Capítulo 14

1055 Words
P.O.V - DANTE A noite anterior ainda pesava em mim como um fardo impossível de ignorar. O corpo podia ter saído da cama de Helena, mas minha consciência... ainda estava lá. Envergonhada. Suja. Quebrada. Eu não era assim, o que estava acontecendo comigo afinal? Que p***a era aquela? Desde quando eu tinha rompantes de bondade daquela maneira? Eu estava sendo levado a um caminho que parecia estar sendo guiado por minha mãe, e eu odiava isso mais do que tudo. Mas os meus sentimentos não importavam, eu traí um acordo. Traí a confiança de Giulia. Mas mais do que isso — traí algo que começava a nascer dentro de mim e que, por puro orgulho e covardia, eu me recusei a aceitar. O problema é que os erros não somem só porque a gente se arrepende. Mesmo assim, vesti o paletó, ajeitei o relógio no pulso e fui cumprir minha obrigação: comparecer ao almoço familiar na casa dos meus pais. Era para celebrar o nascimento de Bianca e Chiara, Leona merecia que eu aparecesse, de todos os meus familiares ela era a única que parecia me entender um pouco. O tipo de evento em que sorrisos são exigidos e as verdades, abafadas por talheres e vinhos caros. Assim que cheguei, Leona correu até mim com uma das gêmeas nos braços e um sorriso cansado, mas verdadeiro. Leona era tudo que eu não era: doce, afetuosa, estável. Havia algo nela que sempre trouxe equilíbrio à balança da nossa família. Talvez por isso ela e eu nunca tenhamos competido — éramos opostos complementares. — Chiara quer o colo do tio preferido. — disse, e antes que eu pudesse negar, a menina minúscula estava nos meus braços. Era tão pequena. Frágil. Pura. - Como posso ser o tio preferido se ela nem me conhece? - Eu sorri ao pegar a pequena nos meus braços. - É só um detalhe! Gostaria que você me abençoasse com a oportunidade de um dia pegar um sobrinha que me prefira nos braços... - Disse Leona com seu sorriso gentil. E naquele instante, com aquele ser inocente encostado no meu peito, o peso do que eu havia feito se tornou ainda mais intolerável. Como se eu estivesse sujando algo sagrado apenas por existir perto. Era como se Chiara me olhasse nos olhos enxergasse o quanto eu não era digno de estar ali. Na sala, o restante da família já estava acomodada. Meu pai, Matteo, observava tudo com seu olhar firme e discreto. Um homem de poucas palavras, mas de autoridade pesada. Ao lado dele, minha mãe — Isabella — bebia uma taça de vinho branco, como se se preparasse para me dissecar com elegância. E então, claro… Lorenzo. Ele me lançou aquele sorriso cínico que parecia dizer “veio desarrumado como sempre?” mesmo que não dissesse uma palavra. — Dante — disse minha mãe, depois de alguns brindes e comentários triviais. — Você vai continuar flutuando por aí com esses negócios que ninguém entende, ou vai nos surpreender com um plano de futuro concreto? Direta. Como sempre. — Eu tenho um plano. — falei, devolvendo o olhar. — Vou me casar - Eu decidi arrancar aquele curativo logo. O silêncio que se instalou na mesa foi quase teatral. Lorenzo largou o garfo. Leona arqueou as sobrancelhas, surpresa. Meu pai apenas cruzou os braços, como se aguardasse algo mais. — Casar? — repetiu minha mãe. — Com quem? - O plano era dela, mas ela parecia surpresa, talvez com a velocidade dos fatos. Cruzei as pernas, encostando-me na cadeira com aquela arrogância ensaiada que sempre usava para disfarçar vulnerabilidades. — Ainda não é hora de dizer. Mas sim. Está decidido. Minha mãe sorriu de lado, desconfiada. Ela conhecia o demônio que havia criado, e naquele momento, eu concluí que ela sempre teve razão: Eu era um maldito egoísta manipulador. — Aposto que não é alguém do nosso círculo. É alguma peça perdida que você resolveu encaixar por capricho. Não respondi. Porque ela estava certa. E errada. Ao mesmo tempo. Leona tentou aliviar a tensão, mudando de assunto, mas o estrago já estava feito. Minha mãe me encarava como quem tenta adivinhar um segredo. E Lorenzo? Ah, Lorenzo apenas sorriu, aquele sorriso de quem pressente que em breve haverá algo para criticar — e com razão. Mas eu já estava longe dali. Na minha mente, Giulia aparecia com seu olhar ferido, sua força silenciosa, seu “não” cheio de dignidade. O contraste entre ela e aquela cama onde eu acordei era brutal. Era a diferença entre o que eu quero… e o que eu ainda não sei se mereço. Segurei a mão de Chiara de leve. Ela apertou meu dedo com força surpreendente. E naquele toque, quase imperceptível, desejei — pela primeira vez de verdade — poder ser digno da mulher que eu traí antes mesmo de conquistá-la. Ela ainda não sabia do que eu fiz. Mas quando soubesse... talvez não houvesse mais chance. Eu precisava desesperadamente consertar aquilo, mas antes, eu precisava sobreviver aquele jantar infame com minha família de lobos, aguentar o silêncio do meu pai sempre desconfiado de mim, ouvir minha mãe tagarelar sobre como eu nunca aprendia uma lição, ouvir Leona puxar histórias e momentos felizes de nossa infância para aplacar a situação, minha cunhada apática sentada em um canto da sala com cara de poucos amigos, nunca participando inteiramente da conversa. Mas algo chamou a minha atenção, o pai de minhas sobrinhas na pemumbra com cara de poucos amigos e de que havia um segredo escondido, uma bomba que ele jogaria a qualquer momento em cima de todos. Eu o odiava, odiava ver o brilho da minha irmã sumir ao lado dele, odiava o jeito como ele olhava com tão pouco caso para minha sobrinhas. Mas resolvi deixar para lá, o peso das minhas ações estava me sobrecarregando o suficiente para me preocupar com os problemas conjugais da minha irmã. Eu precisava de todo jeito contar a verdade para Giulia, justificar o mau que eu havia feito, pedir perdão e dizer que eu não a via como um brinquedo para eu magoar. Mas quando eu pensava nisso, eu ficava nervosos, distante... Pela primeira vez eu não sabia o que fazer. - Dante... Dante, você está entre nós? - Disse Leona depois de eu dissociar por uns trinta minutos.
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