O portão da penitenciária se fechou atrás de mim com um estrondo metálico que ecoou como um alívio. Eu respirei fundo, tentando recuperar o ar que parecia ter me faltado durante todo o dia. O guarda que me acompanhou até a saída me lançou um olhar rápido, como quem ainda não acreditava que eu tinha coragem de estar ali. Eu sorri, mas era um sorriso cansado, carregado de nervosismo.
Caminhei até o ponto de ônibus com passos apressados. O sol já estava baixo, tingindo o céu de tons alaranjados, e eu sentia o corpo pesado, como se cada palavra, cada olhar, cada gesto obsceno dos presos tivesse se agarrado a mim. Sentei no banco do ponto e fechei os olhos por alguns segundos. O barulho das grades, os gritos, os assobios, tudo ainda ecoava na minha mente.
O medo
Eu nunca tinha sentido medo assim. Não era o medo de perder algo material, nem o medo de uma prova difícil na faculdade. Era um medo visceral, que vinha da consciência de estar cercada por homens que carregavam histórias de violência, de crimes, de brutalidade. Quando caminhei pelo pátio e ouvi os gritos, as palavras obscenas, os gestos, senti meu coração disparar.
— Gostosa!
— Princesa, casa comigo!
— Ei, doutora, vem cá que eu te mostro o que é vida!
Cada frase parecia uma faca, cortando minha coragem. Eu mantive o olhar firme, mas por dentro tremia. O guarda ao meu lado dizia que eu era louca, que aquele lugar era o inferno. E, por um instante, eu acreditei.
Quando entrei na sala e vi os quinze presos sendo trazidos, algemados, senti o peso do ambiente. Eles riam, provocavam, lançavam palavras carregadas de deboche. Alguns faziam gestos obscenos, outros me olhavam como se eu fosse uma presa fácil. Eu tentei respirar fundo, tentei me lembrar do motivo que me levou até ali: acreditar que cada um deles poderia ter uma segunda chance. Mas era difícil. Muito difícil.
E então, ele entrou. O último a ser trazido, caminhando com passos firmes, algemado, mas com uma presença que dominava o ambiente. Alto, tatuado, cicatriz no canto da boca, olhar frio e penetrante. Quando nossos olhos se cruzaram, senti um arrepio percorrer minha espinha. Era como se ele pudesse me ver além da superfície, como se pudesse me desmontar com um simples olhar.
Os outros presos continuavam gritando, rindo, provocando. O ambiente estava prestes a explodir em caos. Foi então que ele se levantou, a voz firme e carregada de autoridade ecoando pela sala.
— Cala a boca, p***a! — gritou, o som cortando o ar como uma lâmina. — Respeitem a menina. Deixem ela fazer o trabalho dela.
O silêncio foi imediato. Os presos se calaram, alguns abaixaram a cabeça, outros desviaram o olhar. A presença dele era esmagadora, e ninguém ousava desafiá-lo.
Eu respirei fundo, sentindo o peso sair dos meus ombros. Olhei para ele e murmurei:
— Obrigada.
Ele não respondeu. Apenas manteve o olhar fixo em mim, sério, bruto, como se estivesse me avaliando.
Durante toda a sessão, eu senti o olhar dele sobre mim. Não era de desejo, não era de deboche. Era algo diferente. Algo que me desafiava, que me testava. Eu sabia que aquele homem carregava ódio, vingança, brutalidade. Mas, naquele momento, ele me deu espaço. Ele me deu respeito.
E isso mudou tudo.
Os outros presos ouviram em silêncio, alguns riram baixinho, mas ninguém ousou interromper. A autoridade dele pairava sobre todos, garantindo que minhas palavras fossem ouvidas. Eu falei sobre reintegração, sobre oportunidades, sobre escolhas. E, mesmo que muitos não acreditassem, eu sabia que precisava tentar.
O ônibus chegou, e eu subi, encontrando um lugar perto da janela. Apoiei a cabeça no vidro e deixei a cidade passar diante dos meus olhos. As luzes se acendiam, as pessoas caminhavam apressadas, e eu me sentia diferente. Como se tivesse atravessado uma fronteira invisível.
Eu pensava nas palavras do guarda: “Aqui não é lugar pra gente como você. Isso aqui é o inferno.” Talvez ele estivesse certo. Mas eu também sabia que, de alguma forma, eu precisava estar ali. Eu precisava ouvir aquelas histórias, precisava acreditar que ainda havia chance de mudança.
O medo ainda estava comigo, mas havia algo mais. Havia a lembrança daquele momento em que ele mandou todos calarem a boca. A lembrança do silêncio que se seguiu, da autoridade que ele impôs. Eu não sabia por que ele fez isso. Não sabia se era respeito, se era curiosidade, ou se era apenas uma forma de mostrar poder. Mas, naquele instante, ele me protegeu.
Cheguei na kitnet e encontrei ela vazia. Sabia que a Camila devia ta chegando no bar para trabalhar, foi quando chegou a mensagem dela. Ela perguntou, curiosa:
Camis ♥: E aí, como foi o primeiro dia?
Eu sentei na cama, cansada, e respondi:
Dani: Foi... intenso.
Camis ♥: Eu sabia. Você vai acabar se apaixonando por um bandido, Dani. Já tô até vendo.
Eu neguei, claro. Mas no fundo, uma parte de mim se perguntava se ela não estava certa.
Deitei na cama e fechei os olhos. O corpo estava cansado, mas a mente estava cheia. Eu pensava nos gritos, nas palavras obscenas, nos gestos. Pensava no medo que senti, na coragem que precisei ter. E pensava nele. No homem que mandou todos calarem a boca. No homem que me deu respeito em meio ao caos.
Eu sabia que minha história estava apenas começando. Eu sabia que aquele era apenas o primeiro passo. Mas também sabia que, de alguma forma, minha vida estava prestes a se entrelaçar com a dele.
E isso me assustava. Mas também me fascinava.