Pedro narrando Eu tava cansado. Cansado de um jeito que não era só físico, não era só dor no corpo, não era só o joelho queimando como se tivesse brasa por dentro. Era cansaço de alma, de cabeça, de coração, de tudo. Cansaço de olhar pra minha vida inteira e perceber que cada imagem que eu guardava como verdade tinha uma sombra por trás, uma mão puxando as cordas, uma mentira encaixada em cima da outra como se eu fosse um boneco de vitrine. Vinte e seis anos. Vinte e seis anos achando que eu era alguém por um sobrenome, por uma farda, por uma história de “honra” que me enfiaram goela abaixo desde criança. Vinte e seis anos sendo moldado pra ser arma de alguém, sem eu nem perceber. E agora eu tava ali, dentro daquele quarto, com o cheiro de hospital, com o peito apertado, com a garganta

