Capítulo 8

1564 Words
— Caramba! Cadê você? — murmurei para a chave, como se ela pudesse me ouvir e vir correndo em minha direção. Percebendo que não ocorreria, já me encontrava a ponto de abrir o berreiro quando, para minha surpresa, a porta atrás de mim foi aberta com um clique. — Boa tarde, Beatriz. — A voz rouca do Bernardo soou pelo corredor. — Oi — escondi o rosto para ele não ver meus olhos marejados. Mas não foi possível disfarçar a voz trêmula. — Ei, o que houve? — Em um instante Bernardo estava ao meu lado, com uma das mãos grandes tocando meu ombro. — Por que está chorando? — Eu não estou chorando — funguei, sentindo as lágrimas finalmente escorrerem sem empecilho algum pelo meu rosto. Eu não me permitia chorar, somente em situações extremas, porque quando o fazia eu perdia totalmente o controle de mim. E eu odiava perder o controle. Sobretudo quando já estava praticamente no fundo do poço sem ter mais para onde cair. — Certo, e por que então você está... ahn... — Ta! — assumi, me encolhendo. — Eu estou chorando, mas não se preocupe. — Vem, você precisa tomar algo para se acalmar e depois pode me contar o que houve, se quiser — propôs todo solícito e eu quase cedi, visando me sentar em um sofá confortável por um momento. Meus pés estavam realmente latejando. Se eu não tirasse os sapatos, seria capaz de meus dedos gangrenarem. — Preciso entrar no meu apê e tirar esses sapatos — resmunguei mais para mim do que para o meu vizinho. — Tudo bem, só queria ajudar — recuou, colocando as mãos nos bolsos. Comecei a chorar ainda mais, ao fuçar novamente a bolsa, constatando que de fato havia perdido minha chave e a reserva estava no apartamento. — E-eu perdi minha chave! — Me joguei nos braços do Bernardo, meu rosto se chocou contra seu peito, deixando uma mancha de lágrimas em sua camiseta azul. Senti quando braços fortes envolveram meu corpo e eu até solucei. Julgo que eu chorava por tudo o que vinha acontecendo comigo de alguns meses para cá, desde a morte da minha mãe para o câncer de mama, ao meu desemprego. Por isso, quando Bernardo me apertou contra si, mesmo que não fossemos tão próximos, eu senti como se tivesse encontrado o caminho de casa. Foi bom. — Desculpe. — Mas durou apenas alguns segundos, pois logo eu recuperei a sanidade e me afastei. O que ele iria pensar de mim? A desesperada que saia abraçando quem visse pela frente. — Tudo bem — afirmou, mantendo uma das mãos espalmada em meu braço — Entra um pouco, você precisa se acalmar. — E muito gentilmente, Bernardo me guiou até o seu apartamento. Ele me sentou com delicadeza no sofá e disparou para outro cômodo, que eu imaginava ser a cozinha. Em seguida voltou com um copo de um líquido amarelo. — Fiz esse suco de maracujá hoje cedo. Está bem doce, acredito que vai te fazer bem — anunciou, me entregando o copo. Porém, como minhas mãos estavam um pouco trêmulas, graças ao choro, fiquei com medo de derramar e sujar o tapete felpudo branco abaixo dos meus pés. Segurei o copo com ainda mais firmeza e o levei à boca, sorvendo um longo gole. O suco realmente era de maracujá e estava bem adocicado, como eu gostava. Conjecturei em pensamento se Bernardo havia colocado açúcar ou adoçante. Mas deixei para lá, tinha preocupações maiores no momento. — Obrigada — agradeci, quando já me sentia um pouco melhor. — Eu perdi o controle, me desculpe. — Baixei os olhos para o chão, sem querer encará-lo. Eu interpretei uma cena vergonhosa diante do meu vizinho, pelo amor de Deus! — Que isso, ouvi o barulho da porta. E... bem... quis saber se estava tudo certo. — Senti seu olhar me queimando. — Já vou indo — levantei-me num átimo e fiz uma careta imediatamente. Meus dedos estavam dilacerados. — Calma. — Bernardo tocou meus braços, na tentativa de me convencer a ficar sentada. — Você mencionou que perdeu a chave, tem a cópia em algum lugar? — Dentro do meu apartamento. — Me ouvi lamentar. — Preciso ver se o porteiro tem uma cópia. Meu rosto estava pegajoso, por causa do choro e minha maquiagem devia estar toda estropiada. Eu precisava de um banho e da minha cama macia para me sentir um ser humano de novo. Mas até isso me foi n****o. — Vou ligar para a portaria e ver se consigo a cópia. Apenas fiz que sim com a cabeça, agradecendo mentalmente pela solidariedade do Bernardo. Mesmo que meus pés estivessem queimando dentro daqueles