não deixo essas lembranças me derrubarem. Eu transformo dor em força. Eu sou Camila Torres. Eu sou extrovertida, ousada, independente. E eu não vou deixar ninguém me derrubar. A noite avança, os clientes ficam mais bêbados, as cantadas mais pesadas. — Princesa, vem cá, só um beijo. — insiste um, segurando meu braço. Eu me solto rápido, firme. — Me respeita. — digo, olhando nos olhos dele. Ele ri, mas solta. Eu sigo, sem medo. O relógio marca meia-noite, e eu ainda estou correndo de mesa em mesa. O bar não fecha cedo. Às vezes, só Deus sabe a hora que eu vou sair. Mas eu sigo, porque essa é minha vida. Quando finalmente fecho a última conta e guardo as bandejas, sinto o corpo cansado, mas a mente firme. Eu sei que amanhã vai ser igual. Faculdade, bar, correria. Mas eu também sei que cada dia me fortalece. Cada dia me mostra que eu sou capaz. Saio do bar, caminho até o ponto de ônibus. A cidade está silenciosa, diferente da correria do dia. O ônibus chega vazio, e eu sigo viagem de volta para a kitnet. Coloco os fones de ouvido e deixo a música me embalar. Chego em casa, jogo os sapatos no canto, e me deito na cama. O corpo dói, mas o coração está firme. Eu sei quem eu sou. Eu sei o que eu quero. Eu sou Camila Torres. Eu sou fogo, intensidade, ousadia. E eu não vou deixar ninguém me apagar.
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