Capítulo 5 : Isso é errado

1588 Words
Gabriel Salles Entro na delegacia como quem entra no próprio território. Cumprimento alguns agentes pelo caminho com um aceno breve e sigo direto para minha sala. Estou prestes a girar a maçaneta quando uma voz familiar e melosa soa atrás de mim. — Por que sumiu, hein? — pergunta Bethany, com aquele sorrisinho atrevido enquanto desliza os dedos pelo meu peito. Ela é uma policial novata. Boa de mira, rápida de raciocínio... e com uma boca que me ajuda a aliviar o estresse quando estou atolado de serviço e sem tempo pra Tamara. — Não é hora pra isso, Bethany. Quer que alguém veja? — respondo, tirando a mão dela do meu corpo. — Droga, Gabriel… — ela bufa, irritada. — Tô cansada de mandar mensagens, te ligar mil vezes e nada. Nem um retorno. É isso? — É simples. Eu detesto cobranças. Quando eu quiser te f***r, sei exatamente onde te encontrar. — solto seco, entrando na sala. Mas ela não se dá por vencida. Bethany entra atrás de mim e começa a desabotoar a blusa como se estivéssemos sozinhos no mundo. Vem andando devagar, mordendo o lábio. — O que você tá fazendo? — rosno. — Matando a saudade... gostoso. — sussurra, colando o corpo no meu e beijando meu pescoço. Seguro firme nos ombros dela e a afasto com firmeza. — Veste essa merda agora e volta pro seu posto. Ela dá dois passos pra trás, os olhos em chamas, e começa a se recompor rapidamente. Mas antes que termine de fechar os botões, a porta se abre. Michael. Ele para na porta, encara a cena com uma sobrancelha arqueada e segura o riso enquanto Bethany sai vermelha de vergonha, quase tropeçando no salto. — Que p***a foi essa? — pergunta ele, fechando a porta atrás de si. — Não sabe bater, não, viado? — Eu devia colocar uma plaquinha de "Não atrapalhe", é isso? — diz, rindo alto e se jogando na cadeira à minha frente. — c*****o, até a Bethany? — Vai se f***r. — Agora entendi porque levei tanto fora dela. Tu não deixa escapar uma, né? — Se eu soubesse que ela era chiclete, tinha deixado o pacote todo pra você. — Tô fora. — diz, erguendo as mãos. — Mas é bom você tomar mais cuidado. Se fosse outra pessoa entrando aqui, você tava fudido. — Quem é o maluco que entra na sala de um delegado federal sem bater? Só você mesmo, descarado. — Um dia eu ainda tomo um tiro só pra aprender. — Tomara. Michael ri, mas logo o clima muda. Ele me encara mais sério. — Mudando de assunto… sua sobrinha já chegou? — Sim. Chegou ontem. — Cara, sei que você quis fazer um favor pro Júlio, mas... tem certeza que foi uma boa ideia? — Jeremias não seria i****a de tocar num fio de cabelo da filha do meu irmão. Ele me conhece. Michael respira fundo, cruzando os braços. — Mesmo assim, você sabe como esse desgraçado opera. Subestimação é o primeiro passo pra merda acontecer. Eu sei. E ele tem razão. Mesmo que eu nunca admitisse em voz alta, aceitar a Jessy aqui foi uma decisão impulsiva. Com Jeremias solto, qualquer pessoa ao meu redor se torna vulnerável. E Jessy... é sangue do Júlio. Isso já basta pra virar alvo. Jeremias quer vingança. E tem um motivo. Fui eu quem matou o pai dele numa operação anos atrás. Ele me jurou de morte — e não é o tipo de promessa que se esquece. Mas eu não me arrependo. Eu entrei nessa carreira sabendo o peso da farda. Fui contra todos, contra minha família, contra a Emma, contra o próprio instinto. Não me tornei delegado pra seguir regras confortáveis. Me tornei pra caçar monstros. E eu caço bem. — O Joseph tá cuidando dela — digo, rompendo o silêncio. — Ex-fuzileiro. Leal. Mora comigo desde que salvei a vida dele. Não confio em muita gente, mas nele eu confio. — Mesmo assim... fica atento. Não é só tua esposa que precisa de proteção agora. Olho pro teto por um segundo. Suspiro. Jessy. Linda, cheia de vida, ingênua... E totalmente fora do mundo que eu habito. — É. Você tem razão. — murmuro, mais pra mim do que pra ele. Preciso manter distância emocional. Foco. Mas toda a vez que ela sorri... esse plano desmorona um pouco mais. (****) Estava terminando de revisar alguns documentos administrativos quando o celular vibrou sobre a mesa. Atendi no primeiro toque, já prevendo problema. 📞 Ligação on — Delegado Salles. — Dr. Salles, é o Joseph. Me desculpe ligar assim, mas... — O que houve? — É sobre a sua sobrinha, senhor. Minha mandíbula travou. — O que tem a Jessy? — Ela se recusou a deixar que eu a levasse para a universidade. Disse que queria ir sozinha e simplesmente saiu. Não consegui convencê-la. — Ela fez o quê? — Exatamente isso, senhor. Fechei os olhos, respirando fundo. — Obrigado, Joseph. Deixa comigo. Eu resolvo isso. 