Capítulo 14 — O Som que Não Cala

715 Words
A casa estava silenciosa demais. Helena percebeu isso assim que empurrou a porta com cuidado, como se temesse acordar algo — ou alguém — que ainda respirava ali dentro. O rangido conhecido da madeira ecoou pelo corredor estreito, e o som bateu contra seu peito com a força de uma lembrança m*l resolvida. Ela não vinha ali há semanas. Desde a audiência. Desde a perda. Desde Miguel. A poeira leve dançava no ar sob a luz fraca que entrava pela janela da sala. Cada móvel permanecia no mesmo lugar, como se o tempo tivesse decidido respeitar aquele espaço, mesmo depois de tudo que havia sido quebrado. Helena deixou a bolsa sobre a mesa e caminhou lentamente até o centro da sala. Seus passos eram cautelosos, quase reverentes. — Ainda dói… — murmurou para si mesma. Dizia isso para a casa, mas sabia que falava para algo muito mais profundo. Ela tocou a parede onde, um dia, Miguel havia encostado a testa na dela, em silêncio, quando as palavras já não eram suficientes. A memória veio inteira, c***l, viva demais. A voz dele ainda ecoava. “Se a gente cair, cai junto.” Helena fechou os olhos, sentindo a garganta apertar. — Você mentiu… — sussurrou, com a voz embargada. — Ou eu que acreditei demais? O som de passos do lado de fora fez seu corpo enrijecer. Ela não esperava ninguém. O coração acelerou, não de medo — mas de reconhecimento. A porta foi aberta devagar. Miguel entrou sem dizer nada. Ele parecia mais cansado do que ela se lembrava. O rosto carregava marcas invisíveis, mas profundas. O olhar, antes firme, agora era um campo minado de arrependimento e desejo contido. Por alguns segundos, eles apenas se encararam. O ar ficou pesado. — Eu sabia que você viria — disse ele, por fim, quebrando o silêncio. Helena cruzou os braços, tentando proteger algo que já estava exposto demais. — Não vim por você. Miguel sorriu de lado, triste. — Veio por nós. Ela desviou o olhar, caminhando até a janela. — Não existe mais “nós”, Miguel. Você deixou isso bem claro quando escolheu o silêncio. Ele se aproximou lentamente, parando a poucos passos dela. — Eu me calei porque, se falasse, te arrastaria ainda mais para o fundo. — E você acha que me deixar sozinha foi me salvar? — ela se virou, a voz firme, mas os olhos brilhavam. — Você me fez perder tudo. Minha reputação. Minha segurança. E… — a voz falhou — a única coisa que ainda fazia sentido. Miguel respirou fundo. — Eu perdi você. As palavras não foram ditas como desculpa, mas como confissão. — Não — Helena respondeu, sentindo o peso do que dizia. — Você abriu mão de mim. O silêncio voltou a se instalar, mais denso do que antes. Miguel passou a mão pelos cabelos, claramente lutando contra algo dentro dele. — Tem coisas que você ainda não sabe. Ela sentiu o estômago revirar. — Sempre tem. — Eduardo não agiu sozinho — ele disse. — E a casa… — olhou em volta — … nunca foi só um símbolo. Ela guarda algo que pode mudar tudo. Helena franziu o cenho. — Mudar como? Miguel deu mais um passo à frente, a voz baixa. — Ou te libertar… ou nos destruir de vez. O coração dela batia forte demais. — E você só decidiu me contar isso agora? — Porque agora você não pode mais fugir. Ela riu sem humor. — Fugir é a única coisa que me restou. Miguel estendeu a mão, hesitante, como se não tivesse o direito de tocá-la. — Ainda tem dois corações batendo aqui, Helena. Mesmo que você tente negar. Ela encarou a mão dele por longos segundos. Não a tocou. Mas também não se afastou. — Se eu ficar — disse ela, em voz baixa — você vai me contar tudo. Sem segredos. Sem proteção falsa. Miguel assentiu, sério. — Até o fim. Helena respirou fundo. A casa parecia pulsar ao redor deles, como se reconhecesse aquele momento. Ela não sabia se estava prestes a se salvar… Ou a se perder de vez. Mas sabia de uma coisa: O som que vinha dali — daquele espaço, daquele olhar, daquela dor compartilhada — não iria mais se calar.
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