O sol da manhã m*l tinha se levantado quando bati na porta da Dani. Ela estava pronta para o primeiro dia na penitenciária, nervosa, mas com aquele brilho nos olhos que só ela tem quando decide enfrentar o mundo. Eu sorri, tentando aliviar o peso que ela carregava.
— Boa sorte hoje, Dani. Você vai precisar de coragem, mas isso você tem de sobra. — falei, encostando no batente da porta.
Ela me olhou com aquele sorriso tímido, ajeitou os papéis na bolsa e respirou fundo. Eu sabia que ela estava prestes a viver algo que mudaria sua vida. E eu, como amiga, só podia estar ali, desejando força.
Meu nome é Camila Torres. Tenho dezoito anos e, diferente da Dani, não tenho família para me apoiar. Não porque eles morreram, mas porque eu escolhi cortar qualquer laço. Meu padrasto tentou abusar de mim quando eu tinha quinze anos. Eu contei para minha mãe, mas ela não acreditou. Preferiu ficar do lado dele. Desde aquele dia, nunca mais voltei para casa. Nunca mais olhei para trás. Eu aprendi a sobreviver sozinha.
Fisicamente, sempre me disseram que tenho presença. Sou morena, cabelos longos e ondulados que caem até a cintura. Meus olhos são castanhos escuros, intensos, e minha pele tem um tom dourado que chama atenção. Tenho 1,60m de altura, corpo curvilíneo, e gosto de me vestir de forma ousada. Roupas justas, cores fortes, acessórios chamativos. Não é vaidade, é identidade. Eu gosto de ser vista, gosto de ser ouvida. Diferente da Dani, que prefere a discrição, eu sou o tipo de pessoa que entra em um lugar e faz questão de ser notada.
Apesar disso, nunca namorei. Não porque não tive oportunidade, mas porque nunca encontrei alguém que me fizesse sentir vontade de entregar meu coração. Eu brinco, eu provoco, eu sorrio, mas no fundo, guardo uma parte de mim que ninguém conhece. Talvez seja medo. Talvez seja desconfiança. Depois do que vivi com meu padrasto, aprendi a não confiar fácil em homens. Eles olham, desejam, mas poucos respeitam. Eu quero respeito. E até hoje, não encontrei.
Ganhei uma bolsa na faculdade. Foi minha salvação. Estou cursando Administração porque é um curso que abre portas, que me permite trabalhar em várias áreas. Eu não queria ficar presa a uma única opção. Eu queria liberdade. E a faculdade me deu isso.
Estudo de manhã e à tarde, e à noite trabalho em uma lanchonete que também funciona como bar. É puxado, mas é o que me mantém. É o que paga minhas contas, é o que me dá independência.
Na faculdade, sou conhecida por ser extrovertida. Falo alto, rio alto, não tenho vergonha de dizer o que penso. Os professores às vezes me olham com reprovação, mas sabem que eu tenho brilho. Eu não sou a melhor aluna, mas sou dedicada. Eu quero aprender, quero crescer, quero conquistar. E sei que vou.
Trabalhar em bar não é fácil. Homens bêbados, cantadas baratas, olhares invasivos. Eu aprendi a lidar com isso. Aprendi a ser firme, a impor respeito. Às vezes preciso levantar a voz, às vezes preciso chamar segurança. Já aconteceu de um cliente tentar me agarrar. Eu não hesitei: joguei a bandeja de cerveja nele e mandei sair. Não tenho medo. Eu sei me defender. Eu sei me impor. E é isso que me mantém segura.
O bar é pequeno, mas sempre cheio. Música alta, risadas, copos tilintando. Eu corro de mesa em mesa, equilibrando bandejas, sorrindo para quem merece, ignorando quem não merece. É cansativo, mas é meu trabalho. E eu faço bem.
A Dani é meu oposto. Ela é calma, reservada, delicada. Eu sou fogo, intensidade, ousadia. Mas é justamente isso que nos une. Ela me equilibra, eu a provoco. Somos amigas desde que nos conhecemos na kitnet. Eu estava ajudando ela a carregar caixas no dia da mudança. Desde então, nunca mais nos desgrudamos.
Naquela manhã, vendo Dani pronta para enfrentar o primeiro dia na penitenciária, senti orgulho. Ela tem coragem. Ela tem determinação. Eu sei que ela vai se destacar. Mas também sei que vai enfrentar perigos. E eu, como amiga, só podia desejar sorte.
— Você sabe que eu tô aqui, né? Qualquer coisa, me liga. — falei, segurando sua mão.
Ela sorriu, nervosa.
— Eu sei, Camis. Obrigada.
Eu a abracei forte. Dani é como uma irmã para mim. A família que eu perdi, eu encontrei nela. E eu sei que, de alguma forma, ela também encontrou em mim.
Enquanto ela saía, eu fiquei pensando na minha própria vida. Faculdade, trabalho, independência. Eu construí tudo isso sozinha. Eu não precisei de ninguém. Eu não precisei de família. Eu não precisei de homem. Eu sou Camila Torres. Eu sou extrovertida, ousada, independente. E eu não vou deixar ninguém me derrubar.
Mas, no fundo, existe uma parte de mim que ainda sonha. Sonha com respeito, sonha com amor, sonha com alguém que me veja além da ousadia. Eu escondo isso, eu disfarço com risadas e provocações. Mas está lá. E talvez, um dia, eu encontre.
Por enquanto, minha vida é faculdade de manhã e tarde, trabalho à noite, e amizade com Dani. Isso me basta. Isso me mantém. Isso me dá força.
E naquele dia, vendo minha melhor amiga seguir para a penitenciária, eu sabia que nossas histórias estavam apenas começando. Histórias de coragem, de dor, de luta. Histórias que nos definiriam. Histórias que nos transformariam.