DANIELA - PRIMEIRO DIA

838 Words
O portão da Penitenciária Santa Cruz se fechou atrás de mim com um estrondo metálico que ecoou como um aviso. O som reverberou nos corredores estreitos, e por um instante senti como se estivesse entrando em outro mundo. O guarda ao meu lado, um homem alto, de expressão cansada e olhar endurecido, caminhava com passos firmes. Ele parecia carregar nos ombros o peso de anos de convivência com aquele lugar. — Você é louca de vir trabalhar aqui, menina. — disse, sem rodeios, a voz grave ecoando no corredor. — Aqui não é lugar pra gente como você. Isso aqui é o inferno. Engoli em seco, mas mantive o olhar firme. Eu sabia que não seria fácil, mas também sabia que era ali que eu precisava estar. Respirei fundo e respondi: — Eu sei dos riscos. Mas acredito que posso fazer diferença. Quero ouvir, quero entender. O guarda bufou, como quem já tinha visto muitos jovens cheios de esperança serem engolidos pela realidade brutal da prisão. Seguimos pelo corredor até o pátio. O cheiro de ferro, suor e mofo impregnava o ar. As grades altas separavam os presos, mas nada impedia suas vozes. Assim que me viram, os gritos começaram. Eram grossos, carregados de desejo e deboche. E ali por alguns segundos, eu gelei. — Olha a princesa chegando! — gritou um. — Gostosa! — outro berrou, batendo nas grades. — Ei, doutora, me tira daqui que eu te faço feliz! — gargalhou um terceiro. — Bonita desse jeito não devia andar por aqui, não… — completou outro, com um sorriso malicioso. Assobios, gargalhadas, gestos obscenos. O pátio inteiro parecia vibrar com aquela energia pesada. Eu mantive o olhar à frente, tentando ignorar, mas cada palavra parecia uma flecha. O guarda ao meu lado apertou o passo. — Tá vendo? É isso que eu digo. Você não tem noção do perigo. — murmurou, quase como um aviso. Meu coração acelerava, mas eu não podia demonstrar fraqueza. Respirei fundo e segui. O caminho até a sala de reintegração parecia interminável, cada passo acompanhado por gritos e provocações. Finalmente chegamos. A sala era ampla, com paredes descascadas e mesas de madeira gastas. O ambiente carregava uma tensão quase palpável. Quinze presos seriam trazidos para a sessão. Eu ajeitei meus cadernos sobre a mesa, tentando controlar o nervosismo. As portas se abriram e os presos começaram a entrar, algemados, escoltados por guardas. Um a um, eles se acomodavam nas cadeiras, mas não sem antes lançar comentários obscenos. — Que delícia, doutora. — disse um, lambendo os lábios. — Casa comigo, princesa. — outro provocou, rindo. — Se quiser, eu largo o crime só pra ficar com você. — zombou um terceiro. —Ah se eu tivesse sem algemas, em doutora — eles iam entrando e gritando. As palavras se misturavam em um coro de deboche. Alguns faziam gestos obscenos com as mãos, outros riam alto, como se estivessem em um espetáculo. Eu mantive o olhar firme, mas por dentro sentia o peso de cada provocação. E então, o último entrou. Ele caminhava com passos firmes, algemado, mas com uma presença que dominava o ambiente. Alto, tatuado, cicatriz no canto da boca, olhar frio e penetrante. Quando nossos olhos se cruzaram, senti um arrepio percorrer minha espinha. Era como se ele pudesse me ver além da superfície, como se pudesse me desmontar com um simples olhar. Os outros presos continuavam gritando, rindo, provocando. O ambiente estava prestes a explodir em caos. Foi então que Coringa se levantou, a voz firme e carregada de autoridade ecoando pela sala. — Cala a boca, por.ra! — gritou, o som cortando o ar como uma lâmina. — Respeitem a menina. Deixem ela fazer o trabalho dela. O silêncio foi imediato. Os presos se calaram, alguns abaixaram a cabeça, outros desviaram o olhar. A presença de Coringa era esmagadora, e ninguém ousava desafiá-lo. O guarda observou em silêncio, surpreso com a obediência repentina. Eu respirei fundo, sentindo o peso sair dos meus ombros. Olhei para Coringa e murmurei: — Obrigada. Ele não respondeu. Apenas manteve o olhar fixo em mim, sério, bruto, como se estivesse me avaliando. Com o ambiente finalmente em silêncio, comecei a sessão. Falei sobre reintegração, sobre oportunidades, sobre escolhas. Alguns presos ouviram em silêncio, outros riram baixinho, mas ninguém ousou interromper. A autoridade de Coringa pairava sobre todos, garantindo que minhas palavras fossem ouvidas. Enquanto eu falava, sentia o olhar dele sobre mim. Não era de desejo, não era de deboche. Era algo diferente. Algo que me desafiava, que me testava. Eu sabia que aquele homem carregava ódio, vingança, brutalidade. Mas, naquele momento, ele me deu espaço. Ele me deu respeito. E eu sabia que isso mudava tudo. A sessão seguiu, cada palavra minha carregada de esperança, cada silêncio deles carregado de tensão. Eu sabia que estava apenas começando. Eu sabia que aquele era apenas o primeiro passo. Mas também sabia que, de alguma forma, minha história estava prestes a se entrelaçar com a dele. E isso me assustava. Mas também me fascinava.
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