Cristal
Apenas fico olhando para o teto enquanto tento ao máximo dormir, mas o sono não vêm. Preciso sair um pouco, mas não quero ir para o jardim e ainda ser acompanhada pelos guardas.
A porta do meu quarto está fechada então posso fugir pela janela, meu quarto é no segundo andar, não será nada difícil descer com a corda que escondo debaixo da cama.
Eu tenho asas, acho que puxei da minha mãe, são prateadas, quase brancas, mas não sei voar, nunca fui ensinada, minha mãe até queria me ensinar a voar como ela, mas tinha medo que eu caísse e me machucasse então desistiu da ideia.
Vou prender ela na sacada e descer, já virou quase um hábito fazer isso.
(...)
Enquanto desço pela corda vejo que os guardas vão mudar de patrulha o que me dá oportunidade de sair sem muita dificuldade.
Caminho atrás dos arbustos até chegar em uma passagem em uma parte do muro.
Fico mais tranquila quando saio, pego um manto com capuz na mochila e coloco para não ser vista, pois não tem como passar despercebida já que todos sabem como a princesa é "especial e única"
Sou a única pessoa em todo esse lugar com cabelo platinado que reflete cores diferentes, qualquer pessoa que chegar a me ver vai saber quem eu sou.
Enquanto caminho pelas ruas iluminadas fico olhando as pessoas andando com seus amigos e namorados, eles tem liberdade para fazerem o que quiserem e eu não posso nem ter amigos se minha mãe não permitir.
Quando paro para pensar parece i****a eu reclamar dos meus problemas, pois qualquer um iria querer ser uma princesa ou príncipe. Eu daria tudo para sair por aí, matar monstros, me divertir em bares, festejar e não parecer uma princesinha chata e recatada.
Eu concordo com a minha mãe quando diz que não preciso de homem, eu realmente não preciso, não sonho em casar nem nada disso, mas não quer dizer que eu não queira me aproximar deles, tenho curiosidades, inclusive a de saber como é o corpo deles por baixo da roupa.
Fui explicada como funciona o corpo de uma mulher e de um homem, mas minha mãe nunca me mostrou ilustrações ou algo do tipo.
Só paro em frente a um bar animado, consigo ver pessoas dançando e se divertindo, inclusive uma mulher cantando no palco.
Entro no lugar e me dirijo a uma cadeira em frente ao bar, pego minha cardeira com dinheiro na bolsa para pedir algo.
—olá, poderia me servir vodka com limão?— pergunto para o garçom que para de olhar para o palco e olha para mim, está me analisando pelo que parece.
Garçom —você tem pelo menos idade para beber garota?— parece sério, mas como já estou acostumada só coloco duas notas de cem na mesa e ele parece esquecer na hora a pergunta.
—aproveita e traz a garrafa inteira— digo e ele apenas pega o dinheiro e traz a garrafa sem dizer uma palavra.
Bebo um gole da bebida que desce queimando pela garganta, mas apenas dou um sorriso depois. Fico olhando a mulher a cantar uma melodia animada enquanto toca violão.
Todos parecem felizes mesmo sendo pobres, acho que é o fato de poderem viver sem pensar em cumprir as expectativas de alguém.
Sinto uma presença familiar no local, quer dizer, não conheço a pessoa, mas sempre senti ela por perto, não como um anjo da guarda, pois sei que deseja minha morte.
Consigo ouvir uma discussão de dois homens perto do palco, ignoro enquanto tento ver onde esse ceifeiro deve estar, mas paro de procurar quando escuto gritos das pessoas, vejo pessoas começarem a sair do local, inclusive algumas vomitaram lá fora.
Vou para o meio do local ver o que aconteceu, consigo ver um homem no chão, ele está com um pedaço de garrafa atravessado em sua boca, mas parece ainda estar vivo, tem um homem na frente dele assustado, provavelmente culpado por ter agido sem pensar por causa do álcool.
Enquanto olho para o homem no chão vejo uma linha vermelha se formar, está flutuando no ar ligada ao corpo, quando ia me aproximar para ver melhor ela é cortada por uma foice, quando viro meu olhar vejo um homem alto de cabelos pretos, seus olhos são de um azul escuro anormal, suas asas são extremamente grandes e pretas, mas na ponta parece ter algo extremamente afiado.
Quando nota que estou o encarando vira o rosto e sai do lugar pela porta, acho que ninguém vê ele, pois se não estariam assustados ou algo do tipo, corro para segui-lo antes que possa sumir.
Não tem muita coisa interessante acontecendo na minha vida, talvez seja uma forma de sair dessa rotina chata.
