Dois

1277 Words
Tainá narrando Hoje seria o dia de conhecer o tal do Alexandre o toda a família dele! Eu só queria dormir e acordar com isso tudo sendo um pesadelo. Levantei da cama me arrastando, com aquela sensação de peso no peito. Meu estômago estava embrulhado, e eu m*l consegui olhar meu reflexo no espelho. Não era nervosismo comum. Era medo. Medo de perder o controle da minha própria vida. Minha mãe já estava na cozinha, animada demais para alguém que estava prestes a entregar a filha para um estranho. Tudo estava planejado, desde a roupa que eu deveria usar até o horário exato de sair de casa. Eu me vesti em silêncio. Não porque concordava, mas porque não tinha forças para discutir de novo. Enquanto fechava o zíper do vestido, a imagem do homem do restaurante veio à minha mente sem pedir permissão. O jeito confiante, o olhar firme, a presença marcante. Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento. Aquilo não tinha nada a ver comigo. Nada a ver com casamento, herança ou tradição. Fátima: Olha quem já está pronta – riu. Tainá: Pois é! Antes arrumada não querendo do que desarrumada. Ela fingiu não perceber a ironia na minha voz e voltou a ajeitar a bolsa como se estivesse indo para uma festa, não para uma reunião que decidiria meu destino. Meu pai apareceu na porta do corredor logo depois, sério, mas com aquele olhar preocupado que só ele tinha quando sabia que eu estava sendo empurrada para algo que não queria. Roberto: Filha, está tudo bem? Tainá: Não. Mas vamos fingir que sim, né? Parece que é isso que todo mundo espera. Ele respirou fundo e se aproximou, falando mais baixo. Roberto: Eu sei que não é fácil. Se dependesse de mim, você não estaria passando por isso desse jeito. Assenti, sentindo um nó se formar na garganta. Não queria chorar. Não ali. Pouco tempo depois, já estávamos no carro. O caminho parecia mais longo do que realmente era. Cada rua que passava me deixava mais nervosa, como se eu estivesse indo ao encontro de algo que não tinha como evitar. Quando o carro parou em frente à casa da família dele, senti meu coração acelerar. Era grande, imponente, daquele tipo que faz a gente se sentir pequena antes mesmo de descer do carro. Respirei fundo e coloquei o pé para fora. Foi então que eu vi. O mesmo homem do restaurante. A mesma postura, o mesmo olhar firme, a mesma presença que tinha me feito comentar com as meninas no dia anterior. Meu corpo gelou na hora. Ele virou o rosto na nossa direção e nossos olhares se cruzaram. Foi nesse instante que eu tive certeza. O homem que tinha chamado minha atenção sem eu saber o nome, sem eu saber quem era, não era apenas um desconhecido bonito. ⏰ Assim que entramos, senti o peso daquele lugar. Tudo era grande demais, organizado demais, silencioso demais. Era o tipo de casa onde as pessoas falavam baixo e pensavam alto. Alexandre caminhou até nós com passos firmes. De perto, ele parecia ainda mais seguro do que no restaurante. Usava uma camisa social clara, mangas dobradas, e tinha aquele olhar atento que me deixava desconfortável e curiosa ao mesmo tempo. Alexandre: Boa noite. Roberto: Boa noite. Prazer em conhecer Alexandre. Alexandre: O prazer é meu. Ele então olhou para mim. Alexandre: Então você é a Tainá. Tainá: Sou. Antes que o clima ficasse estranho, uma mulher elegante se aproximou. sobriedade, mas o sorriso era acolhedor. Helena: Seja bem vinda, Tainá. Eu sou Helena, mãe do Alexandre. Fico feliz que finalmente possamos nos conhecer. Tainá: Obrigada. Prazer, dona Helena. Helena: Nada de “dona”, por favor. Fique à vontade. Logo atrás dela surgiu um homem alto, postura firme, olhar sério. Augusto: Sejam bem vindos. Sou Augusto, pai do Alexandre. É uma satisfação recebêlos. Fátima: A casa é linda. Obrigada por nos receberem. Helena: Espero que se sintam confortáveis. Vamos para o jantar. A