22K - MOTIVO

789 Words
Meu nome é Lucas. Mas esse nome já não existe. No morro, ninguém me chama assim. No rádio da polícia, nos cochichos dos inimigos, nas bocas de quem tem medo, eu sou conhecido como 22K. Esse apelido não veio de graça. Foi numa noite de fogo, quando eu ainda era vapor, que o número grudou em mim. Vinte e duas mortes. Vinte e duas vidas apagadas numa invasão que mudou tudo. O K veio depois, de kill, porque não bastava contar. Era preciso marcar. Desde então, não existe Lucas. Existe 22K. Tenho trinta anos. Trinta anos de guerra, de correria, de sangue. Cresci no Morro da Esperança, onde a lei é feita na ponta da pistola e respeito se conquista com medo. Desde moleque aprendi que quem vacila morre. Eu nunca vacilei. Sempre fui frio, calculista, sem espaço pra emoção. Mulher? Romance? Isso nunca foi parte da minha vida. Eu não sei ser romântico. Nunca precisei conquistar ninguém. O que eu tenho, eu tomo. O que eu quero, eu pego. E quem tenta me impedir, cai. Nasci num barraco pequeno, chão de terra batida, telhado que pingava quando chovia. Minha mãe fazia o que podia, mas nunca foi suficiente. Meu pai? Nunca conheci. Dizem que morreu numa troca de tiro, outros dizem que fugiu. Pra mim, tanto faz. Cresci sozinho, aprendendo cedo que o mundo não dá nada de graça. Aos dez anos já corria pelas vielas levando recado de vapor, ganhando uns trocados. Aos doze, já segurava arma. Aos quinze, já tinha matado. Não por escolha, mas por sobrevivência. No morro, ou você mata, ou você morre. Foi numa noite quente, abafada, que tudo mudou. Eu era vapor, apenas mais um moleque correndo com arma na mão. O Coringa estava ao meu lado na invasão contra o Morro da Fênix. Eu segui. O cheiro de pólvora, os gritos, o sangue. Quando a fumaça baixou, vinte e dois corpos estavam no chão. Vinte e duas vidas apagadas. E eu estava lá, com a arma ainda quente. Os caras começaram a me chamar de “22”. Depois veio o “K”. E nunca mais fui apenas Lucas. Eu virei lenda. Eu virei medo. Meu corpo carrega minha história. Tenho tatuagens que falam por mim. No braço esquerdo, um leão, símbolo de poder e respeito. No peito, frases que lembram cada guerra que enfrentei: “Só os fortes sobrevivem”. Nas costas, cicatrizes que não me deixam esquecer. No pescoço, tem o 22k. Cada marca é uma lembrança, cada linha é uma vitória. Eu não preciso falar muito. Quem olha pra mim já sabe quem eu sou. Os meninos da boca me respeitam. Eles sabem que eu não brinco. Eu não sou de dar segunda chance. Se o cara erra, paga. Se vacila, cai. É assim que se mantém o controle. É assim que se constrói respeito. Eu não sou chefe, mas sou braço direito do Coringa. E isso já diz tudo. Ele é o cérebro, eu sou a execução. Ele planeja, eu faço. Ele manda, eu cumpro. E juntos, ninguém segura. O Coringa é louco, imprevisível, mas é leal. E lealdade é tudo. Eu confio nele. Ele confia em mim. No morro, isso vale mais que dinheiro. Vale mais que poder. Vale a vida. Minha rotina é simples. Acordo cedo, subo a laje, olho o movimento. Vejo quem entra, quem sai, quem compra, quem vende. O dinheiro gira, a boca não para. Cocaína, maconha, lança. Tudo passa por mim. Eu controlo, eu decido. E se alguém tenta atravessar, eu corto. O morro é nosso, e quem tenta tomar, morre. Eu não tenho piedade. Eu não tenho compaixão. Eu tenho respeito. E respeito se conquista com medo. O morro tá em guerra. Caveira acha que manda, mas não manda. Ele tem homens, tem armas, tem dinheiro. Mas não tem respeito. Respeito não se compra, se conquista. E ele nunca vai ter. O Coringa tá preso, mas ainda manda. Eu sou a voz dele aqui fora. Eu sou a mão dele. E juntos, vamos derrubar Caveira. Vamos tomar o morro de volta. Vamos mostrar quem manda. Eu não tenho medo. Nunca tive. Medo é fraqueza. E fraqueza não tem espaço na minha vida. Eu sou 22K. Eu sou o braço direito do Coringa. Eu sou a execução. E quem cruza meu caminho, cai. Minha história não é de redenção. Não é de amor. É de guerra, de sangue, de poder. Eu não sou herói, não sou mocinho. Eu sou criminoso, eu sou traficante, eu sou assassino. E eu não me arrependo. Cada morte, cada tiro, cada invasão. Tudo isso me trouxe até aqui. Tudo isso me fez quem eu sou. E eu não trocaria nada disso.
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