—por favor, espera ceifador— digo enquanto ando rápido tentando acompanhá-lo sem parecer que sou uma maluca vendo coisas.
***** —ceifador?— sua voz é firme e grossa, além do tom irritado, parece que o ofendi, sei lá.
—sei que deve estar ocupado recolhendo almas, mas se tiver um pouquinho de temp...
***** —estou ocupado garota, vai encher a paciência dos seus servos ou da sua mãe— diz indo para um distrito mais pobre, está indo em direção a um hospital pelo que vejo.
Quando minha mãe usou a jóia da criação em mim, acabei conseguindo alguns poderes especiais, um deles é poder ficar invisível para os outros. Uso esse poder para as pessoas não repararem mais em mim enquanto o sigo.
Quando chegamos a um hospital fico longe dele o observando recolher as almas das pessoas que estão destinadas a morrer, mas vejo que ele para ao ver uma mulher ao lado de uma menininha que parece morta, depois de algum tempo vai lá e recolhe a alma da criança depois de alguns minutos de óbito.
Quando parece que ele terminou vem em minha direção e segura meu braço me puxando para fora do lugar
Ele segurou meu pulso...
*Ceifador" —tem como você parar de me seguir?!— acho que está realmente bravo.
—eu nem atrapalhei seu trabalho, só fiquei olhando— digo de forma séria o que faz ele soltar minha mão e se afastar.
*Ceifador* —olha aqui garota, já não basta você estar viva para estragar meu trabalho, ainda quer atrapalhar tudo? Não é porquê consegue me ver que é especial, você não é a única estrela no céu, vai fazer alguma coisa de útil, vai!— seu olhar para mim é mortal, isso me faz andar para trás.
—me desculpe se realmente atrapalhei você, não foi minha intenção— digo abaixando um pouco a cabeça, sei que o trabalho que faz é importante, mesmo que eu esteja curiosa sobre várias coisas não deveria estar o perseguindo.
Escuto ele a suspirar o que me faz olhar para cima, para seu rosto sério.
*Ceifador* —se eu tirar suas dúvidas para de me perseguir certo?— só abro um sorriso e concordo com a cabeça.
—certo Morte— quando digo isso ele apenas olha para cima, parece até estar pedindo paciência.
*Ceifador* —vamos começar assim, nada de me chamar de Morte, ceifador, Anúbis etc— diz enquanto caminha para algum lugar.
—e do que exatamente eu deveria chamar você?— pergunto enquanto o sigo sem pressa, pois está devagar.
*Ceifador* —Necro ou Raven, eu não tenho um nome exatamente, só um trabalho que você vive atrapalhando literalmente— quer dizer que pelo fato de eu estar viva estou atrapalhando o trabalho dele?
—Raven? É diferente, o que significa?
*ceifador* —corvo— diz parando de andar quando chegamos a um campo quase vazio, tem uma árvore ao longe com um banco de madeira no lado.
—Necro me lembra necromancia, tem o mesmo significado não?— noto que ele só concorda quando se vira e senta no banco.
*Ceifador* —faz mais sentido já que eu tenho que lidar com mortos o dia todo— diz sem olhar para mim enquanto pega uma lista em seu blazer preto, está com uma caneta tinteiro riscando palavras, acho que são nomes.
—acho que vou chamar você de Raven. Seu trabalho é sempre esse? Não se cansa?— eu não aguentaria fazer o mesmo trabalho por muito tempo, não sei como minha mãe aguenta ser rainha e ficar sentada por horas assinando documentos.
Raven —fui criado para isso, é um trabalho importante, eu querendo ou não fazê-lo, agora se já fez suas perguntas, tenho coisas para fazer— acho que ele quer se livrar de mim de todo o jeito.
—por que aparece a cada ano para me ver?— acho que é um detalhe que preciso saber.
Raven —ver se está perto ou longe de morrer, gosto de fazer meu trabalho direito, e faz 17 anos que fico andando com uma lista que não terminei de completar por causa de um único nome, o seu— é, ele está esperando que eu morra.
—é tão importante assim riscar meu nome?— digo sentando no mesmo banco, mas quando faço isso ele levanta como se eu tivesse alguma doença contagiosa que faz ele querer ficar longe.
Raven —riscar seu nome agora não resolveria todos os problemas que já foram causados por causa do tempo que se passou, mas amenizaria um pouco, então vou continuar esperando que vá morrer de algum acidente ou assassinato— Deus.... Ele não é nem um pouco delicado.
—....— antes que eu possa fazer mais alguma pergunta ele simplesmente estala os dedos e desaparece da minha frente.