📞 Ligação off Soltei um palavrão baixo e passei a mão pelos cabelos, exasperado. A Jessy sabia que eu tinha sido claro. Muito claro. Ela deveria ir e voltar com Joseph, ponto final. Olhei para o relógio. Estava quase na hora da saída dela da universidade. Empurrei os papéis para o lado, peguei minhas chaves e saí. (***) O trajeto inteiro de volta pra casa foi em silêncio. Um silêncio que gritava. Dirigia com os olhos na pista, mas consciente dos olhares que ela lançava pra mim de tempos em tempos, desviando rapidamente quando eu percebia. Me perguntava por que ela tinha desobedecido. O que havia se passado na cabeça dela? E sem querer — ou querendo demais — pensei se ela já tinha transado. Se alguém já tinha encostado nela, descoberto seu gosto, sua pele. O simples pensamento me deu vontade de socar o volante. — Merda. — rosnei, alto demais. — Tio...? Tá tudo bem? — Sim. Só pensei alto. Ela abaixou os olhos e voltou a olhar pela janela. Chegamos. Ela desceu e, antes que entrasse em casa, chamei: — Jessy. Ela se virou. — Amanhã, você vai com o Joseph. Entendeu? — Mas, tio, eu só queria... — Sem discussão. Você vai com ele. Ponto final. Vi a raiva contida em seus olhos. Vi também algo mais. Algo que eu não queria ver. Sem deixar espaço para réplica, arranquei de volta pra delegacia. — Achei que não voltava mais — disse Michael, quando entrei. — Fui buscar minha sobrinha. Ela se recusou a ir com o Joseph. — Sério? E ele deixou? — Não teve escolha. Mas já resolvi isso. Amanhã ela vai com ele nem que seja amarrada. Michael deu um riso abafado. A gente se conhece desde o exército. Já salvamos a vida um do outro mais de uma vez. Ele é o único em quem confio de verdade. Ele senta na minha frente e me encara com aquele olhar de quem tá prestes a provocar. — E aí... Quando é que vai me apresentar a sua famosa sobrinha? — Nunca. — Opa... Tá com medo que ela se apaixone por mim? — Jessy não é o tipo de garota pra um i****a como você. Falei mais alto do que devia. Mais duro do que queria. Michael me olha, surpreso. — Calma, irmão. Foi só uma piada. Respiro fundo. — Foi m*l. Eu... Não sei o que me deu. Ele dá de ombros e muda de assunto, mas minha mente já estava longe. No rosto dela. No olhar. No toque. Entro em casa exausto. Tudo que quero é um banho. Subo as escadas e passo pelo quarto da Jessy. A porta está entreaberta. Sem pensar, olho. E me arrependo no mesmo segundo. Ela dorme. Mas o lençol caiu um pouco para o lado. O suficiente para revelar parte de suas costas nuas. O cabelo loiro solto, desmanchado, espalhado pelo travesseiro. A curva suave de sua cintura. O leve subir e descer da respiração tranquila. Ela parecia uma pintura viva. Uma maldita obra de arte. Meus olhos ficaram presos nela. — Porra... — murmurei, rouco, sentindo algo dentro de mim explodir. Virei as costas no segundo em que ela se mexeu. Fechei a porta com cuidado e entrei no meu quarto. Despi-me apressado, com raiva. Não dela. De mim. Meu corpo respondia de forma incontrolável. Minha ereção latejava, dura, pulsando com uma força que eu não sentia fazia tempo. — Isso é errado. — sussurrei, como se fosse possível convencer meu corpo com palavras. Entrei debaixo do chuveiro gelado. Deixei a água cair, tentando esfriar o sangue, acalmar o fogo. Mas a imagem dela não saía da minha mente. E nem a ereção. Que tipo de homem eu me tornei? Saí do banho, ainda duro, ainda frustrado. Deitei na cama e fechei os olhos, desejando não pensar mais. Mas Emma despertou ao meu lado. — Gabriel...? — murmurou, sonolenta. Não respondi. Tomei sua boca num beijo possessivo, desesperado. Arranquei sua roupa e a penetrei com força, com pressa, com raiva. Como se fosse ela. Como se, de alguma forma suja, eu estivesse tentando exorcizar Jessy do meu corpo. Mas não consegui. Gozei com os olhos fechados... e o rosto dela cravado na minha mente. Fiquei deitado olhando pro teto, a respiração descompassada, o peito pesado. Isso precisa parar. Agora. Se preciso for, eu vou morar na delegacia. Dormir no meu maldito escritório. Mas eu preciso parar de desejar a minha sobrinha. Antes que seja tarde demais.
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