Pedro narrando Eu nunca senti meu corpo tão pesado, tão gelado, tão perdido dentro de mim mesmo quanto naquele instante em que a mordaça saiu da minha boca e a voz daquele homem, aquele homem que eu passei a vida inteira sendo treinado para combater, caiu sobre mim como uma sentença que eu não sabia decifrar. — Eu não vou te matar. Aquela frase, dita daquele jeito seco, firme, carregada de raiva e de alguma coisa que eu não sabia nomear, me atingiu com mais força do que os golpes que eu vinha levando havia horas. E nem doíam mais os joelhos destruídos, nem queimavam mais as feridas abertas pela madeira, nem latejavam os pontos estourados. Meu corpo inteiro parecia adormecido, paralisado, porque a minha cabeça estava ocupada demais tentando processar tudo aquilo. Tudo. As palavras da m