sapatos malditos. Afinal, ele não tinha culpa disso. Alguns segundos após, Bernardo retornou e sua expressão não era das melhores. — Infelizmente eles não têm autorização para guardarem cópia das chaves dos apartamentos — suprimi um gemido de tristeza e dor. — Mas se quiser pode tomar um banho aqui e depois acionamos um chaveiro ou talvez possamos arrombar a porta — brincou e não consegui evitar o sorriso que curvou os meus lábios. — Não quero incomodar, Bernardo. — Fiz menção de me levantar outra vez. — Já tomei muito do seu tempo. — Não esquenta, somos vizinhos. Eu não ia te deixar chorando no corredor daquele jeito. — Abriu um sorriso preguiçoso que me surpreendeu. Era um belo sorriso. — Ai — resmunguei, já não aguentando os sapatos e isso não passou despercebido pelo olhar atento do Bernardo. — Está sentindo dor? — ele correu até mim e tocou minha cabeça desajeitadamente, na sequência meus braços e por fim minha testa. — Meus pés — falei, sem conseguir esconder a cara de desespero. — Machucou? — Ajoelhou-se na minha frente, quando cai no sofá, com os dedos implorando que eu os salvasse daquele sapato torturador. — É que esse sapato é um número menor. — Sorri amarelo, sentindo minhas bochechas queimarem. — Então tira — respondeu como se fosse a coisa mais óbvia a se fazer. Entretanto, eu iria tirar os sapatos no apartamento do meu vizinho? Se bem que eu pisei no tapete claro da sala com os sapatos sujos. O que era pior? — Desculpe, devo ter sujado seu tapete — fiz uma careta de desgosto e Bernardo riu. — Esse tapete é da Rebeca, digamos que eu não ligo se você pisar nele agora. — Seu tom soou brincalhão, eu estreitei os olhos. Espera, cadê a mulher dele? Não via a Rebeca há semanas, não dava mais para ignorar a estranheza. Com toda a situação eu nem me toquei, mas agora a curiosidade gritou dentro de mim. Pisquei várias vezes, buscando alguma informação que deixei passar — Ela não vai se incomodar de me ver aqui? — A Beca não está morando comigo mais. —Ah! — deixei escapar, por fim, entendendo do que se tratava. O relacionamento acabou. Era isso, certo? Eu não devia ficar feliz com a desgraça alheia, então tentei manter a expressão o mais neutra possível. — Está tudo bem, minha irmã se muda daqui pelo menos quatro vezes ao ano, quando o aluguel do apartamento que ela alugou atrasar, ela pede perdão e volta pra cá. — Bernardo passou a mão pelos cabelos e um cacho solitário escapou por entre seus dedos. Espera, eu ouvi o que suponho que ouvi? — Como assim sua irmã? — gaguejei, congelando uma expressão de descrença na cara, ao passo que tentava assimilar a notícia. Eu pensava que eles eram um casal, poxa! Um muito estranho, precisava admitir, mas todo casal tinha suas peculiaridades, não é? — Você pensava que ela era o que minha? — devolveu e abriu os lábios com incredulidade, fazendo com que eu me sentisse uma completa i****a. — Sua mulher — falei baixinho, m*l pude ouvir minha voz. — Você não é a única — observou, sem nenhum resquício de chateação por minha gafe ridícula. — Talvez seja porque não somos exatamente parecidos. E acho que nunca chegamos a falar sobre esse assunto. — Não, eu nunca quis ser intrometida — refleti com o rosto queimando de vergonha. — Desculpe pelo equívoco. Eu era uma piada! — Relaxa, Beatriz. Você não foi a primeira a comentar esse tipo de coisa. — Me tranquilizou. — Agora faz sentido a forma que você me tratava —ele riu, balançando a cabeça. — Desculpe — repeti, fazendo uma careta. — Esquece isso, vai tirar o sapato? Quer um pouco de água para molhar os pés? — Mudou de assunto. Senti tanto alívio ao saber que Rebeca era a irmã dele, que quase gargalhei feito uma desvairada. Mas os meus pés estavam sendo torturados e isso me distraiu. Eu queria fazer uma dancinha da vitória, mas me poupei do papel ridículo. — Seria bom, meus pés estão me matando. — Julgava que respondi com clareza, mas acredito que apenas grunhi ao invés, tamanha a dor que eu sentia. — Dia r**m? — Muito — afirmei e a constatação de que fracassei na missão de conseguir um emprego me atingiu com força, piorando meu ânimo. — As coisas vão melhorar, Beatriz — seu tom soou tão sincero e caloroso — Não perca a fé — que, por um instante, diante das palavras do Bernardo, eu realmente acreditei que as coisas iriam melhorar.
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