mesa era grande, elegante, impecável. Sentei ao lado de Alexandre, o que só aumentou meu desconforto. Durante o jantar, a conversa girava em torno de política, compromissos e tradição. Augusto: Alexandre sempre foi muito responsável. Disciplina e honra são valores que prezamos nesta família. Helena: Ele também sempre foi muito dedicado. Quando se compromete, leva a sério. Alexandre apenas assentiu. Fátima: A Tainá também é uma menina responsável. Sempre pensou muito na família. Sorri de leve, mesmo sabendo que aquela conversa parecia mais uma apresentação formal do que um jantar. Em certo momento, Alexandre se inclinou um pouco na minha direção. Alexandre: Imagino que tudo isso esteja sendo difícil para você. Tainá: É… não é exatamente como eu imaginei conhecer a família do meu futuro marido. Ele sorriu de canto. Alexandre: Nem eu imaginei que seria assim. Augusto: Esse casamento é importante. Ele representa o encerramento de uma dívida antiga e o fortalecimento entre nossas famílias. Helena: Mas também acreditamos que, com o tempo, o respeito e a convivência podem transformar qualquer começo difícil. As palavras dela foram suaves, mas não apagaram o peso da obrigação. Olhei para Alexandre mais uma vez. Ele parecia dividido entre o que sentia e o que era esperado dele. Naquele jantar, entre discursos calculados e sorrisos contidos, eu entendi que aquele casamento não tinha sido planejado para nascer do amor. Mas, talvez, pudesse aprender a conviver com ele. Assim que o jantar terminou, senti um alívio estranho. Pelo menos aquela parte tinha acabado. As famílias continuaram conversando na sala, mas Alexandre se levantou e me olhou, como se estivesse pedindo permissão em silêncio. Alexandre: Quer dar uma volta no jardim? Acho que precisamos conversar. Hesitei por um segundo, mas assenti. Ficar ali dentro, cercada por olhares e expectativas, estava sufocante. O jardim era grande e bem cuidado. A noite estava fresca, e o silêncio ali fora parecia mais sincero do que qualquer conversa da mesa. Tainá: Então… acho que esse é o momento oficial em que a gente finge que está tudo normal. Ele deu um leve sorriso, mas logo ficou sério. Alexandre: Eu não gosto de fingir. E também não acho isso normal. Aquilo me pegou de surpresa. Tainá: Você não acha? Porque todo mundo lá dentro parece achar. Alexandre: Eles acham porque cresceram acreditando nisso. Tradição, compromisso, dívida. Para eles, isso vem antes de qualquer sentimento. Parei de andar e olhei para ele. Tainá: E para você? Ele demorou alguns segundos antes de responder. Alexandre: Para mim, isso é uma obrigação que eu não escolhi, mas que preciso cumprir. Assim como você. Cruzei os braços, tentando esconder o nervosismo. Tainá: Pelo menos você parece lidar melhor com isso do que eu. Alexandre: Não confunda silêncio com tranquilidade. Aquilo me fez respirar fundo. Pela primeira vez desde que tudo começou, senti que alguém realmente me entendia. Tainá: Eu te vi ontem. No restaurante. Ele arqueou a sobrancelha. Alexandre: Eu sei. Também te vi. Tainá: Se eu soubesse quem você era… Alexandre: Talvez nada tivesse sido diferente. Mas talvez fosse ainda mais estranho. Sorri de leve, sem perceber. Tainá: Você não é nada do que eu imaginei. Alexandre: E você também não. Ficamos alguns segundos em silêncio, mas não era desconfortável. Era aquele tipo de pausa que diz mais do que palavras. Alexandre: Tainá, eu não posso te prometer amor. Não agora. Mas posso te prometer respeito. Olhei para ele, sentindo algo apertar no peito. Tainá: Acho que, por enquanto, isso já é mais do que eu esperava. Voltamos para dentro em silêncio. Nada tinha sido resolvido, mas algo tinha mudado. Não éramos apenas duas famílias fechando um acordo. Éramos duas pessoas tentando sobreviver a ele.
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