A noite tinha caído pesada sobre o Morro da Esperança. Céu fechado, sem estrela, sem lua ajudando. Só nuvem baixa e aquele escuro conhecido que faz as vielas parecerem mais estreitas do que já são. O som dos rádios dos vapores se misturava com o ronco constante das motos cortando o morro de cima a baixo, levando recado, mercadoria e aviso. Aqui nada para. E eu muito menos. Caminhei devagar, sem pressa, mas com o corpo todo atento. Olho varrendo cada canto, cada sombra, cada movimento fora do padrão. O cheiro de pólvora parecia grudado no ar, mesmo sem tiro naquela noite. Era cheiro antigo, de guerra que nunca acaba. O silêncio era falso, quebrado de vez em quando por vozes curtas no rádio. Código rápido. Informação limpa. Caveira andava se mexendo. Não do jeito burro. Do jeito perigoso.

